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Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

Taieiras, antigo folguedo mulato

Téo Brandão

Talvez seja São Miguel dos Campos, na Zona da Mata de Alagoas, o último lugar no Brasil onde ainda se tenha realizado um antigo folguedo de mulatos — a dança das taieiras.

Registrado no século passado na Bahia e no Rio de Janeiro por Teófilo Braga e em Sergipe (Lagarto) por Sílvio Romero, julgava-se, até há pouco, que afora desse último estado, onde ainda aparece esporadicamente, segundo testemunho de José Calasans Brandão da Silva, não mais existisse ou mesmo tivesse existido, em outros lugares, o folguedos das taieiras.

Contudo, em Alagoas, também se dançaram, segundo os depoimentos de Nicodemos Jobim (Anadia) e Aloísio Vilela (Viçosa) e, nos dias atuais no município de São Miguel onde as foi descobrir o cônego Julio de Albuquerque.

Folguedo antigo na região, sua ensaiadora atual, dona Albertina, conserva uma tradição que vem dos seus avós, negros da Costa, havendo-a aprendido da preta Madalena que a criou, por morte de seus pais, e que fora, ela própria, rainha das taieiras, ao tempo da escravidão.

As taieiras de São Miguel costumavam apresentar-se não somente por ocasião de período natalino, mas igualmente em duas outras datas que lhe ficaram próximas: a 18 de dezembro, festa de Nossa Senhora do Ó, padroeira da cidade, e a 20 de janeiro, festa do mártir São Sebastião, outra grande festividade religiosa local.

Os ensaios, iniciados dois ou três meses antes do Natal em casa da ensaiadora, congregavam meninas e meninotas, morena e pardas de condição modesta, filhas de domésticas, lavadeiras, de 13 a 18 anos de idade.

No dia da exibição pública, mudavam-se para um palanque armado em frente da casa da ensaiadora: tablado de madeira com um e meio metro de altura, coberto de samambaia ou palha de palmeira ouricuri, enfeitado de bandeirolas de papel de seda encarnado e azul.

Os personagens do folguedo são: o rei, a rainha, o Mateu, a Catirina, a crioula e o "figural" — as "africanas" como as denomina dona Albertina. os quatro primeiros trajam-se e caracterizam-se como os personagens do mesmo nome e função dos reisados e quilombos. A crioula é uma boneca, como a dos maracatus, com metro e meio de comprido, feita de cortiça pintada de preto e ricamente trajada como baiana: torço, volta, colares, cabeção rendado, saia rica rodada, etc.. É escultura antiga, sendo considerada a verdadeira "dona do brinquedo". Conduzida por um menino, neto da ensaiadora, não possui nome próprio como a dos maracatus. É simplesmente a crioula.

As "figuras" ou "africanas" se dispõem em dois cordões como nos pastoris e baianas — um azul e outro do encarnado. Vestem saia rodada, em arame, em ciré azul ou vermelho, xale da Costa atravessado nos ombros e cruzado à cintura, blusa branca de renda, terço azul ou encarnado, anáguas engomadas para armação das saias. E além disso, enfeites, colares, pulseiras de aljofar e contas.

No palanque, ao dançar, colocam-se à frente do rei, a Rainha e a crioula e atrás as africanas, o Mateu e a Catirina. Antes contudo de aí se exibirem, desfilam até igreja matriz próxima, onde vão salvar os santos, particularmente, o seu São Benedito, patrono do rancho. Antigamente, quando ainda existia a pequena igreja de Nossa Senhora do Rosário, aí iam por obrigação salvar o santo do altar onde então morava a imagem de São Benedito.

Ao marchar para a igreja matriz, cantam e dançam, aos saracoteios e requebrados:

Taieiras do Porto
Foi quem nos guiou
Estrela do céu
Foi quem nos coroou
Dançai, taieirinhas,
Na ponta do pé
Fazei cortesia
Ao sinhô São José.

Extraído do livro Folguedos natalinos de Alagoas, de Téo Brandão.

 

(Brandão, Téo. "Taieiras, antigo folguedo mulato". A Gazeta. 13 de outubro de 1962)

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