Ilustração de Marcos Jardim
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Dia da caça

Luiz Carlos Lemos

Caros amigos do Jangada,

Com surpresa e alegria, vi A lenda da chuva, por mim recolhida e remetida a este site, publicada na seção Colaborações.

Agradeço a atenção e, para demonstrar o meu entusiasmo com a possibilidade de figurar mais uma vez no Jangada, remeto-lhes agora um conto de minha autoria, inspirado em estória "verídica" ouvida de um velho caipira chamado Aprígio, na feira livre de Governador Valadares, MG, onde resido.

Trata-se de um "causo de onça", que tem, no entanto — para nossa surpresa — uma forte e bela pitada ecológica. Louvado seja!...
 

Dia da caça

"...a gata prisunha, a cara de réu.
O pai do chiqeiro, a gata comeu."
(Elomar, em Arrumação)
 

Meia-noite, na Serra do Timbó. Noite de lua nova. Os escuros de breu.

O casebre, quase invisível na noite sem lua. Na boca da mata, só o silêncio e o calor sufocante das madrugadas de março. Tudo dorme, ou quase tudo.

Os passos macios da pintada, nas folhas secas de bananeira, espalhadas de propósito, à guisa de alarme. Os ouvidos experientes de João Pedro captaram, quase pressentiram.

— Iscuitô, Manurréi?...

— Hum hum!... É ela.

— Mbóra?

— Mbóra.

Poucas palavras, pobre linguajar. Decisão e coragem, somente. Levantaram-se ao mesmo tempo dos catres, no quartinho escuro da tapera minúscula. João Pedro foi o primeiro a achar o fifó. Zemário riscou o fósforo. A luz amarela e tremulante se fez, iluminando dois rostos idênticos. Irmãos gêmeos, mabaços.

— Aa tá chegano. Dimanssin, pé de viludo, mais tá.

— Que chegue. Só farta ela mêm. A hora dela já chegô.

— Lovado seja Nossinhô Sunscristo!

— Lovado seja!...

As mãos tocaram testas, peitos, ombros e bocas. Persignaram-se com o "em-nome-do-padre", costume antigo do falecido pai, que herdaram.

Do quartinho pra sala, os dois, em silêncio. Da sala pequena, para a cozinha ainda menor. No fogãozinho de barro, a chaleira com o resto do café frio, de ontem de tarde.

— Nun dá é móde isquentá. Ela sente o chêro e vorta, inriba do rasto.

— Portança não. Café fri é café. Água é qui nun vira.

— Falô certo, Manurréi. Qué cumê?

— Mió não. Vomo cuidá dela premêro. Dispois, aí sim, a festa.

— Antão, as ferramenta, mano. Sem barúi.

— Tá qui.

No silêncio maior que se fez, armaram-se. Primeiro, os facões riscafôgo, antigos, forjados no Lajedão, beira de Urucuia. Depois os embornais com munição de chumbo e pólvora. Por último, as espingardas.

A de João Pedro, uma Rossi 28, dois canos, limpa e brilhante, como se fosse nova. Ferramenta boa, de peso e respeito.

A de Zemário, herança do pai, uma chumbeira, feita em casa, cão grande, um cano só. Só não tinha o brilho cromado da outra, mas tinha história. Muitas e muitas pintadas viram, de sua boca, a última luz desse mundo. Merecia respeito e temor. Na coronha de jacarandá, o nome do fabricante e primeiro dono, entalhado a canivete: Sebastião Dantas.

— Pronto, Manurréi?

— Mbora. sêo Mano.

A porta do casebre aberta em silêncio. As alpercatas de couro pisando de leve a poeira do terreiro, barulho nenhum. Os olhos atentos, fitos no escuro. Narinas sorvendo o ar, cuidadosamente, em busca do cheiro dela. Ouvidos vasculhando tudo, ao derredor, campeando bulido qualquer, que pista fosse.

— Mano, ach qui é no curralin. E ocê?

