Ilustração de Marcos Jardim
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Juízo

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Juízo!

E o Juízo final chegou!

Trombetas tocadas por Anjos, Arcanjos, Querubins e Serafins, anunciavam a boa nova. O Messias tinha chegado e com ele o julgamento final.

Os mortos se levantaram trazendo problemas de ordem e de prosseguimento do tal Juízo.

Enormes mesas redondas discutiam se o processo de chamada deveria seguir o sistema americano de classificação pelo último nome ou o internacional, pelo primeiro nome. Russos exigiam (com o apoio chinês) que seus conterrâneos, pela utilização de caracteres não alinhados com o restante do mundo, fossem analisados primeiro. Os japoneses, apoiados pelos Estados Unidos, abriam mão de sua forma de escrita e diziam seguir a fonética. Caso complexo era o dos sumérios, que, extintos há muitos séculos, utilizavam a escrita cuneiforme.
 

Átila, aquele que não deixava pedra sobre pedra, preparava uma revolta dizendo ter que ser o primeiro a ser julgado. Tinha como razões, o fato de ter o nome começado por A, de ser huno (uno?) e ter o voto de seu exército ressuscitado por trás. Não colou.

Tentativas de sublevação eram vistas aqui e ali, mas o pessoal da segurança trabalhava bem e rapidamente. Papas, Santos e Santas, Bispos, Cardeais, Pastores, Padres, Rabinos, Profetas, Mães e Pais de Santo, gente importante de todas as religiões, foram chamados para a Tribuna de Honra onde emitiam opiniões as mais diversas.

Muita fumaça dominava a paisagem, filas intermináveis, vozes do além tentavam colocar ordem na bagunça em que a reunião se transformara quando todos os habitantes da terra, que nela viveram durante toda a sua história, se levantaram, colocando-se à disposição do Messias.

Gigantescos computadores ligados numa rede divina, pesquisavam todos os nomes dados a todos os mortais. Atendendo à um pedido expresso do Sr. Sidarta Gautama e acatado de pronto pelo Messias, o problema dos nomes fora resolvido – uma estranha fórmula chamada "o caminho do meio" dava a listagem sem usar nem o primeiro nem o último (em alguns casos de dois nomes, uma soma muito difícil seria feita) e isto feito, em seguida os PCs começaram a fazer ruídos, luzes se acenderam e um nome apareceu na tela de fundo azul:

Aantônio Aarão Aalmeida – Brasileiro; nordestino; teve seu nome grafado errado pelo tabelião semi-analfabeto da cidade em que nasceu; morto em combate com a milícia no interior do estado da Bahia; não deixou prole nem parentes; foi enterrado sem a cabeça na margem de um rio; assassino confesso rezava para seu padrinho e protetor diariamente; arrependeu-se de seus horrendos pecados pouco antes de morrer; atualmente encontra-se no purgatório e não tinha previsão de saída até a chegada do Messias.

O nome foi gritado pelos quatro cantos da terra:

Sr. Aantônio Aarão Aalmeida – favor comparecer acompanhado de sua alma imortal ao portão 1 - Sr. Aantônio Aarão Aalmeida – chamada para o julgamento final – favor se apressar para que os serviços possam começar.

A gritaria foi total, um senhor americano dizia ter comprado o direito de ser o primeiro e que havia pago para uma série de donos de igrejas; gritava e esbravejava, acompanhado de um séquito de auxiliares que mostravam papéis com firmas reconhecidas; novamente não colou. Um oriental de nome Laotsé, acalmava exércitos de diversos imperadores dando-lhes palavras de sabedoria. Liteiras carregadas por escravos vinham com faraós deitados e avançavam em meio à multidão que se espremia tentando ver. Homens das cavernas batiam com pedaços de ossos no chão marcando o ritmo da balbúrdia.

Pronto! Gritou um homem pequeno, de cabeça chata e roupagem de couro. Aantônio sou eu, é meu nome de batismo, quais ninguém sabia – era conhecido como Relâmpio dito herdeiro de Lampião o Rei do Cangaço, a desgraça da caatinga, lugar-tenente de Corisco. Se me apresento por mode receber o castigo merecido por tantos anos de marvadezas. Tô aqui pronto pro que der e vinher! Sou eu mesmo nhô sim! Meu Padim Padi Ciço Romão Batista que me aproteja!

Silêncio total.

Do meio do oceano subiu uma onda – a maior já vista. Na crista, num brilho de luz, cavalos puxavam uma biga de ouro; nela, o Messias com seus longos cabelos, surgia dominando a cena. Uma voz tonitruante fez-se ouvir:

Sr. Aantônio vulgo Relâmpago, arrependes-te dos pecados vividos e cometidos, por pensamentos, palavras e obras?

Nada. Nem uma palavra do até então bem falante cangaceiro.

Um Serafim com as asas batendo forte, chegou perto do cabra e falou:

Vamos, responda, homem de Deus, o Messias não costuma repetir.

Carma aí ô anjão, tô pensando, poi eu já pedi perdão bem antis de ter a cabeça cortada, purcausdiquê tenho agora de na frente desse povão todo ficar me ummilhando? Já falei que se me arrependo e tava bem falado lá nas ocasião. —  Reclamou o Nordestino.

Mas fale, diga para o mundo ouvir, fale para o Salvador – fale de coração. Sussurou o anjo já sem fôlego de tanto bater asas.

Poi tá. Lá vou eu, já que é o fim do mundo mesmo...

