O leitor está ciente
Que de antiga data vem
Debates de cantadores
Que diversas vezes têm,
Mau resultado nas lutas
Quando nenhum pensa bem.
Porém hoje os cantadores
Conservam certa união
Mesmo no primeiro encontro
Um do outro aperta a mão
Trocam um estreito abraço
Comprovando educação.
Romano Elias da Paz
É um cantor instruído
Com os melhores cantores
Do país, tem se batido,
Já tem vencido diversos
E por nenhum foi vencido.
Manuel Camilo dos Santos
Ainda é novo na arte,
Mas tem sido triunfante
Onde canta em toda parte
E ainda não achou quem
Tomasse seu estandarte.
Manuel Camilo, canta
Porém não é fabuloso,
E já tem se debatido
Com muito cantor forçoso
E pra cantar com Romano
Vivia sempre ansioso.
Romano não conhecia
Este tal Manuel Camilo
Desejava encontrá-lo
Pra na arte conferi-lo
Pra ver se este cantor novo
Cantaria em bom estilo.
Romano estava cantando
Uma noite em Salgado
Em casa de João Cirilo
Sozinho bem descansado
Quando Manuel Camilo
Chegou sem ser esperado.
Romano cumprimentou
Ao recém-chegado
Embora não o conhecesse
Mas como é civilizado,
Deu proba que foi e é
Um bom cantor educado.
Foram levados pra mesa
Depois que café tomaram
Voltaram para o salão
As violas combinaram
Era dez horas da noite
Quando os vates começaram.
R. Meu bom colega de arte
Não conheço o seu estilo
Mas como nós hombriemos
Em casa de João Cirilo
Quero que diga o seu nome
Pra poder cantar tranqüilo.
C. Me chamo Manuel Camilo
Dos Santos, cantor moderno
O nome foi do batismo
O sobrenome é paterno
Então o meu cognome
Parte do lado materno.
R. Foi num sentido supremo
Esta sua explicação
Me faça ainda o favor
Dizer-me seus pais quem são
Eu uso esta exigência
Temendo alguma traição.
C. Meus pais foram, o cidadão
Antônio Camilo, chamado,
E Maria da Conceição
Com quem meu pai foi casado
Naturais de Guarabira
De Paraíba o estado.
R. Eu fico admirado
Colega, com o dizer seu,
Em seres de Guarabira
E Romano não conheceu!...
Cite alguns homens elevados
Que Guarabira já deu.
C. Em Guarabira nasceu
O padre José Trigueiro
Que foi vigário em Sapé
É um digno conselheiro
E doutor Antônio Guedes
Advogado verdadeiro.
R. Está certo cavalheiro
Posso agora acreditar
Que és o Manuel Camilo
De quem já ouvi falar
Se és como alguém me diz
Quero me certificar.
C. Não gosto de me exaltar
Nesta minha profissão,
Quem se exalta se humilha
É uma justa razão
Mas presentemente estou
À sua disposição.
R. Dar a seu gênio expansão
Lhe faço logo avisado
Para cantarmos martelo
Em estilo agalopado
Eu hoje hei de saber
Se você tem bem guardado.
C. Meu martelo é de aço temperado
Que com ele martelo algum imita
E foi feito por um israelita
Um ferreiro antigo e preparado;
Com garantia ele foi bem aprovado
Nos edifícios do povo de Israel
E também nas pirâmides do Egito,
Meu martelo é um assombro esquisito
Martelo assim só quem tem é Manuel.
R. Meu martelo onde bate tira fogo
Igualmente a qualquer corrente elétrica
Cantor forte de veia mais poética
Chega-se a mim e pede a rogo
Quando o empenho e me firmo faço um jogo
Esbagaço qualquer u'a muralha;
Corta mais do que gume de navalha
Faz poeira de pedra mais maciça
E é mais fácil o diabo cantar missa
Do que meu martelo mostrar falha.
