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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

A MISSA DE NATAL
ESPECIAL DE NATAL
ANO VI - EDIÇÃO 61
DEZEMBRO 2003

Ainda as taieiras, por Téo Brandão

A Missa de Natal

A queimada da palha em Passé, por Carlos Ott

Árvore de Natal, por Franscisco Pati

Auto da porfia das flores, por Gustavo Barroso

Bandeira de Reis

O ciclo dos dois compadres, por Ruth Guimarães

Ciclo folclórico de Natal, Eurico Nogueira França

Festa de Natal em Nova Almeida,por Leão Nunes

Festas de Natal, por Abelardo Duarte

Folclore de Natal, por Fausto Teixeira

Folia de Reis, por Solano Trindade

Já saíram de viagem para visitar Menino Jesus, por Rossini Tavares de Lima

O Natal através da voz dos animais, por Guilherme Santos Neves

O Natal com Jesus Cristo, por Celina Ferreira

Natal de ontem e de hoje, por Carlos Moliterno

Natal e Ano Bom, por Areobaldo Lellis

Natal e presentes, por Jorge Americano

Natal

Pastoril no Recife, por Valdemar Valente

Pinheiro, velas e fogueiras de Natal, por Almiro Caldeira

Presepes e lapinhas, por Téo Brandão

Reis Magos, santos esquecidos dentro das tradições do Natal, por Armando Gimenez

O reisado, por Téo Brandão

Terno das camponesas de Ibirataia, por Carlos Ott

Terno de Reis I, por J. C. Paixão Cortes

Terno de Reis II, por J. C. Paixão Cortes

Um palhaço de Reis, por Renato José Costa Pacheco

Um Reis-de-boi em Conceição da Barra, por Guilherme Santos Neves

Versos de Reis, por Renato José Costa Pacheco

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As cartas, opiniões e pedidos dos nossos leitores
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ESPECIAL DE NATAL

ESPECIAL DE NATAL: Nesta edição, textos sobre as manifestações populares relacionadas ao ciclo natalino...


Auto da porfia das flores

Gustavo Barroso

Este auto deve ser de autoria de um poeta de certa inspiração e cultura. É talvez de todos os autos de Natal o menos deturpado, de certo por se ter transmitido, em razão mesmo de sua feição culta, por meio de cadernos destinados aos ensaios, para se decorarem os diversos papéis.

Personagens:
A rosa, de saiote vermelho róseo; a flor de laranjeira, de saiote verde e corpinho branco; a sempre-viva, de saiote verde e corpinho amarelo; o cravo, de calções verdes e bluza encarnada; o lírio, de calções verdes e blusa branca.

Cenário:
Sala ou tablado diante da Lapinha.

A rosa:
Desço agora, alegremente
Do meu trono de verdura
Para adorar o Messias
Cheia de amor e ternura

A rosa, bela
Cor da alvorada
Das flores todas
Mais perfumada
Ao Deus nascido
Vem adorar
E o chão da gruta
Alcatifar!

A flor de laranjeira:
Deus vos salve, flor mimosa
Ides acaso a Belém?
Se assim é, muito me alegro
Pois para lá vou também

A rosa, com desdém:
Quem és tu, branca florzinha?
No jardim não te conheço

A flor de laranjeira:
No pomar é que floresço

A rosa:
Logo vi pelos teus modos
Que não és flor de salão

A flor de laranjeira:
Deveras, formosa dama?
Pois, na minha opinião
Mais vale ser flor do campo
Do que habitar o jardim
Se lá pela vossa corte
A polidez é assim

A rosa, rispidamente:
Sabes, florzinha insípida
A quem ousas replicar?

A flor de laranjeira:
Sei que falo a uma colega
De aparência não vulgar
Porém que o mérito perde
De sua grande beleza
Porque lhe sobeja orgulho
E falta delicadeza

A sempre-viva, entrando em cena a cantar:
Meu canteiro abandonado
Cheia de imenso prazer
Vou à gruta abençoada
Minha vida oferecer!
A sempre-viva
Constante flor
Quer adorar
Seu criador
Toda humildade
Vai neste instante
Beijar as plantas
Do Deus Infante!

A rosa:
Sê bem-vinda, sempre-viva!

A sempre-viva:
Como passais, linda rosa?

A sempre-viva:
Passo bem, muito obrigada!

A sempre-viva:
Sempre querida e formosa
Não é assim?

