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Sumário
A festa de Reis
A festa do Natal no folclore do Brasil
Folclore de Natal
A tradição do Natal
Ciclo de Natal
Mudaria o Natal ou mudei eu?
Presépio
Os fazedores de presépio
Figuras do presépio
Feliz Ano Novo, minha gente
Boas saídas e melhores entradas
Evocação ao passado
Usos antigos
As Pastorinhas do Pará
Natal no Sul
No princípio eram os presépios...

 

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Dezembro 2010 - Ano XIII - nº 143

Edição Especial de Natal

Mudaria o Natal ou mudei eu?

Franklin de Sales

Eu, sinceramente, não repetiria o conceito daquele homem do soneto famoso de Machado de Assis, ao relembrar os tempos de pequeno:

Mudaria o Natal ou mudei eu?

Tolice querer insistir que a idade mata na gente a graça da vida. Se a vida, em si, não tem graça, se há brutalidade a explodir por toda a parte, se são os baixos instintos a gritar, na estúpida corrida para apanhar o sonho melancólico de um instante de felicidade duvidosa, não terei dúvida em afirmar a mudança radical do Natal. Outrora, existiam realmente os festejos do Natal. O seu ciclo, indo de 25 de dezembro, se estendia até 6 de janeiro, fechando-se no Dia de Reis! Três dias de intensa vibração, em que o povo se entregava, de corpo e alma, aos folguedos ruidosos. Trabalhar o ano inteiro, economizando, de mealha em mealha, até fazer seu mealheiro, para gastá-lo em três dias. Que importa, se esses três dias representavam para aquela gente simples e feliz o melhor quinhão de alegria, entre a porção de alegrias que a vida sempre lhes dava. As ruas, portas e janelas, apinhadas de gente. Ouve-se, ao longe, o tamborilar do instrumental negro e a puíta roncando. Cessada a música bárbara, ressoam aos nossos ouvidos, os sons do canto marcial:

Marcha! Marcha! Marcha!, auê!
Marcha, minha gente! auê!
Vamos ao Rosário, auê!
Visitar a Mãe de Deus, auê!

Viva Maria tão singular
Viva Maria tão singular
Com seu rosarinho para nos salvar

Gimbué, sai, sai
Gimbué, sai, sai
Sumban-bique
Para puriá

Lá vem, rua afora, o desfile dos guerreiros reais, constituído por duas alas de congos. Calção de cetim cor de rosa, cocar de penas na cabeça e um rosário de guizos, nas pernas, guizalhando. Fechando as alas — o rei do Congo, acompanhado de príncipes e princesas e o séquito real. Logo atrás, vinha o camdombe, com a sua música bárbara, explodindo do Santana, (o tambor mor) tambu, grima, chama e crivo. De quando em vez, o negro da puíta, furando a massa, enfiava num beco, para urinar na baeta do instrumento, que não estava roncando a seu gosto. Agora, sim, ele voltava que fazia gosto... 

(Sales, Franklin de. "Mudaria o Natal ou mudei eu?". Folha de Minas, 27 de dezembro de 1951)

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