C. Quando eu canto martelo atmosfera
Se espalha por terra e pelos mares,
E as nuvens se agitam pelos ares
Circulando por toda calotera,
Trópico de capricórnio se aglomera
Se envolvendo na zona glacial,
Com o pólo do meridional
Demonstrando o prodígio e o mistério
Depois abandona o hemisfério
E faz encontro com trópico boreal.
R. Quando eu canto martelo, o oceano
Fica as ondas paradas e nada move
Fica o tempo nublado mas não chove
Vem a brisa e envolve todo plano
Tebo com prodígio soberano
Seus raios circulam o arrebol
Vem Apolo que foi o deus do sol
Aumentar meu valor em poesia
E o sol lá de cima me alumia
Com a luz que germina o seu farol.
C. Quando eu canto martelo iludo as fadas
Que são filhas da própria natureza
São ornadas de encanto e de beleza
E também as sereias encantadas
Ficam todas de mim aproximadas
Ali uma por uma me admira
A deusa Minerva me inspira
Dando mais força em meu crânio
Com maior regozijo espontâneo
Despertando o som da minha lira.
R. O cantor que vier cantar comigo
Ouça a missa primeiro e se confesse
Se pegue com Deus reze uma prece
Para ver se o livra do castigo
Assim mesmo com tudo inda o obrigo
A sofrer os tormentos mais cruéis
Pego e dou-lhe um açoite de revés
E sendo que a mim desabedeça
Dou-lhe um murro no centro da cabeça
Que a alma espirra pelos pés.
C. O cantor que a mim jogar pilhéria
Eu o pego e entrego na poeira
E dou-lhe um murro no centro da moleira
Que ele fica em estado de miséria
Desliga-se a alma da matéria
Logo ali a visita de satanás
Judas Escariotes e o Caifás
Mas não tem quem o socorra sai berrando
Nas profundas infernais fica morando
E se voltar cá na terra apanha mais.
R. Vamos agora mudar de pensamento
Pra cantar um tratado eloqüentíssimo
Hoje aqui o debate é crudelíssimo
Apanhará quem tiver menos talento
Se você for cantor de elemento
Aqui mesmo na sala eu esclareço
Por tanto um assunto eu o ofereço
Se você tem certeza e teoria
Quero ver sua força em cantoria
Descrevendo o Brasil desde o começo.
C. Nosso solo querido brasileiro
Na América do Sul é situado
Tem potência e é considerado
Finalmente do globo quase inteiro
A superfície do solo verdadeiro
É quase toda no hemisfério austral
Ou por outra no meridional
Para o norte está mais acidentado
Para o sul está mais aproximado
Ainda mais para o lado oriental.
R. Entra o Brasil em posição
Dez minutos de latitude ao boreal,
30 graus, 40 minutos no meridional
E dez segundo sendo de alteração
Do cabo Branco da Barra, entre
Oito graus de longitude ao leste,
Trinta graus e quarenta ao oeste
Do observatório do Rio de Janeiro
Até a serra Paracaina, no roteiro
Quem achar que é erro então proteste.
C. O Brasil ao norte é limitado
Com a Colômbia e a Venezuela
E as Guianas européias na tabela
E o oceano Atlântico ao mesmo lado
Pelo mesmo oceano já citado
Ainda faz limite ao leste,
E com o mesmo oceano ao sudeste
Ao sul com Argentina e Uruguai,
Com Bolívia, Peru e Paraguai
O Equador e Colômbia ficam ao oeste.
R. A superfície é de oito milhões
E oitocentos e cinqenta e quatro mil
¨De quilômetros quadrados, tem o Brasil
Assim diz quem fez as medições
Concordando com as dimensões
Compreendido a quilômetros quadrados
E é dividido em vinte estados
E um território que tem no mesmo plano
Se acaso houver erro ou engano
Já não foram por mim avaliados.
C. Quatro mil quilômetros tem o Brasil
E mais trezentos e cinqüenta de sul a norte
Sendo em linha reta sem recorte
É a maior extensão do varonil
Tem de nascente ao poente quatro mil
E mais trezentos quilômetros na extensão
Assim o livro faz demonstração
Sendo em linha reta sem empenos
E quem achar que seja mais ou menos
Veja a trena e faça medição.
