É com naturalidade que o povo brasileiro em geral recorre ao sobrenatural para encontrar seus objetos perdidos. O homem do sertão, em especial, depois de esgotadas todas as possibilidades humanas de procura, apela então às entidades sobrenaturais. Daí nascem as promessas, as rezas e as crendices. Importante lembrar que, geralmente, o objeto perdido pelo homem do campo faz parte de seu cotidiano, podendo ser um instrumento ou mesmo algo de uso pessoal. Portanto, a ânsia pela descoberta do que seu perdeu é grande e justificável.
O folclore brasileiro produziu uma gama de santos e entidades invocadas com a finalidade de encontrar objetos perdidos. São os plantonistas do setor de achados e perdidos do além. Eis alguns desses “achadores”:
São Campeiro: O próprio nome induz à sua especialidade: campear, encontrar o objeto perdido. Adelino Brandão nos esclarece mais um pouco: “Santo lendário da devoção camponesa, ‘canonizado in partibus, pelos matutos supersticiosos’, relata Euclides. Invocado para achar as coisas perdidas... No sertão invoca-se São Campeiro (inexistente no calendário da Igreja) ‘ao qual se acendem velas pelos campos, a fim de que favoreça a descoberta de objetos perdidos...’(Os sertões, ed. cit., p.140)” (Brandão, Adelino. Euclides e o folclore. Ed. Literarte, 1985, p.55). Da mesma opinião, Câmara Cascudo diz que “São Campeiro, santo imaginário, de campear, mostrar, andar no campo e mesmo procurar. É o santo dos objetos perdidos no interior do Brasil, na parte norte do país. Sílvio Romero e Pereira da Costa registraram-no (Antologia do folclore brasileiro, 230, I, 131). Prometem pedaços de velas que serão acesas e deixadas ao ar livre, debaixo das árvores, à margem das estradas, nas cavidades das grutas.” (Cascudo, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Ediouro, p.231).
Negrinho do Pastoreio: Lendário ser do Rio Grande do Sul, o gaúcho credita-lhe a capacidade de encontrar qualquer coisa que esteja perdida. Para tanto, basta que, à guisa de pagamento de promessa, acenda-lhe uma vela. Conta a lenda que o Negrinho era um escravo pertencente a um senhor que criava cavalos. A função do Negrinho era pastoreá-los. Certo dia, vencido pelo cansaço, o Negrinho adormeceu, vindo acordar somente à noite. Os cavalos haviam sumido e ele ficou desesperado. Acendeu um toco de vela e começou a campear o gado. Solicitou a intercessão da Virgem Maria, sua madrinha. Esta, ao atendê-lo, fez com que cada gota de cera da vela derretida transformasse em um foco de luz. Logo o chão ficou todo iluminado, como se fosse luz do dia. Então, o Negrinho pôde encontrar todos os cavalos. Por isso, o gaúcho, especialmente o tropeiro, o invoca quando alguma rês foge ou se perde do gado.
“Negrinho do Pastoreio,
Acendo uma vela pra ti
E peço que me devolva
Aquilo que eu perdi.”
“Negrinho do Pastoreio,
Traze a mim o meu rincão,
Eu te acendo esta velinha,
Junto está meu coração”
(Pereira, Maria Regina; Prado,
Zuleika de Almeida. Nosso folclore. 2ª ed. Editora Ave Maria, 1999,
p.27).
Essas quadrinhas são algumas das formas de se fazer uma promessa ao Negrinho do Pastoreio.
São Longuinho: Famoso santo popular o qual se invoca com a finalidade quase que exclusiva de encontrar coisas perdidas. Muito embora não se saiba exatamente se existiu ou quem foi São Longuinho, a sua imagem é encontrada com fácil regularidade. Trata-se de um homem vestido qual um monge e que traz na mão direita, levantada até a altura do rosto, uma lanterna. Os funcionários de repartições públicas sempre o invocam para encontrar documentos extraviados. Segundo Câmara Cascudo, no seu já citado Dicionário, o “Martyrologium Romanum registra cinco santos Longinus, todos mártires. Longuinho é a versão popular de Longinus”. A forma mais popular de promessa a esse santo é a seguinte: “Fazer um pedido a São Longuinho para que faça aparecer o que foi perdido e dizer: São Longuinho faça com que eu ache (falar o nome do objeto que perdeu), que eu darei três pulos e três gritos.” Encontrando o objeto, paga-se a promessa dando três pulinhos e gritando “Achei, São Longuinho. Achei, São Longuinho. Achei, São Longuinho!” (Toledo, Roberto. Simpatias. Verbo Editora, 1983, p.11).
Santo Antônio: O santo de Pádua e Lisboa além de casamenteiro é um grande “achador” de coisas perdidas. Aliás, na função de casamenteiro, é ele quem encontra o marido para a mulher que queira casar-se. O folclorista João Ribeiro acredita que foi por intermédio do frei Bernardo de Brito que a fama de Santo Antônio para encontrar objetos perdidos tenha se iniciado. Frei Bernardo sugeria a intercessão de Santo Antônio, um santo português, ao invés de outro santo, na época invocado para tal finalidade, o flamengo Jeron de Olanda. Era esse Santo Jeron quem antes de Santo Antônio era solicitado para buscar objetos perdidos. A tradição portuguesa passou ao Brasil.
Saci-pererê: Muito embora as crendices relacionem ao saci o esconder de objetos, a esse mito também é solicitado ajuda na procura de coisas perdidas. José Carlos Rossato, no seu livro Saci, explica que “quando se perde um objeto, toma-se de uma palha de milho e dá-se três nós para amansar ou amarrar o saci. Ao aparecer deve-se desmanchar os laços apertados imediatamente, senão ele se vingará, logo que puder” (p.39).
O mito do saci-pererê tornou-se conhecido nacionalmente através da obra do escritor Monteiro Lobato. Primeiro, com a publicação de um “inquérito” sobre o mito no jornal O Estado de São Paulo, o que gerou o livro Saci-pererê – resultado de um inquérito publicado em 1918. Posteriormente, com a publicação do livro O Saci, no qual narra as aventuras de Pedrinho, do Sítio do Pica-pau Amarelo, às voltas com um saci por ele capturado. A televisão consolidou essa difusão lobatiana do mito do saci ao transmitir a série infanto-juvenil O Sítio do Pica-pau Amarelo, em fins da década de 1970.
Nhá Benta: O livro Nosso folclore, aqui já citado, traz uma quadrinha de promessa a uma certa Nhá Benta, a quem desconhecemos. Eis a quadrinha:
“Alma de Nhá Benta,
Sem você o que eu faria?
Devolva-me o que perdi,
Que eu rezo três ave-marias.”
São Dino e São Vítor: Santos que, à semelhança de São Longuinho, encontram coisas perdidas mediante promessas simples. À São Dino promete-se gritar, depois de encontrado o objeto, a seguinte frase: “São Dino é o Santo mais milagroso da corte celeste” Antes, porém, deve-se invocá-lo, gritando três vezes o seu nome (Câmara Cascudo, op.cit. p.354). Já a São Vítor deve-se oferecer três a ele, caso encontre o objeto desejado. Diz Câmara Cascudo que encontrou cerca de 35 santos com o nome de Vítor, sendo praticamente impossível saber a qual deles se atribui o poder de encontrar peças perdidas.
09 de setembro de 2000.
* Escritor, historiador e pesquisador do folclore paulista. Sócio efetivo da Comissão Paulista de Folclore (IBECC/UNESCO). Autor dos livros: Folclore em Sorocaba (1999) e Descobrindo o folclore (2003). Texto enviado em colaboração à Jangada Brasil.