— Tomém. Móde o bizerro novo de Morena. Bicha covarde. Hoje ela tem.

— Antão, assunta: ispera um pôco aqui, que eu dõ a vorta, passo no mandiocal e saio puditrais do curralin. Daí, cê chêga, do ôto lado e nóis cerca ela. Tá dereito?

— Iscrito, sêo Mano. Pu lad quela invisti, come fogo. Avia!...

Mais não se disse, não precisava. A experiência faria o resto. Pois não eram João Pedro e Zemário, filhos de Tião Dantas? Não tinham nascido e crescido aprendendo o ofício de matar onça com o pai? Aquilo não era mais onça, era mais um couro, tirado, curtido e vendido caro, pra Zé de Mateus revender em Montes Claros. Só se Deus não quisesse.

João Pedro tomou o carreiro da esquerda, que saía da frente do casebre, atravessava o pasto de grama miúda e se perdia no mandiocal. Caminhando devagar, olhos e ouvidos atentos, pensava:

"Bicha mais covarde e mais besta! Garrá de tucaiá criação justamente adonde? Na casa de João Pedro e Zemáro, dois caçadô de fama e profissão. Nun sabe que nós dois véve é de vendê côro de pintada?... Antão, agora aprende, mód largá de sê sambanga."

Nos olhos, o ódio, a tristeza, a saudade. Ódio da pintada, que arrastara para a mata, na última lua nova, o bezerro recém nascido de Ametista. Tristeza quase de pai, quando perde filho, logo depois de nascer. Saudade do boi bonito que o bezerro poderia ter sido, não fosse a fome e a covardia da fedorenta.

Cuspiu de lado, com raiva, mas em silêncio, que a hora era aquela.

— Gata prisunha, cara de réu, ôje ocê tem, cuma hai Deus no céu – repetia baixo, tão baixo que só o coração magoado ouvia.

Fim do pasto, começo do mandiocal. Cuidado redobrado, para não fazer barulho na folhagem dos arbustos. Passo a passo, pé ante pé, deu a volta e divisou, por trás, o curral onde estariam, se Deus permitisse, o gado para ser salvo e a onça, para ser morta.

Conferiu a espingarda. Carregada, destravada, pronta. O dedo, no gatilho, esperando, qual serpente, a hora exata do bote, em que não pode haver erro.

Apurou os ouvidos e esperou. O sinal viria, estava certo. E ele o reconheceria, na fé de Deus.

No curral, no sítio todo, no mundo todo, silêncio absoluto. João Pedro esperou.

Zemário, por sua vez, dera tempo para que o irmão fizesse a volta pelo mandiocal. Apoiara a coronha da chumbeira no chão, feito escora, distribuindo melhor o peso do corpo. Atento — olhos, narinas e ouvidos —, lendo e interpretando imperceptíveis sinais. Esperava e pensava, que pensamento é coisa que ninguém sucede fazer parar.

"Eitha, que só farta êsse côro! Pelo tamanho do rasto, na ôta lua, é onça erada, das grande. É côro pá mais de dez conto. Cum o qui nóis já tem guardado na mão de Zé de Mateus, compreta o preço da moto-serra. Vô lá eu mém, compro e trago a bicha. Aí, vai sê a fartura, se Deus quisé. Boto a mata abaixo e vendo a madeira, dinhêro muito. Tamo rico, eu mais João Pedro. Quano os home do Guvêrno subé da nutiça e vinhé, nóis já tá é longe, no Sumpaulo, cum dinhêro no bolso. Aí, vai sê só farra, só função, regada cum galinha, vin, quêjo e doce!... Ê vidão!... Acha nóis, que eu quero vê!.."

Sonho antigo, de comprar uma moto-serra para derrubar a mata e vender a madeira, ficar rico de uma vez e sumir, ir para São Paulo, virar gente. Sonho muitas e muitas vezes discutido com o irmão, de pleno acordo.