A rosa:
Mais ou menos.

A sempre-viva:
Dizei-me, ides a Belém?

A rosa:
Vou.

A sempre-viva:
E como seria bom
Que chegasse mais alguém
Convidei o cravo e o lírio
Que me disseram que sim
Mas julgo que ainda estão
Quietos lá no jardim

A rosa:
Aposto que eles não tardam
A ter conosco também
E, pelo aroma que sinto
Cuido que o lírio aí vem

O lírio, chegando:
Do vale em que vivo oculto
Deixo a sombra tão querida
Para exalar meu perfume
Aos pés de quem me deu vida

Tímido lírio
Com alegria
Vem ver a pura
Virgem Maria
E, com delícia
Servir de alfombra
A quem como ele
Nasceu na sombra

A sempre-viva:
Porventura, branco lírio
Vem o cravo por aí?

O lírio:
Não sei, cara sempre-viva
Porque sozinho saí

A rosa, com enfado:
O cravo é pedante e gosta
De se fazer esperar
Por isso não me surpreendo
Que tarde tanto a chegar

A sempre-viva:
Colega, a vossa linguagem
Nos causa grande estranheza
Nem é de boa amizade
Nem de amável gentileza

O lírio:
Certamente a linda rosa
Falou por simples gracejo

A rosa:
Ora, disse o que sentia
E bem entendo o que vejo

Faz-se o cravo soberano
No jardim, domínio meu
Porém debalde se agita
Porque a rainha sou eu

O lírio:
Questão de rivalidade
Que mal não pode trazer
À paz, amor e harmonia
Que entre todos deve haver

A sempre-viva:
Que dizes, flor de laranja
Tão bela e tão reservada?

A flor de laranjeira:
Que a conversar com a rosa
Prefiro ficar calada

A rosa, avançando para ela:
Ó camponesa insolente
Fora da minha presença!

A flor de laranjeira, rindo:
Para virar-vos as costas
Não careço de licença
Porém agora não quero
Fazer-vos esta vontade

O lírio:
Minhas caras companheiras
Não se zanguem, por piedade!

Hoje é noite de alegria
Noite de riso e de amor
Cessem disputas e enfados
Em honra do Salvador!

A sempre-viva:
Diz bem o cândido lírio
Trégua a inimizade agora
Lá vem o cravo esperado
Que chegue e vamos embora!

O cravo, entrando em cena:
O rei das flores, humilde
Vem curvar-se à doce lei
De Jesus recém-nascido
Verdadeiro e único rei!

Deus das alturas
Feito menino
Se acha entre os homens
Qual peregrino
Vamos à gruta
Cheirosas flores
Levar-lhe aroma
Levar-lhe odores!

A sempre-viva:
Ilustre cravo encarnado
Foi grande vossa demora
Aconteceu-vos transtorno
Ou sois preguiçoso agora?

O cravo:
Minha bela sempre-viva
Cor de ouro como o sol
Cá não estou há mais tempo
Porque achei um rouxinol
A cantar no meu caminho

A sempre-viva:
E paraste para ouvi-lo?

O cravo:
É que o lindo passarinho
Me chamou pra conversar
E, contra a minha vontade
Fui obrigado a escutar

A rosa:
Diga logo, senhor cravo
Com franqueza e bizarria
Que cavalheiros galantes
Já não os há hoje em dia

O cravo:
Pois eu me prezo de sê-lo
E é geral a opinião
Que mais delicado príncipe
Não pisa em nenhum salão

A rosa, zombando:
Ora, rapaz, tome sizo
Deixe-se de presunção

O cravo, com energia:
Sizo devia tomar
Quem por toda a parte busca
Desfazer um nome feito
Cujo brilho nada ofusca

Quem, com intrigas mesquinhas
E palavras de vaidade
Cede aos impulsos da inveja
Pra fazer guerra à verdade

A rosa:
Porventura tais palavras
A mim dirigidas vem?

O cravo:
Se tomou a carapuça
É que ela lhe assenta bem

O lírio:
Ainda mais outra contenda!
Lembrem-se, irmãos, por favor
Que hoje é a noite ditosa
Do Natal do Salvador!

O cravo:
Tens razão, amigo lírio
Mas é que aquela senhora
Traz sempre a lingüinha pronta
Pr'ofender-me a toda hora

Não vê que, como vassala
De minha real coroa
Ela deve acatamento
À minha augusta pessoa

A rosa, colérica:
Vassala? Que estás dizendo?
Conter-me mais já não sei!
Respeito à tua pessoa?
Quem é que te chama rei?