R. Dos estados vamos dar explicação
Combinando com a corografia,
De acordo com a geografia
Para poder se fazer a discrição
Sendo pela minha opinião
Começava do Rio de Janeiro
Pois é a força da justiça e do dinheiro,
Os geógrafos já não combinam assim
Pois o livro que li dizia enfim
Amazonas dos estados é o primeiro.
C. O Amazonas ao norte é limitado
Com Colômbia e a Venezuela
E a Guiana Inglesa junto a ela
E ao leste o Pará fica acostado
Ao sul se limita com o estado
De Mato Grosso que fica em direção
Ao oeste com o Peru faz divisão,
Manaus é a sua capital
O estado é riquíssimo em mineral
Mas ainda há pouca exploração.
R. O estado do Pará faz divisão
Ao norte com a Guiana Inglesa
Ao leste com o Atlântico é certeza
E também o estado do Maranhão
Ao sul inda faz limitação
Com Mato Grosso e o estado de Goiás
E os seus produtos principais
É borracha e cacau, eu digo bem
A capital tem o nome de Belém
E o estado é riquíssimo em minerais.
C. O limite do estado Maranhão
O oceano Atlântico fica ao norte
Ao suleste, Piauí, estado forte
Ao sudeste, Goiás em direção
É abundante de cana e algodão
O estado é riquíssimo e é feliz
Tem a cidade Carolina e Imperatriz
Que fica no centro do estado
Seu comércio está muito adiantado
E a capital de Maranhão é São Luiz.
R. Piauí, diz a geografia
Limita-se com Ceará ao noroeste
E ao sul se limita com Bahia
Teresina como o livro anuncia
De Piauí é a grande capital
Algodão é a cultura principal
Mandioca, milho, e outros mais
Abundante em muitos minerais
À criação de gado e em geral.
C. O estado do Ceará é limitado
Com Rio Grande e Paraíba ao leste
E com Piauí limita ao oeste
Ao sul com Pernambuco é divisado
Ao norte pelo Atlântico é banhado
Café e algodão dar com franqueza
A criação do gado é a riqueza
E grandes plantações medicinais
Abundante em todos cereais
E a capital de Ceará é Fortaleza.
R. Os limites do Rio Grande do Norte
Ao leste pelo Atlântico é banhado
A oeste com Ceará é divisado
Ao sul com Paraíba estado forte
Algodão e carnaúba ali dá sorte
Muito abundante em mineral
Rio Grande tem fábrica industrial
De pau-brasil já fez grande exportação
Muito gado no selo do sertão
E a capital do Rio Grande é Natal.
C. Paraíba tem por limitação
O Rio Grande do Norte ao mesmo lado
Ao leste pelo Atlântico é banhado
Com Pernambuco ao sul faz divisão
Criam gado no solo do sertão
O estado é abundante em mineral
Algodão e cereais é em geral
Guarabira é cidade importante
Campina Grande é a mais comerciante
E João Pessoa é nossa capital.
R. Camilo você é bom cantor
Pois já estou conhecendo o seu talento
Vamos agora mudar de pensamento
Pra cantarmos um assunto de valor
Aprecio o homem trovador
Que tem consciência e teoria
Agradei-me de sua cantoria
E duma vez que você é preparado
Vamos agora cantar algum tratado
Da Paraíba pela corografia.
C. Paraíba é o nome do estado
Porém a capital é João Pessoa
Situada numa parte, muito boa
Por um homem partiu o atilado
Que foi Martins Leitão, homem falado
Quem fundou nossa capital amada
Em 1585 época atrasada
Que já leu a síntese, está ciente
Mas hoje está tão diferente
A capital é belíssima e asseada.
R. As principais ruas estão calçadas
Já tem bonde em grande quantidade
É belíssimo o foco da cidade
E as praças são bem organizadas
São belíssimos as praças jardinadas
E tem prédio de grande confiança
A praça João Pessoa, por lembrança
Esta fica no ponto principal,
Junto, a União, nosso (órgão oficial)
E o palácio ali por segurança.