— Um dia, Manurréi, um dia!...

No telhado da tapera, um curiango cantou seu canto triste, de mau agouro. Zemário sentiu de repente um frio esquisito, filho do susto, no cantar inesperado da ave noturna.

— Cruz credo!... Sai pra lá, trem ruim. Eu vô é no curralin, que João Pedro já deve de tê chegado lá. Deus me guia, Deus me potreje, de garra de onça e da mão dos herege — rezou três vezes e começou a caminhar cautelosamente, na direção combinada.

De onde estava, à beira da cerca, nos fundos do curral, João Pedro viu o irmão chegar, do outro lado. Se viram, trocaram entre si um sinal de cabeça, à guisa de diálogo:

— Nada?

— Nada.

Esperaram, armas prontas, dedos no gatilho. Um em frente ao outro. Entre os dois, o minúsculo curral, feito para abrigar bezerros novos e vacas recém-paridas. No ar, o cheiro forte da fera. Ela estava ali, em algum lugar, muito perto, esperando também. Eles sabiam. Era questão de tempo. Pouco tempo.

De repente, a percepção do silêncio total caiu como um raio na mente dos dois irmãos. E a vaca Morena? E o bezerro novo? Onde estariam, que nada se ouvia? Teriam chegado tarde?

Movidos pelo mesmo pressentimento, como se fossem um só, saltaram a cerca ao mesmo tempo, cada um do seu lado, para dentro do curral. Não tinham as alpercatas de couro tocado o chão verde do lado de dentro, o urro da onça se fez ouvir. Urro de ódio, de raiva, de fazer gelar sangue e paralisar vítimas. O momento mágico e medonho do ataque.

Justamente para isso serve o urro da fera. Paralisa a vítima um segundo, tempo suficiente para o pulo e a patada fatal. Uma só, morte rápida e certa.

Mas não para João Pedro e Zemário, filhos de Tião Dantas. Urro de pintada era música para os dois, treinados e experientes. Ainda no ar, mergulhados na escuridão da lua nova, apontaram as armas e puxaram os gatilhos, ao mesmo tempo, mirando, por instinto, o ponto exato de onde tinha vindo o berro. Dois tiros, um só estampido, tal a sincronia da ação.

Há quem diga, e eu acredito, que tem bicho que pensa e calcula, estando a onça em primeiro lugar, nessa arte. Agachada, tensa, feito mola prestes a se lançar, a Pintada esperou o salto dos caçadores, para dentro do curral. Saltaram.

Ela também saltou e soltou, no ar, o urro fatal, para atrair os tiros.

As cargas de chumbo grosso se cruzaram a centímetros da cabeça da onça, mas não se perderam na escuridão. Encontraram, cada uma, o peito do atirador à frente, sempre ao mesmo tempo. Com o impacto, cada um foi lançado de costas contra a cerca do curral, de boa madeira, que resistiu. E os corpos dos dois irmãos escorregaram para o chão, lentamente, mãos no peito, tentando em vão estancar o sangue e a vida, que se esvaíam depressa.

João Pedro ainda divisou, no escuro, o vulto grande, no meio do curral. Adivinhou serem a vaca Morena e o bezerro novo, mortos em completo silêncio pela onça, que só depois fizera barulho, para atrair os caçadores. Louvado seja...

Zemário deixou este mundo ouvindo o som longínquo de uma moto-serra, misturado com gargalhadas de festa e tinir de copos... Louvado seja...

Quem sumiu na escuridão foi a Pintada, que subiu lentamente a Serra do Timbó para, lá de cima, soltar outro urro, mais forte, mais terrível, de pura felicidade.

No urro da fera, um grito de vitória. A vitória da Natureza que, embora esteja perdendo, a passos largos, a guerra contra os homens, contra as máquinas, contra as armas, contra as químicas, nessa noite tinha ganho mais uma batalha.

Louvado seja!...

 

Governador Valadares, MG, 16 e 17 de outubro de 2002

 

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