Quando conhecemos o Antônio Mineiro, morava ele em sua casinha, à margem da estrada da fazenda Palmas.
Diziam os vizinhos que aquele homem era o mais valente daquelas redondezas.
Trabalhava durante todo o dia e à noite, quando não pegava a sua inseparável viola, cantando coco, na porta de sua residência, estava viajando, pois preferia sempre a noite ao dia para suas viagens.
Não tinha medo de nada, diziam eles, pois tinha até desejo de cantar um desafio com o "cão". A prova do seu destemor pelas tão faladas visões é que, quando pegava em sua viola, cantava logo:
Nunca vi rasto de arma
Nem couro de lobishome
Quem casa com muié feia
Não tem medo de outro home...
O saci, o boitatá
Lobishome, caipora,
Mandaro me preveni
Pra não andá fora de hora.
Dei calado pru resposta,
O portadô foi si imbora;
Quando quisé me percure
Por essa estrada à fora.
Um belo dia foi o Antônio à povoação do Cajueiro fazer umas compras; ali chegando, encontrou-se com uns amigos e esqueceu-se de regressar cedo à casa, mesmo porque era hábito seu andar de noite.
Às onzes horas, mais ou menos, resolveu tornar a casa.
A noite era de um luar lindíssimo; a lua cheia estava, como ele dizia, no meio do céu.
Ao passar pela lagoa do Bentinho, encontrou uma grande manada de gado deitada à margem da estrada; continuando a viagem, mais adiante, também à margem da estrada da mesma estrada, viu um lindo animal deitado.
Parou e examinou com atenção; era uma bonita vaca (alva como um lençol, dizia). Depois de observá-la, disse consigo o viandante: — Ora, veja só; essa vaca longe da manada...; cum certeza não sabe que seus cumpanhero tá lá; vou já ajuntá ela com os outros gado.
Fez o animal levantar-se; esse, porém, encaminhou-se para o lado oposto e foi internando-se na campina orvalhada. O nosso bom Antônio cercou-o, tocando para o lado contrário; nova investida, novo cerco; pela terceira vez, o animal parou, encarou o pastor noturno e disse com voz humana: -— Eu não sou vaca!
O Antônio cambaleou, enfraqueceram-se-lhe as pernas, turvou-se-lhe a vista e ficou fora de si alguns minutos. Quando abriu os olhos, nada mais viu; estava só no meio da campina gelada, sob o clarão da linda lua cheia. Os galos cantavam a primeira vez, anunciando a madrugada próxima...
Hoje, quando os amigos lhe falam nessa "assombração", ele confirma e exclama: — Sexta-fera da coresma, não é bom facilitá! A noite tem dono mesmo...
Nota: Tonioan Carlhova, anagrama de Antônio Carvalho, era o pseudônimo do saudoso intelectual sãomateense Antônio de Carvalho que, publicou, em São Mateus, o jornal O Norte e o livro Nossa terra e nossa gente, de que extraímos o trabalho acima.
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