Eu se me arrependo de quando tinha seis anos ter pisado e cortado as partes de um pato no quintá de minha tia, se me arrependo aos seis e um mês, de ter matado um gato, de ter cortado um sapo pra botá um largato drento, aos seis e treis mês, roubei cachaça do empório, aos seis, treis mês e quatro dias eu...

E o homem foi falando e falando e não chegava aos 10 anos, era uma malvadeza atrás da outra, e tinha roubo, assassinato, furto, agressão, discriminação, violação, fratricídio e mais todo o tipo de pecado, violentos ou não, que alguém poderia enumerar ou supor existir.

E a coisa não acabava, horas e dias foram passando, o mundo em silêncio ouvindo o pequeno cabra safado enumerar seus pecados.

No final do sexto dia o Messias cortou a ladainha e falou que todos deviam descansar.

Foi a deixa para a briga recomeçar; que o descanso deveria ter sido na sexta-feira, que devia ser no sábado, que no domingo estava certo, que não devia ter descanso, que o morto redivivo ia se perder e começar de novo, que ninguém agüentava mais, que ainda tinha todo o resto do mundo e se com o primeiro a coisa ia desse jeito iam passar a eternidade nesta lengalenga.

Um dia inteiro nessa discussão.

Outra semana começou e os serviços foram abertos pelo Arcanjo Gabriel, que como representante direto do Todo Poderoso, deu a partida para o Cangaceiro seguir adiante.

Entonces com 15 anos, dois mês e cinco dias eu ...

A falação foi adiante; cheia de explicações, de detalhes escabrosos, de pedidos de desculpas e de choramingação do monstro que tão mal fizera quando vivo.

Mais um tempão passou. Lá pelo nono dia as pessoas (almas) cansadas de ouvir tanta desgraça e também pela demora em acontecer mais alguma coisa, foram se retirando. Um grupo aqui, outro ali, saíam e iam errar pela terra devastada pelas pestes. Uma ou outra alma reclamava e mandava o pessoal sentar. A movimentação dos descontentes vinha agora acompanhada da reclamação da falta do onipotente, na figura do Messias, que cansado da ladainha se retirara e trocava idéias com o Pai, o Filho e às vezes com o Espírito Santo, se bem que eles todos sendo um só, ficava difícil saber quem falava com quem. Os Anjos, numa movimentação completa, quase estavam em todos os lugares ao mesmo tempo, iam consertando isso e aquilo, dando conselhos e principalmente preparando as almas para seus quinze minutos de fama.

Quinze minutos?

O tar de Relâmpio já falava há dez, dias! Sem parar, enumerando atrocidades que faziam corar um alemão baixinho de bigode, escondido atrás de um homão a cavalo que boquirroto que só, dizia ter conquistado metade do mundo conhecido de sua época e morrido com a idade que Cristo morreu.

E tome confissão...

Parece que na adolescência a vida do cangaceiro foi profícua, ele já estava há 5 dias nos 18 anos quando, batendo na testa voltou atrás. Volver a los 17! Gritavam os latinos. Não agüentamos mais!

O zunzum foi crescendo, comentários chegavam até o Bem-vindo, vindo de todos os cantos; ninguém agüentava mais, focos de rebelião aconteciam em todos os continentes, antigos líderes tomavam a causa como própria e tentavam levantar seus pares. Os Cavaleiros do Apocalipse ameaçavam enviar desgraças de novo e não eram ouvidos, todas as almas estavam mortas, eram almas apenas, nada podia lhes acontecer. Mas a cizânia havia sido semeada, povos inteiros, antes irmãos, agora começavam a se odiar. E o mais complexo: os povos em guerra agora se uniam para enfrentar os outros.

E o danado seguia:

Com 18 anos, 5 mês e treis dias, passei a faca na mãe do meu milhó amigo, cortei a danada prela pará de falá dimais, com 18 anos, 5 mês, treis dias e 4 horas, eu...
 

Foi quando o Messias, cansado daquela coisa toda, do alto da sua suprema sabedoria, decidiu e estava decidido, que a terra ainda não estava preparada para o julgamento final, o mundo ainda não tinha vivido tempo suficiente para espiar seus pecados. Ia tudo voltar a ser o que era antes do Apocalipse e quem estava morto voltava a ser, quem estava vivo que continuasse!

E assim foi feito.

Uma fumaça danada, um silêncio ensurdecedor, movimento de terras, clarões de relâmpagos no céu, uma chuva de efeitos especiais, marcava o retorno do mundo ao momento anterior ao último dia.

E tudo voltou a ser como era.

Bem, tudo não.

Lá no meio da cidade de Cabaceiras, interior do interior, lá pra dentro, num deserto de gente e bichos, bem do ladinho de um pé de mandacaru, aparece como uma miragem saída do meio de uma nuvem de areia, a figura de um homem. Ajoelhado ele fala em voz baixa:

E aos 23 anos, 6 mês, 14 dias e 1 hora, eu...

Levantou a cabeça e entreabriu os olhos. A cabeça se balançou de um lado para o outro, como a procurar outras pessoas. Ficou de pé e terminou a fala:

E poi, já qui todos forambóra, eu agora conto o maior de todos os meus pecados: é essa minha mania de contar uma mentirinha, óxente meu Padim! Padim Ciço Romão Batista! Brigado pela vida nova meu véio!, agora vô sê um cabra diferente!

Se levantou e saiu correndo pro boteco mais próximo que a sede era de muito tempo!

 

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