Dezembro 2010 - Ano XIII - nº 143
Grupo de barro ou pasta representando a cena da adoração ao Menino Jesus na manjedoura de Belém. São José, Nossa Senhora, os pastores, animais cercam Jesus Cristo. Depois de 6 de janeiro, aparecem os três Reis Magos, séquitos, camelos, outros bichos. Os presépios eram armados em dezembro, fiéis ao hábito português e atraíam visitas pelo esplendor e novidade da apresentação. Às vezes, uma cidade inteira, com carros modernos, gente, palácios, ambientando a Natividade. Os presépios continuam sendo exibidos por curiosos e devotos que deixam, depois da oração contemplada, a espórtula. De fins do século XVIII até princípios do XX, os pastoris ocorriam diante do presépio, e então denominados Lapinhas, cantando as pastoras as "jornadas oblacionais divididas nos cordões azul e encarnado, com entusiastas fiéis. Ainda hoje (1946), em Portugal, grupos de pastores reais vão à igreja, na noite de Natal, cantar e oferecer presentes ao Divino Infante." (Jaime Lopes Dias. Etnografia da Beira, "A adoração dos pastores". Lisboa, 1942, v.6, p.88-109). A lapinha, cantada diante do presépio com o respeito religioso ritual desapareceu. Anotando Melo Morais Filho, "A noite de Natal (Bahia)", em Festas e tradições populares do Brasil, nota 24, escrevi: "O presépio é tido como criação de São Francisco de Assis em Grécia, 1223, e as freiras do Salvador já o erguiam em Lisboa no ano de 1391. Só no século XVI inicia-se a dramatização com canto e dança, recebendo contribuição dos cantos populares e a produção literária anônima em louvação ao divino Natal. Pereira da Costa (Folclore pernambucano) crê ter sido o franciscano frei Gaspar de Santo Agostinho o introdutor dos presépios em Olinda, onde faleceu nonagenário, em 1635. O pastoril, ou melhor, a lapinha, cantada diante do presépio, era a mais rica e freqüentada das festas de Natal.
Seu desvirtuamento acentuou-se depressa e, em 1801, o bispo de Olinda, Azevedo Coutinho, protestava contra as pastorinhas pela alta percentagem de mundanidade que escurecera a transparência inocente dos autos antigos. No Recife, a Sociedade Natalense, fundada a 8 de março de 1840, para solenizar o Natal com representação tradicional, levou a efeito, na igreja do Espírito Santo, pastoris jamais rivalizados. Os presépios, sem os bailes pastoris, foram do especial agrado carioca. O cônego F. C. e Souza, depois monsenhor, falecido a 15 de fevereiro de 1812, teve seu presépio em Madre de Deus visitado pelo príncipe regente dom João. Vieira Fazenda falava, saudoso, "do presépio do Barros", Francisco José de Barros, marceneiros da rua dos Ciganos (atualmente rua da Constituição), "que o próprio imperador dom Pedro II fora olhar". Da popularidade do presépio há o registro do padre Fernão Cardin, referente ao Natal de 1583: "Tivemos pelo Natal, um devoto presépio na povoação, aonde algumas vezes nos ajuntávamos com boa e devota música, e o irmão Bernabé (Telo) nos alegrava com seu berimbau" (Tratado da terra e gente do Brasil, p.301). (Extraído do Dicionário do folclore brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo).