Dezembro 2010 - Ano XIII - nº 143
Dia de Ano Bom! Dia de Reis! Trabalhar o ano inteiro, economizando de mealha em mealha, até fazer seu mealheiro, para gastá-lo em dois dias! Que importa, se aqueles dois dias representavam para aquela gente simples e feliz melhor quinhão de alegria, entre a porção de alegrias que a vida sempre lhe dava. Aquelas festas, tão alegres e tão boas, espalhando um júbilo intenso e comunicativo entre aquela gente humilde e pobre, prodigalizando todas as compensações, lavando do coração todas as mágoas.
O desfile dos guerreiros reais, constituído por duas alas de congos, com as suas danças típicas, percorriam, cantando, todas as ruas da cidade, que se engalanavam para recebê-los. Calção de cetim azul, cocar de penas na cabeça e a pulseira de guizos, acima dos artelhos, guizalhando, guizalhando. Fechando as alas vinha o rei do Congo, acompanhado de príncipes e os demais componentes do séquito real. Logo atrás, embolado, vinha o candombe, num barulho desesperado, que de longe se ouvia, pelo tamborilar do instrumental negro: Santana, o tambor mor, tambu, grima, chama, crivo e a puíta. De espaço a espaço, a um sinal do rei, trilava um apito e todos os figurantes — congos e candobeiros — estacavam silenciosos. Dois negrinhos, empurrando a assistência numerosa, rompiam a multidão, carregando um banco enorme, que era colocado atravessado na rua, onde o rei se assentava com sua corte.
Mais uma vez, ia-se repetir a embaixada.
Orgulhoso e feliz, repimpado no banco, transformado em trono, o rei ali recebia o embaixador estrangeiro que, numa curvatura exagerada, fazendo roçar no chão as plumas do chapéu armado, proferia, respeitoso, a sua saudação:
— Andeus u atatêtu zambietê, cuiaraquete, singumunge sungumucaia. Senta, minha parente.