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A festa do Natal no folclore do Brasil
Folclore de Natal
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Ciclo de Natal
Mudaria o Natal ou mudei eu?
Presépio
Os fazedores de presépio
Figuras do presépio
Feliz Ano Novo, minha gente
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Evocação ao passado
Usos antigos
As Pastorinhas do Pará
Natal no Sul
No princípio eram os presépios...

 

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Dezembro 2010 - Ano XIII - nº 143

Edição Especial de Natal

No princípio eram os presépios...

Guilherme Santos Neves

Todos sabem certamente como se criou o primeiro presépio, que data do século XIII e foi ideado e construído pelo poverello de Assis. Devidamente autorizado pelo santo padre, São Francisco realizou, no Natal de 1223, seu belo sonho: numa gruta em Grécio, a representação simbólica e piedosa do nascimento do Menino Deus. Nesse mesmo local assim santificado, levantou-se, mais tarde, o Santuário de Grécio, denominado, por isso mesmo, a Belém Franciscana.

Aquela primeira reprodução do Natal de Jesus foi, desde logo, imitada em toda a parte, constituindo-se numa das mais bonitas tradições de todos os povos.

Leio no Folclore pernambucano, de Pereira da Costa (Rio de Janeiro, 1908, p.189), que:

“O uso dos presépios em Portugal, como refere frei Luís de Sousa, teve começo no convento das freiras do Salvador, em Lisboa, no ano de 1391, levantando-se, no meio do templo, uma armação, representando o estábulo de Belém, com figuras que interpretavam a cena do nascimento de Jesus”.

Há referências a presépios, armados no primeiro século da colonização do Brasil e expostos aos olhos espantados dos nossos índios e curumins. Em 1583, relatava Fernão Cardim: “Tivemos pelo Natal um devoto presépio na povoação (Espírito Santo, na Bahia), aonde algumas vezes nos ajuntávamos com boa e devota música”. (Tratado da terra e da gente do Brasil, Rio de Janeiro, 1925, p.301).

As representações quinhentistas de autos de devoção — como os de Gil Vicente — davam-se diante de presépios; da mesma forma que, aqui no Brasil, as velhas Lapinhas e autos pastoris populares, cantados e representados frente aos presépios, armados nas igrejas, nos pátios ou em casas de família.

E de tal forma se enraizou, entre nós, a tradição de armar presépio no Natal que, durante séculos, ainda permaneceu ela, inabalável e firme, como uma das notas mais expressivas e constantes do Natal brasileiro. Em todas as casas — ricas ou pobres — havia sempre o presépio, com a choupana ou a gruta, a Sagrada Família, os magos e pastores, os animais, o lago de espelho, o anjo, a estrela dourada ou prateada, suspensa do alto... Armado às vésperas do Natal, o presépio se conservava na sala até o dia de Reis, quando se guardavam, então, todas as peças, para o ano vindouro.

Depois...

Depois vieram as árvores de Natal, que cresceram depressa, enfeitadas e brilhantes — tradição estranha que, pela intensa propaganda, especialmente norte-americana, veio arrefecer o entusiasmo pelos presépios. Estes, hoje em dia, se armam nas igrejas e em algumas casas de famílias que ainda insistem teimosamente na velha tradição franciscana.

Mas, como evitar o seu desaparecimento?

Aqui em Vitória, já por duas vezes, a Comissão Espírito-Santense de Folclore patrocinou um concurso de presépios, ambos no bairro de Santo Antônio, graças à colaboração prestante dos padres pavonianos. Isso ocorreu em 1953 e 1956. Nosso propósito era (e é ainda) estimular principalmente as crianças — as grandes armadoras de presépios —, criando nelas o interesse e o gosto para essa tradição cristã, em vias de desaparecimento.

Este ano, um fato marcante veio trazer, talvez, maior atenção para os presépios. Refiro-me ao presépio mecânico, que — ainda mercê dos prestimosos padres pavonianos – foi armado no saguão do edifício dos Serviços Públicos. Nele, movem-se realmente as figuras — muito perfeitas —, deslizando, inclinando-se, ajoelhando-se; mudam-se as cenas do nascimento, e passam outras, como a da fuga da Sagrada Família, a afluência de fiéis à igreja etc.

É, de fato, um trabalho admirável, de engenho e muita arte, que merece ser visto por todos. Vale bem a pena.

Há tempos, através desta mesma A Gazeta, dirigi aos meus leitores o seguinte apelo, que agora renovo com o mesmo empenho:

É preciso que em todos os lares, na santa noite de Natal, se arme o presépio, como se fazia antigamente. Com ele se enfeitará muito mais expressivamente a casa do que com as árvores de Natal, cobertas de neve (que aqui não há), e iluminadas por lâmpadas multicores — tudo fabricado e comprado fora. O trabalho, neste caso, se reduz apenas ao enfeite da árvore, e nada mais.

No presépio, não. Há sempre alguma coisa, muita coisa que se faz em casa, que se prepara pelas mãos habilidosas dos pais e dos filhos, todos reunidos e empolgados no enfeite desse pequenino altar dedicado à Sagrada Família. É verdade que, em regra, as figuras do presépio são adquiridas nas lojas. Mas — quem sabe? — em algumas casas, o engenho de alguém foi que as modelou em barro, madeira ou massa, o que lhes dá mais valor e tem muito maior significação.

É urgente esse retorno aos velhos hábitos dos nossos maiores. E aqui vai o nosso apelo aos caros leitores, para que se armem, nos lares, os bonitos presépios ou as singelas lapinhas dos pobres, num gesto cordial de propagação e defesa das nossas belas e santas tradições do Natal!

(Neves, Guilherme Santos. "No princípio eram os presépios...". A Gazeta. Vitória, 04 de janeiro de 1959)

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