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Ruth Guimarães
O ciclo dos dois compadres tem história muito interessante, e sem dúvida este
relato do folclore valparaibano é dos melhores:
Moravam numa fazenda dois compadres. Um rico, que era o fazendeiro, outro tão
pobre que não possuía de seu nem a tapera onde morava. Andava em farrapos e não
tinha muitas vezes o que comer. Num certo Natal, em que as coisas andaram
particulamente más, sentados diante do fogão apagado, o compadre pobre e sua
mulher conversavam com amargura, que não poderiam cear, por não ter o que.
— Nosso compadre bem poderia ter se lembrado de nós, com uma leitoinha, não
mulher?
A esse diminutivo carinhoso de leitoa, lambeu ele mesmo os lábios.
— É mesmo. E a mulher também lambeu os beiços de vontade de comer carne assada.
— E se a gente fosse roubar uma...?
— Credo! — exclamou a mulher, porém ficou pensativa.
Permaneceram em silêncio longo tempo, e, por fim, o marido resolveu:
— Quer saber de uma coisa, mulher? Nós vamos roubar uma leitoa do compadre. Ele
é miserável, não deu por bem, vai dar sem querer.
Lá se foram, marido e mulher, para a aventura. Ele seguiu abaixado pelo meio do
mato, pois queria entrar no chiqueiro pelos fundos. A mulher pôs um lençol na
cabeça e ficou numa santa cruz à beira do caminho, fingindo-se de fantasma, para
espantar algum possível viandante, que desconfiasse das furtivas idas e vindas
do homem.
Altas horas da noite escura, um andante passou, se benzendo pela santa cruz.
Olhou para dentro dela e viu um vulto branco. Firmou bem os olhos e o vulto se
moveu, agitando os braços. No mesmo instante o fantasma começou a dar gemidos
feios, como de quem estava morrendo. Não foi preciso mais. O homem desandou a
correr pela estrada a fora e chegou à cidade botando os bofes pela boca.
Ora, na estrada da cidade morava um sapateiro sem pernas que batia solas até
horas mortas pois o serviço era muito e ele não tinha ajudante. Estava entretido
no remendo de um sapato, quando entrou um desconhecido como um furacão pela
oficina a dentro.
— Que é que o senhor quer aqui a estas horas? — perguntou o sapateiro, mas logo
se calou espantado, pois o homem estava mais branco do que cera e cambaleava
como um embriagado.
— Puxe uma cadeira e sente, homem. Que foi isso? Que aconteceu?
O homem sentou-se e depois de ter se acalmado e bebido água, por causa do susto,
contou a história do fantasma, visto e ouvido na santa cruz do caminho.
— Bobagem! disse o sapateiro fazendo uma careta de pouco caso — Fantasma é
coisa que não existe.
— Existe — Eu vi. Vamos lá que o senhor verá também.
— Bem que eu gostaria de ir — falou o sapateiro — Mas não tenho pernas.
— Por isso não, eu levo o senhor nas costas.
Houve alguma relutância por parte do sapateiro, mas, por fim acabou montando no
desconhecido e já se foram ambos ver a assombração.
E então aconteceu novamente uma coisa espantosa. Quando iam chegando, a mulher
viu o homem com um volume nas costas, como estava escuro, para que pudesse
reconhecê-lo, pensou que fosse o marido com um leitão e perguntou:
— Voce trouxe ele vivo ou morto?
Ah! Foi um Deus nos acuda! O homem soltou um berro de fazer tremer as pedras,
jogou o sapateiro no chão, e saiu correndo. Qual não foi o seu espanto, quando,
ao passar pela sapataria, na entrada da cidade viu lá o sapateiro sentado,
remendando o mesmo velho sapato!
— Meu Deus — gemeu ele, pensando que estava vendo outra assombração. — Meu
Deus!... Eu joguei esse homem no chão, longe daqui mais de sete quilômetros.
Esse homem não tem pernas. Como foi que ele chegou aqui na minha frente?
Entrou na sapataria e perguntou:
— Você é o sapateiro sem pernas?
— Sou, sim senhor.
— Não existe outro nesta cidade, aleijado como você?
— Não senhor.
O homem não conseguia acreditar.
— Então foi você mesmo quem foi ver a assombração montado nas minhas costa?
— Eu mesmo, sim senhor.
— Então homem — bradou, sem poder se conter — Como é que você sem pernas, chegou
aqui primeiro do que eu?
— Não tenho pernas, mas tenho braços e tenho cabeça. — disse o sapateiro — Olhe
aqui na minha testa.
Ai o outro reparou que ele estava com a testa esfolada e cheia de terra. Mas
assim mesmo não compreendeu o mistério.
— Que foi isso? — perguntou sem saber o que pensar.
— Isto? Quando eu vi que ficava sozinho lá no meio da estrada, naquele escuro,
junto com uma assombração, resolvi correr de qualquer jeito. Não tenho pernas,
corri com as mãos e com a cabeça. Punha a cabeça no chão e virava uma
cambalhota. Tornava a por a testa no chão e dava outra cambalhota.
O desconhecido deu muita risada e disse:
— Assim é que você não acreditava em fantasma?
O sapateiro também riu, ficaram os dois muito amigos, e foram cear juntos. E lá
na tapera do compadre pobre houve uma bela consoada com leitão assado na ponta
do espeto, recheado de farofa.
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