Dezembro 2008 - Ano XI - nº 119
A cultura popular apresenta aspectos bem interessantes, sobretudo no que diz respeito às fórmulas tradicionais de preservar a saúde ou ao uso de certos amuletos dotados de poderes sobrenaturais, que destroem malefícios, servindo, inclusive, para prevenir doenças e mesmo curá-las.
Esta prática não se restringe somente ao interior do nosso país, pois até nos grandes centros urbanos tornou-se comum ver-se figas nas pulseiras e cordões das senhoras, utilizar-se banhos de ervas como defesa mágica ou para "limpeza", ou mais simplesmente o agressivo ostentar de um galhinho de arruda para evitar o azar e mau olhado.
As cabeças de proa ou carrancas encontradas no rio São Francisco formam singular capítulo do folclore brasileiro. Os barqueiros da região costumam colocar em suas embarcações curiosas e rudes figuras de proa, lembrando formas humanas ou de animais.
Universalidade
É difícil determinarmos a sua real origem, devido à sua universalização. Os selvagens adaptavam uma espécie de maraca na extremidade de seus barcos que serviam para conduzir os guerreiros ao combate. No Egito antigo, tais figuras eram por demais populares no rio Nilo; e nas regiões do Congo e da Guiné tornaram-se inconfundíveis pelo aspecto ornamental.
A primeira figura de proa de que se tem conhecimento teria sido uma criação dos Argonautas e representa a efígie de Argos. Aproveitaram, inicialmente, como idéias, criaturas humanas ou entidades fantásticas.
Os gregos exibiam sua mais famosa figura mitológica – Vênus, enquanto cartagineses e latinos esculpiam aves; mais tarde, ingleses e espanhóis difundiram largamente essas figuras, dando-lhes, os últimos, um cunho religioso.
Proteção
É provável que as carrancas das barcas do rio São Francisco tenham advindo do Mediterrâneo, sob a influência de portugueses e espanhóis. Possuem igual caráter religioso, porém ora de fundo fetichista, ora de fundo católico. Sua função é proteger a embarcação e os seus tripulantes dos inimigos que podem estar ocultos nas águas do rio.
As carrancas são entalhadas em madeira, recebendo depois um colorido quase grotesco. O leão e o cavalo são os animais preferidos para a representação, uma vez que os elementos marinhos são desconhecidos nos rios.
O fato mais importante, no entanto, a se assinalar é que elas se encontram correlacionadas ao ciclo pastoril em nosso país com marcante tipo de escultura.