De alguns dos profetas brasileiros mais famosos. Xavier de Oliveira, que com eles teve contato, como médico que era do Hospital dos Psicopatas, me dá a notícia.
O Profeta da Gávea era nascido no México, e ninguém sabe como veio para o Brasil. Fazia sermões nas ruas e operava milagres publicamente. Era, aos ouvidos dos que criam, uma voz de Deus — o profeta Enoque. que viera esperar no Brasil a vinda de outros profetas. Todos se reuniriam aqui no ano de 1932 — para que, não sabemos. Tão poderoso era ele em suas palavras que poderia tudo: "Se ele quisesse — afirmavam seus crentes — mudaria o Corcovado para o Pão de Açúcar, ou a lagoa Rodrigo de Freitas para Teresópolis".
O outro, o professor Mozart, foi um curandeiro espírita, que viveu no Rio de Janeiro, e que teve mais enfermos em sua clínica do que todos os médicos da cidade juntos. Era mineiro, e fora peão em uma fazenda da Mata, e depois palhaço de circo. Xavier de Oliveira procurou vê-lo em um trem da Central, quando o taumaturgo ia embarcar para Mendes. Não foi possível — tal a multidão imensa e densa que o cercava. "Também, então, Mozart enchia os vários serviços do Hospital Nacional de Psicopatas aonde quase nenhum insano entrava sem que antes o houvesse consultado". Como vivia o professor Mozart, ele que não recebia dinheiro pelas suas consultas? Xavier de Oliveira o explica: havia oitocentas famílias na cidade que se cotizavam, dando-lhe cada uma por mês cinco mil réis. Era essa a fonte de sua subsistência.
Interrogado pelo médico, um dia em que fora detido pela polícia, Mozart explicou o seu poder: "Concentro-me, invoco o astral superior, sinto um zunzum que do alto me vem até os ouvidos, penetra-me o cérebro, toma conta de todo o meu corpo; e eis tudo. O que me fica no pensamento, digo ou escrevo, e acerto sempre. Não erro nunca. Não posso errar, porque estou com a verdade".
Haveria outros e outros profetas nacionais igualmente interessantíssimos, a recordar aqui. A minha doce e querida região do Nordeste pulula deles, como tanta vez o temos visto. É uma terra de muita pobreza, de muito sofrimento, de indizível miséria. É natural, que sentindo-se tão infelizes na terra, os homens apelem para uma recompensa que só poderão encontrar no céu. Nascem daí esses desajustados, esses iluminados, que a nossa ciência vai logo classificando em alguma das chaves da imensa família dos dementes, porém, que antes de tudo representam uma condenação da hora e do país em que estão vivendo. E são esses os santos e os beatos da galeria de Euclides da Cunha, da galeria de Nina Rodrigues ou da galeria de Xavier de Oliveira.
São santos, beatos, milagreiros — e para eles tudo reside na fé. Às vezes, essa crença dá resultados graciosos ou pitorescos.
Xavier de Oliveira conta um desses resultados. Trata-se do beato Francelino, um negro que, quando o escritor publicava sua obra, já andava pelos 116 anos.
Fora pajem do padre Ibiapina — esse, um varão de fato santo no Nordeste — e com ele aprendera gestos e palavras. Vivia no Juazeiro do padre Cícero, montado no seu jegue, vestindo como um bispo, repetindo suas sentenças, mais ou menos bíblicas, e levando na mão o seu longo bastão de peregrino. Perguntaram-lhe um dia qual seria o seu destino depois da morte. Ele respondeu sem vacilar:
— Bem-aventurado pelo menos.
Pois como houvesse chovido muito e o riacho estivesse demasiado crescido, e como o bem-aventurado Francisco desejasse passar de um lado para o outro, chegou à beira da corrente. Voltou-se para os que o cercavam e disse:
— Quem tiver fé me acompanhe.
Depois, ergueu o bordão e, mandando que ela o recebesse, avançou para as águas como se estivesse andando na terra. Rolou rio abaixo, agitando o cacete, que não largou nem nesse transe amargo, e agitando os braços, os pés, as vestes de bispo e as sandálias, numa espavorida tentativa de natação. Afinal conseguiu a margem do rio. E enquanto saía, todo molhado, ia dizendo, sob o sorriso malévolo dos que ali se encontravam e que tinham visto o fracasso triste do seu milagre:
— A fé foi pouca.
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