C. Também tem o Palácio Episcopal
Imprensa, seminário, academia
A alfândega, e a capitania
Tesouro, colégio e catedral
A prefeitura e o correio geral
Instituto, Asilo de Medicidade
Orfanato, Bom Pastor, maternidade
Superior Tribunal e a União
Empresa de Luz e Estação
Tudo isto no foco da cidade.
R. Os portos principais são o Salema
No rio Mamanguape, tem bom zelo
O porto de Paraíba é Cabelo
E a serra maior é Borborema
Que atravessa o estado em bom sistema
Tem a serra Luiz Gomes e da Carneira
A de Cuitê e Esgreme de Ladeira
Araruna e a de Jabitacá
Serra Verde, serra de Jacarandá
Tem a serra da Raiz e do Teixeira.
C. Tem três picos de serras no estado
O de Caturité e o da Vertente
O do Jabre que é mais saliente
Em altura é o mais agigantado
E as madeiras que dão mais resultados
São o cedro, pau-ferro e cipauba
Sapucais, frejó, maçaranduba
O bássimo, o louro e o gulandi
Baraúna, aroeira e o quiri
Para tamanco, tambor e cupiuba.
R. Na Paraíba, este solo tão distinto
A indústria cresceu com muito dita
Tem uma fábrica de pano em Santa Rita
E outra maior em Rio Tinto
A cultura principal, se eu não minto
É cereais, cana, fruta e algodão,
Muito gado no solo do sertão
Minerais, tem ouro, ferro e gema
E chumbo na serra Borborema
Porém neste há pouca exploração.
C. No reino animal na Paraíba
Se encontra diversos animais
Cavalo, jumento e outros mais
Coelho, lebre, cutia e guariba
A onça que embosca e que derriba
Capivara, maracajá e o quandu
Tamanduá, preá, mocó, tatu,
Aves se encontra, juritis,
Marreco, papagaio e o perdiz
Asa-branca, cauã e o nambu.
R. Tem muitos municípios no estado
Criados pelo poder legislativo
Por homem ciente e bem ativos
Cada um município é governado,
Por prefeito cada um é titulado
E o governo confia muito neles
Sendo muito serviço para eles
Cada qual reger certo um município
Duma vez que já damos este princípio
Vamos agora dizer os nomes deles.
C. O primeiro município é a capital
Que goza de decência e muito zelo
O segundo município é Cabedelo
Santa Rita é município especial
Espírito Santo já no fim do litoral
Mamanguape já se acha decadente
Sapé é município florescente
Pilar é se o espírito não me engana
É município e comarca Itabaiana
Pedra-de-Fogo já foi antigamente.
R. Campina Grande é município e é cidade
O Ingá é município certamente
Alagoa Nova foi grande antigamente
Porém hoje perdeu mais metade
Pra Esperança que cresceu e de verdade
Está uma cidade aumentada
Areia cidade tão falada,
O município que dá mais rapadura
Alagoa Grande é município que figura
Alagoinha também é classificada.
C. Guarabira, diz a corografia
É o município que dá mais cereais
Caiçara, Bananeiras e outros mais
Para fumo o município Serraria
Araruna, Picuí, Santa Luzia
Solidade e Alagoa do Monteiro
São João do Cariri e Umbuzeiro
Catolé do Rocha e Piancó
Souza, Patos Pombal, na mesma mó
Faltam outros, entrego ao companheiro.
R. Falta Brejo da Cruz, estou lembrado
Também falta o município Cabaceiras,
São João do Rio do Peixe e Cajazeiras,
Misericórdia e Teixeira ao mesmo lado,
São os últimos municípios do estado
Cada um tem as suas dimensões
De todos já demos explicações
Na história é bom se prosseguir
Se acaso alguém deseja ouvir
Vamos agora cantar as povoações.
Fim
Campina Grande, 26 de abril de 1958
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