O mascate
Ao lado do tropeiro, duas outras figuras tiveram papel importante no povoamento de Minas Gerais, ou melhor, na condução da civilização em Minas Gerais, depois que o ouro cessou de trazer sua influência: o mascate e o cometa.
O mascate percorria o sertão, vendendo de tudo, desde artigos femininos até o último romance aparecido na Corte. O povo o apelidava de cometa, por causa de suas constantes viagens que faziam com que ele parecesse astros e planetas que percorrem o céu, sem tempo fixo de volta e de chegada.
Antes do trem de ferro, os mascates ou cometas conduziam sempre uma comitiva de cinco ou seis burros, sendo um da sua sela, outro do arrieiro, outro do cozinheiro, um que viajava de sobreaviso para o caso de necessidade, outro mais destinado à condução das canastras e um outro ainda, que conduzia o trem da cozinha. O burro que viajava de sobreaviso era chamado de escoteiro, expressão que emprestavam também para designar a pessoa que viajava sozinha, sem companhia.
Essa comitiva, quando chegava a algum lugar, arranchava, enquanto o cometa percorria casa por casa da cidade, procurando vender seus artigos.
A chegada de um cometa a uma cidade do interior era uma festa. Enquanto o cincerro da madrinha — burrinha da frente — bimbalhava, as moças e curiosos chegavam à janela para ver passar a comitiva, enquanto os meninos formavam séquitos como se formam ainda à chegada de circos. Logo depois começava a venda.
Já o mascate era mais modesto: Viajava sozinho, sem comitiva, carregando o seu baú e sua
matraca, vendendo anéis baratos, fios de linha, sabonetes, perfumes. Depois de reunir um pequeno pé de meia,
ele se estabelecia definitivamente em algum arraial do interior.
O turco
Os antigos mascates, e até mesmo cometas, em geral, eram de origem semítica: sírios, libaneses, persas e egípcios. Mas, para todos os efeitos, ele era "turco", pelo menos, na voz popular. O mascate era uma figura benquista entre o povo que, aproveitava sua boa vontade para fazer a "gozação por cima dele". O "turco" não se importava e logo estava chamando todos os conhecidos com a costumeira ternura do compadre.
Aceitava o que lhe era oferecido, raramente recebendo dinheiro em troca dos seus objetos. Em seu lugar, o mascate recebia alguma coisa, para continuar fazendo barganha.
Mas a gozação, às vezes, era forte e um tanto quanto sem graça. Em Goiás e no Triângulo Mineiro, corria antigamente um ditado que dizia: pistoleiro que se preze, não morre sem matar um turco.
O turco, porém, não se importava e logo já estava bem ligado na comunidade local sempre ocupado no comércio, vendendo e comprando. O turco não "bode parar" dizem eles. O cometa já não existe, principalmente depois do trem de ferro e do automóvel. Mas os viajantes continuam, e grande parte deles ainda, é constituída por "turcos".
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