Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
Edição do Mês | Edições Especiais | Edições Anteriores | Tema do Mês | Temas Anteriores | Por Autor | Por Artigo | Por Seção |
Sumário
A festa de Reis
A festa do Natal no folclore do Brasil
Folclore de Natal
A tradição do Natal
Ciclo de Natal
Mudaria o Natal ou mudei eu?
Presépio
Os fazedores de presépio
Figuras do presépio
Feliz Ano Novo, minha gente
Boas saídas e melhores entradas
Evocação ao passado
Usos antigos
As Pastorinhas do Pará
Natal no Sul
No princípio eram os presépios...

 

Apoio Cultural
Simplicitate Design

Veja como sua empresa pode apoiar a nossa iniciativa.

Dezembro 2010 - Ano XIII - nº 143

Edição Especial de Natal

Folclore de Natal

Fausto Teixeira

As manifestações folclóricas do Ciclo do Natal, aqui no Espírito Santo, como em todo mundo cristão, abrangem o período de 24 de dezembro a 6 de janeiro, isto é, da véspera do Natal ao dia de Reis.

É nesta época que podemos apreciar presépios e assistir ou participar de grupos de pastorinhas ou de folias de Reis, integrando-nos a algumas de nossas mais caras tradições.

Comemorar o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo é o motivo central de todo este ciclo folclórico, e a Missa do Galo, o seu ponto alto para os católicos romanos.

Tradições de bom sabor lusitano, que de Portugal nos vieram com os primeiros colonizadores da Terra de Santa Cruz, talvez tenham se iniciado com apresentação de autos dramáticos pastoris e armações de presépios.

Os autos pastoris estavam em grande voga na Europa desde a Idade Média, instituído que foram pelo clero no seio da Igreja, para fortificar a fé das massas populares. Em Portugal, o quinhentista Gil Vicente compôs com sucesso famosos autos, que foram representados nas cortes da Península Ibérica e difundidos entre o povo: Auto da fé, Auto de Mofina Mendes, Auto pastoril e Auto dos Reis Magos, principalmente, foram elaborados com elementos populares do ciclo folclórico do Natal. Logo vieram para o Brasil, onde encontraram boa receptividade, e por aqui criaram raízes, em novas criações dos poetas da Terra de Santa Cruz.

As pastorinhas, bem conhecidas em nossa região, principalmente nas áreas rurais, são sobrevivências dos primitivos dramas natalinos, compostos em homenagem popular ao Deus Menino. No município de Colatina há grupos de pastorinhas que ensaiam dramatização cantada, dias e noites antes do Natal, para bem se apresentarem nas visitas que fazem a igreja, capelas e casas onde haja um presépio instalado, louvando a data natalina de Cristo até o dia dos Reis Magos.

São numerosas as cantigas que tivemos oportunidade de recolher em Colatina, sobre o Ciclo do Natal. Das Pastorinhas, por exemplo, podemos registrar estas amostras.

Quando as pastoras chegam a uma casa, em visitação, cantam:

Dá licença, meu Menino
que as pastoras querem entrar;
lá está chegando a hora
e nós queremos adorar.

Entoam outros versos e os Reis Magos, em dado momento, cantam, suplicantes:

Lança-me, meu Deus Menino,
a vossa benção sagrada,
que no centro de meu peito
fizeste a vossa morada.

Todas as pastoras, então, cantam:

Vinte e quatro de dezembro,
meia-noite, deu o sinal;
entra a aurora e primavera,
hoje é noite de Natal.

Vários personagens do auto dramático vão se apresentando, a seguir, cada qual cantando uma ou mais quadrinhas apropriadas, geralmente de louvação: a estrela d'Alva, a Lua, o Sol, um grupo de caboclinhos, a cigana do Egito, a Esperança e, por fim, o beija-flor, que termina cantando os versos:

Eu sou um beija-flor,
que vem hoje de Belém
visitar o Deus-Menino
e lhe dar os parabéns.