Soberana proclamada
Em todo o jardim sou eu
Pelas graças, pelo encanto
Que a natureza me deu!

O cravo, resolutamente:
Pois, se és rainha e senhora
Eu serei rei e senhor!

A rosa:
Um escravo revoltado
É o que és, um traidor!

O cravo:
Rosa, não queiras zangar-me
Já sabes quão forte sou
Teme as minhas justas iras
Vê que ninguém me curvou

Os meus direitos não cedo
De beleza e de perfume
E, se a negá-los te atreves
É que te cega o ciúme!

A rosa:
Ciúme? A flor que a alvorada
Beija com mais terno amor
Não tem de outra ciúmes
A todas superior

Nenhuma flor como a rosa
Tem no mundo aceitação
Nenhuma com ela pode
Suportar comparação

Eu sou a filha mais bela
Da fecunda natureza
A graça da primavera
Que sem mim não tem beleza

Não há ornato de flores
Ou fingidas, ou reais
Que dispense meus encantos
Elegantes, sem iguais

Contemplo a face mimosa
Da jovem pura e singela
E vê se o pejo não leva
Minha cor às faces dela?

E, quando houveres corrido
O imenso domínio meu
Vem confessar que das flores
A soberana sou eu

O cravo:
Tudo o que dizes, menina
Não passa de gabolice
Todos de si dizer podem
Igual ou maior tolice

O cravo é a mais importante
Flor que a natureza cria
Seu perfume é tão suave
Que a alma alegra e inebria

As suas pétalas foram
Recortadas em cetim
No céu, entre auras de incenso
Pela mão dos querubins

Para obtê-lo, nas festas
Não se poupa sacrifício
E o que se dá para havê-lo
Ninguém chama desperdício

Mas sobretudo nos bailes
E nos festins de noivado
Mais do que todas as flores
É o cravo apreciado

Entre as flores, pois, me cabe
De direito a primazia
Hei de vencer qualquer uma
Na mais renhida porfia

A flor de laranjeira:
Mais que a flor de laranjeira
Nos enfeites de noivado?
Protesto, cravo! Tu nunca
Foste nem és estimado

Não penses assim depressa
Da discussão triunfar
Porque também há quem queira
Contigo as armas terçar

Como a flor da laranjeira
Nenhuma flor se desata
Por entre as folhagens verdes
À luz dum luar de prata

Eu sou cândida e sou meiga
Sou mimosa qual nenhuma!
Que odor mais puro e saudável
Que o meu a noite perfuma?

Rara nas salas, embora
Não há festejo de amor
Em que jamais se dispense
Minha brancura e valor

E a bela festa de núpcias
Em que a noiva jocunda
Com flores de laranjeira
A pura fronte circunda!

Na medicina empregada
Eu dou ótimo produto
E, quando o vento me esfolha
Cai a flor, mas fica o fruto

Tenho muitos predicados
Viva embora no pomar
Pois não é merecimento
Ser deste ou daquele lugar

A sempre-viva:
Já que as colegas procuram
Seus dotes engrandecer
Entro também na porfia
E os meus procuro dizer

Disputam todas, vaidosas
Mimo, perfume e beleza
Pois quero desafiá-las
Pra disputarem firmeza

Sois tão franzinas, tão pobres
De resistência e de alento
Que vos desfolhais depressa
Ao leve sopro do vento

Mas eu me conservo bela
Qual fui nos dias de infância
Simbolizo a eternidade
E sou a flor da constância!

O firme amor entre os homens
É tido em estimação
E é raro achar-se na terra
Uma perene afeição

Se a mocidade e a beleza
Pudessem duráveis ser
Para os homens, que ventura!
Para as moças, que prazer!

Portanto, quando ofereço
Aberta, a corola de ouro
Guardam-me todos, sorrindo
Como se guarda um tesouro

Viva, pois, a sempre-viva
A florzinha sem igual
Que é símbolo de lembrança
E de afeição imortal!

O cravo, a sempre-viva e a flor de laranjeira, em coro:
Os nossos direitos
Defender queremos
E pela vitória
Lutemos, lutemos!

A rosa:
Diante de tais grandezas
Que acabam de expender
Há de a rainha das flores
Covardemente ceder?

