Dezembro 2010 - Ano XIII - nº 143
Quisera ser um desses fazedores de presépio do vale do Paraíba ou do Norte, mesmo um desses ceramistas de cidade.
Pega-se o barro e começa-se pela vaquinha. É uma satisfação fazer a vaca acolhedora, sólida, aceitando dar leite aos outros, mesmo aos filhos dos bípedes. É uma satisfação fazer o burro. Não creio que o burrinho seja tão tolo quanto dizem. Pelo menos o burro do presépio. Escolheu a melhor parte ou a aceitou, coisa de que muitos humanos não podem se gabar. E é mansa e arqueada a orelha do burrico, pode ser erguida, curvada, transformada à vontade.
Deve ser bom, muito bom, construir a estrela. Escolher um barro mole, macio e transformá-lo em centenas, milhares de estrelas, solenes, grandiosas, humildes, cheias de espanto. E pôr-lhes cauda, longas, gordas caudas. Caudas que apontam o mundo. Gasta-se tardes e tardes fabricando estrelas.
Depois, é a vez dos bichos, é a vez das flores, árvores onde estremecem galhos e passarinhos, personagens, pastores de ovelhas ao ombro, pastores soprando flautas, mulheres levando prendas. As mãos ficam secas, ásperas do barro, mas são tantos os animais, as flores, os personagens!
Começa-se, então, o trabalho principal. Faz-se José, faz-se Maria. Atentos, os dedos tiram o supérfluo polindo o barro, alongando-se as curvas suaves com os dedos molhados de barro. Faz-se Maria, faz-se José tão nobres, tão belos quanto se consegue fazer.
E depois constrói-se o Menino Jesus.
No vale do Paraíba acham falta de respeito fabricá-lo sozinho em grandes quantidades. É preciso que pertença a um conjunto e seja cercado por muitas figuras. É preciso que tudo seja do melhor.
E entre a curiosidade, a admiração dos amigos, dos vizinhos, parece próximo o Natal, o Natal que ainda demora vários meses. Parece que nada falta para realizar no mundo. Mas, depois de cozido, há que pintar o barro cor de rosa, colorindo como o pão das madrugadas. E que paciência infinita, que minúcia de detalhes. Tantas cores, tantas tintas! Bocas, olhos, manchas nos animais, estrias no dorso das cobras.
E que paciência infinita para embelezar São José, a Virgem, o Menino Jesus!
Um dia, de repente, terminou o presépio. Pronto o berço, os pastores, a estrela. Nada mais resta a fazer.
Agora, é recomeçar. Os dedos de novo no barro, erguem um outro presépio com flores, figuras, animais. Sempre o mesmo, mas sempre novo.
Felizes os fazedores de presépio! Do vale do Paraíba ou de qualquer outro lugar. Eles sabem que todos os dias é dia de Natal!