Terminada a apresentação das pastorinhas, todas vão admirar o presépio, geralmente montado na sala de entrada da casa. Aí apreciam a representação cerâmica da Sagrada Família, com o Menino Jesus deitadinho na manjedoura de palhas, rodeado de animais domésticos — o burrinho ou jumentinho, vacas e ovelhas e, às vezes, até algum cachorro, gato, galinhas etc...

Parece que a origem da tradição dos presépios está situada no ano 1233, quando São Francisco de Assis, com autorização do Papa Honório III, armou o primeiro cenário em uma estrebaria perto de Rieti, na Itália. Ai ajeitou estátuas de madeira, representativas da Virgem Maria, de São José e do Menino Jesus, e acrescentou ao ambiente, dando-lhe o máximo de naturalidade, um jumento e um boi de verdade.

O presépio de São Francisco de Assis era franqueado, inicialmente, somente aos companheiros de ordem; depois foi permitida a visitação pública e, com o tempo, em toda a Itália a tradição dos presépios se firmava. Da Itália teria passado a outros países europeus e a tradição se difundiu por todo o mundo cristão, inclusive, evidentemente, nosso Brasil.

Já foi o presépio, desde os primórdios de nossa história, elemento obrigatório nas comemorações do Natal. A árvore de Natal, que é de invenção relativamente recente, nunca fez parte das tradições lusitanas mais antigas, e nem das nossas que naquelas tem suas mais fortes raízes. É de criação alemã, mas seu uso tende a se expandir, pela lei do menor esforço ou da maior preguiça, que tanto nos agrada atender.

O Ciclo do Natal, além das pastorinhas e dos presépios, marca ainda a presença nas ruas e casas das folias dos santos Reis, sobrevivência das janeiras tão do gosto dos portugueses, até hoje grupos de foliões percorrem ruas, visitando casa onde cantam louvores pelo nascimento de Jesus Cristo e "cantam" os donos delas, suplicando-lhes uma esmola "aos santos Reis".

Em Colatina não são raras as folias dos Santos Reis, que agora, de 24 de dezembro a 6 de janeiro, percorrem via públicas e se chegam a domicílios, cantando:

Ó, senhor dono da casa,
com sua nobre família
Jesus Cristo é nascido
tomamos grande alegria.

Em frente à casa onde o grupo estaciona, entoam com esperança:

Ó, senhor dono da casa,
abra a porta, acenda a luz,
Vem receber nesta porta
o coração do bom Jesus.

E, bem depressa insistem, em elogio bajulatório:

Ó, senhor dono da casa
és um grande cidadão,
dá licença para entrar
e cantar no seu salão.

A porta é aberta e a licença, prontamente concedida. Os foliões não perdem tempo e vão logo ao principal:

Ó, senhor do dono da casa.
generoso como és,
dá uma esmola ao santo reis.
que chegaram a vossos pés.

A esmola em dinheiro, pouca ou muita raramente é negada, é recebida com geral satisfação. Muita vez, um cafezinho acompanhado serve de agrado também. O agradecimento a tal prevista acolhida não se faz demorar:

Agradeço a boa esmola,
que tenhas muito que dar;
Deus vos teje lá na glória,
como o santo no altar.

O grupo retira-se da casa, não sem antes cantar versos de louvação aos donos dela, e continua sua peregrinação, cantando sempre pelas ruas muitos versos, dentre os quais não falta esta quadrinha:

Descem os anjos lá dos céus,
a cantar sobre a cidade:
— Glória a Deus nas alturas,
paz aos homens de boa vontade.

(Teixeira, Fausto. "Folclore de Natal". O Colatinense. Colatina, 25 de dezembro de 1960)

Home | Revista | Catavento | Almanaque | Realejo | Downloads | Colaborações | Mapa do Site
Assine nosso boletim | Central dos Leitores | Expediente | Apoio Cultural
Jangada Brasil © 1998-2009. Todos os direitos reservados. | Fale Conosco | Termos e condições de uso