A flor de laranjeira e a sempre-viva:
Não queremos soberana
Nem coroa, nem brasão!
Se teimais em vosso intento
Rebenta a revolução!

A rosa:
Pois sim! Jamais a estulice
Me há de fazer recuar!
Hei de, aos meus pés, humilhadas
Vossas cabeças curvar!

O cravo, rindo:
Vai chamar tuas cortes
Vai buscar teus esquadrões
Que os porei daqui pra fora
Com dois ou três cachações!

A rosa:
A zombar de mim te atreves
Vassalo atrevido e louco?

O cravo:
A tão grande soberana
Castigar-me custa pouco

A rosa, desembainhando um longo espinho verde:
Já de joelhos, covardes!
Para pedir-me perdão!

O cravo, fugindo a rir:
Ui! que ela com o espinho
Espeta o meu coração!

O lírio, contendo a rosa, que avançava contra o cravo:
Linda rosa, por piedade
Aos meus pedidos cedei!

A rosa:
Deixe que castigue a insânia
Deste ridículo rei!

O lírio:
Rosa, reflete, que a ira
Não dá razão a ninguém

A rosa, batendo o pé:
Deixa-me!

O cravo, rindo:
Se não guardas o espinho
Vai espetar-te também

A rosa:
Sou a rainha, a senhora
Posso punir um delito!

O cravo:
Pois, quando achar quem te ature
Tenhas lá teu faniquito!

A sempre-viva e a flor de laranjeira:
Não há rainha sem trono
Nem trono sem vassalagem
Ficai só, todas saímos
Não vos damos homenagem

O cravo, a sempre-viva e a flor de laranjeira vão retirar-se, o lírio os detém:
Esperai, caras amigas
Não fiqueis tão enfadadas
Terminais o vosso pleito
Dando a mão de camaradas

Mimosa flor de laranja
Minhas palavras escuta!
Sempre-viva delicada
Vê como é feia esta luta!

Pois é possível que o lírio
Assim vos suplique em vão?
E que ao seu conselho amigo
Não queirais dar atenção?

Vieram todas contentes
Para adorar ao Messias
E hão de trocar em desgosto
Nossas santas alegrias?

Ah! como esquecer podeis
Com tanta facilidade
Que o rei do céu e da terra
Dá exemplo de humildade?

Nós, que saímos do nada
E ao pó devemos voltar
Queremos cheio de orgulho
Nossa grandeza exaltar!

Enquanto ele, o Excelso
Deus Eterno, ó maravilha!
Desce do sólio da Glória
E às criaturas se humilha!

Ó deixai dessa loucura
Respeitai a divindade
E não disputeis grandeza
Perante sua humildade!

A flor de laranjeira:
Fala o lírio com prudência
Como se fosse um juiz!

A sempre-viva:
E acho que todas devemos
Aprovar o que ele diz

O lírio:
Pelo amor de Deus Menino
Rende-te, ó cravo! primeiro
Pois tu não és delicado?
Pois tu não és cavalheiro?

Por suas mãos ninguém pode
A primazia tomar
Compete à sociedade
Louvor ao mérito dar

Se cada um só consulta
Do amor próprio a opinião
No afã de elevar-se altivo
Chega a perde a razão

Deixemos, portanto, aos outros
Julgar o nosso valor
E do bem que recebamos
Demos graças ao Senhor!

O cravo:
Por minha parte, já cedo
A tão sensatas razões
E deixo para outro dia
Tão enfadonhas questões

O lírio:
Não é trégua de momento
O que peço, amado cravo
Pois tu desejas ser sempre
De tuas paixões escravo?

Não! A real liberdade
É a que nos faça, senhores
Desses nativos instintos
Causas de mil dissabores

Se de reinar entre as flores
Tens ambição, tens anseio
De tua causa a justiça
Confia ao bom senso alheio

Se o cetro bem mereces
Por excelências reais
De tuas mãos ninguém há de
Arrebatá-lo jamais

O mesmo direi à rosa
Cuja imponente beleza
É o encanto das salas
A glória da natureza

Cessem, pois, questões inúteis
Cessem ódios, sempres vis
E sejam tão razoáveis
Os dois quanto são gentis

O cravo:
Colegas, o amigo lírio
Pôde, enfim, me convencer
Co'as reflexões acertadas
Que ora acaba de fazer

E, quando a escutá-lo, atento
Sua modéstia contemplo
Mais do que suas palavras
Faz-me impressão seu exemplo

Todos, à própria beleza
Demos um grande valor
Só ele, humilde e calado
Não fez gabos de senhor

A sempre-viva e a flor de laranjeira:
É verdade! Nada disse
O lírio em abono seu

O cravo:
Quando, aliás, tantas graças
A natureza lhe deu!

