Ilustração de Marcos Jardim
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Ser em vez de ter

Enio Squassoni

Aos olhos dos homens alguém vale mais pelo que tem. A ostentação de riqueza (carros, casas, terrenos, roupas, jóias etc.), para os beócios, indica poder, inteligência, importância, qualidade, valor e assim por diante.

Nada mais falso! A acumulação de bens materiais não torna um homem melhor do que outro menos afortunado materialmente, a menos que tais bens tenham sido conquistados a duras penas em atividades honestas, sérias, sinceras e trabalhosas. O que conta é o valor intrínseco do ser humano, seu valor moral e espiritual.

O “TER” pode diferenciar aparentemente dois seres humanos, mas o “SER” é o que verdadeiramente distingue um do outro. Mais vale um pobre que se doa integralmente  ao auxílio dos irmãos menos favorecidos, do que um ricaço que oferece uma esmola que nunca lhe fará falta. Na proporção, mais vale um dedal cheio do que um tonel pela metade.

Somos todos verdadeiramente iguais. Nos distinguimos pelas nossas manifestações justas, fraternais e espirituais. Vamos ilustrar esta afirmação.

Em Roma, nas escavações para fazer as fundações dos edifícios, geralmente se encontra alguma caverna ou catacumba histórica. Nestes casos, a obra é paralisada até que os arqueólogos avaliem o valor histórico-arqueológico do sítio descoberto. Algumas obras são interrompidas definitivamente e sua localização é tombada pelo Estado frente ao valor do achado, considerado patrimônio da humanidade.

Conta a lenda que, numa dessas escavações, foi achado um embrulho de couro semi-decomposto pelo tempo, envolvendo dois crânios e uma pequena lápide com o seguinte texto:

“Quando eu e este meu companheiro éramos vivos, ele vivia numa rica mansão, enquanto eu dormia ao relento. Ele comia lautos e variados banquetes, enquanto eu recolhia os restos no seu lixo. Ele ouvia suaves melodias de harpas e cítaras, enquanto eu ouvia os doridos lamentos de dor dos meus companheiros de infortúnio. Ele suavizava a pele com ungüentos perfumados, enquanto os cães vinham lamber minhas feridas. Ele se banhava em ricas piscinas de água azulada, enquanto eu só tinha a água da chuva para me banhar. Um dia a Morte justiceira e certa colheu a ambos no mesmo dia e o Destino caprichoso juntou nossos ossos nesta mortalha de couro. Agora, você que nos está olhando, pode seguramente dizer ao mundo quem sou eu e quem é ele?”

 

12 de dezembro de 2001

 

Colaboração do autor para a Jangada Brasil

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