A sempre-viva:
Pois já que não quis, humilde
Suas graças exaltar
Eu proponho que nós todos
Falemos em seu lugar

A flor de laranjeira:
Perfeitamente!

O cravo:
Apoiado!

O lírio:
Caras flores, obrigado!
Mas tratemos de seguir
Para Belém...

A sempre-viva:
Paciência!
Meu senhorzinho há de ouvir!

A flor de laranjeira:
Há de ouvir, não tem remédio.

O cravo:
Duas palavras somente
Começa tu, sempre-viva
Porque foste a proponente

A sempre-viva:
Entre as flores mais notáveis
Que brilham no verde hostil
O lírio elegante eleva
Seu majestoso perfil

Branco como leite e neve
Macio como cetim
Sua corola garbosa
Honra o mais rico jardim

A flor de laranjeira:
Urna de aroma suave
Deus quis do lírio fazer!
Perfume doce e agradável
Como o seu é raro haver

O cravo:
Lírio, conquistas a palma
Do maior merecimento
Porque da humilde modéstia
Nos destes o ensinamento

A sempre-viva à rosa:
Bela rosa, esquece as iras
E vem o lírio saudar
Ao coro de nossas vozes
Vem tua voz ajuntar

A rosa:
Sim, não quero da harmonia
Ser a nota discordante
E antigos ressentimentos
Esquecerei de ora em diante

Saúdo o lírio e convenho
De todo o meu coração
Que ele merece os louvores
Que em toda parte lhe dão

Quando o poeta procura
Comparar o puro alvor
É do lírio que recorda
A candídissima cor

E, assim, pelo seu encanto
Pela sua singeleza
O lírio foi escolhido
Para emblema da pureza

A Mãe de Jesus Infante
De Jesus, nossa alegria
Tem nele o ornato mais belo
O lírio é a flor de Maria!

Pois, quando esse nascimento
Veio o arcanjo anunciar
Trouxe lírios lá do céu
Para a sua fronte ornar!

E o puro esposo da Virgem
Que tão venerando é
Empunha um ramo de lírios
O lírio é a flor de José!

O lírio é mimo celeste
É da inocência o penhor
As almas em que ele brota
Têm as bênçãos do Senhor!

E o Cordeiro Imaculado
Que a pureza nos conduz
Entre lírios se apresenta
O lírio é a flor de Jesus!

O cravo:
Bravos, rosa!

A sempre-viva:
Muito bem!

A flor de laranjeira:
Viva o lírio! Viva a rosa!

O cravo, estendendo a mão à rosa:
Agora, sim, foste grande!
Porque foste generosa!

A rosa, apertando a mão do cravo:
Raiou em meu coração
A luz do céu e vos peço
Irmãos, a todos perdão!

O cravo, a sempre-viva e a flor de laranjeira:
E nós, ó querida rosa
Perdão pedimos também
Pelo amor do Deus humilde
Do Deus nascido em Belém!

O cravo:
Esqueçamos o passado
E, em sinal de união
Abracemo-nos contentes
Com sincero coração!

Enquanto os outros se abraçam, canta o lírio:
Que prazer, formosas flores!
Que prazer me dais, enfim!
Oh, que alegria suprema
Eu sinto ao ver-vos assim!

Cessa o orgulho, finalmente
De vibrar os golpes seus
E em vossas almas leais
Vence a união, vence Deus!

Graças ao Senhor Supremo
Que transforma a treva em luz
E sobre as almas geladas
Do bem o calor produz

O cravo:
Agora que estamos todos
Na mais completa harmonia
Vamos adorar aquele
Que nos sustenta e nos cria!

A sempre-viva:
Viva a união!

Todos:
Viva! Viva!

A rosa:
Viva o amor que ao bem conduz!

A flor de laranjeira:
Viva a paz!

O cravo:
Viva a humildade!

O lírio:
Viva o nome de Jesus!

O cravo:
Vamos a Belém depressa
E seja o lírio querido
Quem nos guie à santa gruta
De Jesus recém-nascido

Caminham aos pares: o cravo com a rosa, a flor de laranjeira com a sempre-viva e o lírio à frente, guiando-os. Cantam e fazem evoluções coreográficas variadas:
Ó noite cheia de encantos!
Ó noite cheia de amor!
Em que veio à luz do mundo
Nosso excelso criador!

Ó noite cheia de encantos!
Ó noite cheia de amor!
Em que veio à luz do mundo
Jesus nosso Salvador!

Ó noite de glória!
Ó noite imortal!
Em que a terra alegre
Celebra o Natal!

Ó Deus Sempiterno
Que humanar-se quis!
Noite, bendizemos!
Ó noite feliz!

Criador de céus e terras
Estas flores que fizestes
Oferecem-vos, sinceras
Os perfumes que lhes destes

Ó noite de glória!
Ó noite imortal!
Em que a terra alegre
Celebra o Natal!

Ó Deus Sempiterno
Que humanar-se quis!
Noite, bendizemos!
Ó noite feliz!

O lírio, sozinho:
Em honra do Deus Menino
Flor do céu imaculada
Em torno de sua gruta
Formemos uma grinalda!

Todos dançam de mãos dadas, rodeando o presépio:
Estas flores reunidas
Cercam os pés do Senhor
Nesta grinalda singela
Nesta grinalda de amor!

Desfazem a roda e bailam separados, cantando:
Ó flores mimosas
Tão belas e puras
Ornemos o berço
Do rei das alturas!

O lírio, sozinho:
Em honra do Deus Menino
Que vossa bondade aceite
Estas flores reunidas
Num pequeno ramalhete!

Todos se reúnem em grupo, fingindo formar um ramalhete, a bailar e cantar:
Ó flores sengelas
Louvai o Senhor
Deus onipotente
Vosso criador!

O lírio, sozinho:
Dispersas, todas as flores
Ornem esta gruta santa
Onde nasceu pelos homens
Jesus em pobreza tanta

As flores separam-se, cantando em coro:
Meu Jesus, em vossa gruta
Estas flores epalhadas
Se dariam por ditosas
Se por vós fossem pisadas!

Ó flores mimosas
Tão belas e puras
Ornemos o berço
Do rei das alturas!

O lírio, ajoelhado:
O lírio, prostrado, adora
Senhor, a excelsa bondade
Que vos fez nascer no mundo
Em tão profunda humildade!

O coro:
A rosa engraçada
O cravo cheiroso
Gentil sempre-viva
O lírio mimoso

E a flor de laranja
Todas estas flores
A Jesus consagram
Seus puros amores

O cravo, de joelhos:
O cravo vem, reverente
Com respeito e santo amor
Sua homenagem trazer-vos
Meu Deus, meu rei, meu Senhor!

O coro:
A rosa engraçada, etc.

A rosa, também genuflexa:
Maria, que sois chamada
A Rosa de Jericó
Eu vos saúdo humilhada
Rojando a fronte no pó!

O coro:
A rosa engraçada, etc.

A flor de laranjeira, pondo-se de joelhos:
A flor de laranjeira of'rece
Seu perfume salutar
A Jesus, autor das flores
Que veio a terra habitar!

O coro:
A rosa engraçada, etc.

A sempre-viva, ajoelhando-se:
A constante sempre-viva
Cheia do mais firme amor
Oferece ao Deus Menino
O seu eterno louvor

O coro:
A rosa engraçada, etc.

Todas, ora marchando, ora dançando:
Meu Jesus, estas florinhas
Co'o maior contentamento
Dão mil parabéns aos homens
Pelo vosso nascimento

O mundo não sabe
Que graça infinita
Lhe trouxe esta noite
Risonha e bendita

Louvemos, ó flores
O Deus das alturas
Que vem confundir-se
Com as criaturas

Com outras evoluções coreográficas:
Voltemos, voltemos
Ao nosso jardim!
Nunca flores houve
Felizes assim

Vimos e adoramos
Nosso criador
O Deus das alturas
O eterno Senhor!

Voltemos, voltemos
Ao nosso jardim!
Cantando louvores
Hosanas sem fim!

Quando a rajada do vento
Nossas pétalas arrancar
Mandai, Jesus, que elas venham
Em vossa gruta pousar!

Barroso, Gustavo. Ao som da viola (folclore); nova edição correta e aumentada. Rio de Janeiro, 1949, p.139-168