O cordel Decassilábo ao quadrado ou Canção para o repente, de Alberto de Oliveira, com
xilografia de Héber Matos, foi lançado no final do mês de agosto, em Recife, na festa
dos 10 anos da Editora Coqueiro e enviado pelo autor como colaboração para a Jangada
Brasil.
Refrão
Se juntar meu repente com o rock
Pode ser que assim você se toque!
Pode ser que assim você se toque
Se juntar meu repente com o rock!
Só respeito ao Jackson do Pandeiro
Que no samba usou o tal bebop,
Meu cantar chegaria no IBOPE
Misturado ao som do estrangeiro,
Não seria o repente verdadeiro
Violando passado e tradição,
Belarmino de França e Azulão
Deixariam de ser considerados,
Não teriam seus versos decantados
Sob a luz do luar do meu sertão!
Se cantar um repente distorcido
Se juntar a guitarra com viola,
Zé Limeira não veria a sua escola
Com seu verso sagaz e atrevido,
Que herói se juntava com bandido
Todos dois em perfeita harmonia,
Retratados na "louca" alquimia
Em martelos de versos geniais,
Que poeta como ele foi capaz
Ao cantar sua "doida" poesia!
Se usar percussão e som pesado
Como faz a tal banda Sepultura,
Pode ser que descubras a cultura
Dessa rima e verso incendiado,
Conhecendo o mundo encantado
De Silvino, Leandro e de Romano,
Ugulino, Firmino e de Germano
Menestréis e poetas universais,
Com galopes de rimas colossais
Ao cantar o repente soberano!
Viajando no trem do Oriente
Bob Dylan chegasse a Juazeiro,
E ali conhecesse o violeiro
Com seu canto em forma de repente,
O nordeste veria diferente
A figura do Mestre Fabião,
Cantador valoroso do sertão
Com seu verso perfeito e acabado,
Pra cantar o rincão iluminado
Da sextilha, do aboio e do baião!
Janis Joplin cantando a canção
B B King solando pros detentos,
O seu blues de dor e de lamentos
Faz lembrar-me dos versos de Cancão,
De Tebana, Inácio e Mergulhão
De quadrão genial seco e preciso,
As imagens saltando do juízo
Na missão dessa sina violeira,
Na toada da triste gemedeira
Na canção imortal do improviso!
Se usar o tal verso sincopado
Pra cantar meu repente pioneiro,
Pode ser que o Pinto do Monteiro
Nunca mais que pudesse ser lembrado,
Não teria o seu nome exaltado
Em fazendas, cidades e grotões,
Nunca mais se falava nos mourões
Na rabeca, na viola e no ganzá,
O pandeiro deixava de tocar
Nas ribeiras e vales dos sertões!
Não misturo o pandeiro de Suzano
Com os versos de nossa embolada,
Não conheço forró pé de calçada
Sou do coco e martelo alagoano,
Manezinho para mim é soberano
No singelo cantar de seu repente,
Acho bom que você se oriente
E respeite meu modo de cantar,
Sou do povo e conheço meu lugar
Se quiser me mudar viro serpente!
Chat Baker solando no pistom
O seu som de acordes magistrais,
Improviso e compassos sem iguais
Que ás vezes me lembra o grande Tom,
Eu prefiro escutar o velho som
Da rabeca do cego Aderaldo,
Ou então a viola de Geraldo
Em acorde que lembra a Mãe da Lua,
Canto triste ecoando pela rua
Na toada em martelo agalopado!
Não me venha dizer que sou quadrado
Nada sei sobre esse movimento,
É tão forte e fatal meu sentimento
No caminho de volta ao passado,
Marcel Proust já tinha anunciado
A procura do tempo já perdido,
Vou buscar o que resta esquecido
Lá nas brumas do nosso consciente,
Vou louvar para sempre meu repente
Nessa trilha do verso dividido!
Vou seguindo a vereda escolhida
Toda ela marcada com meus passos,
Essa trilha de rimas e compassos
Na escolha que fiz pra minha vida,
Só assim mostrarei qual a saída
Da nação desse povo nordestino,
O repente será o próprio hino
O herói tem que ser o repentista
Me perdoe, é preciso que insista
Nesse sonho dos tempos de menino!
Refrão
Se juntar meu repente com o rock
Pode ser que assim você se toque!
Pode ser que assim você se toque
Se juntar meu repente com o rock!
F I M
O cordel Decassilábo ao quadrado ou Canção para o repente, de Alberto de Oliveira, com xilografia de Héber Matos, foi lançado no final do mês de agosto, em Recife, na festa dos 10 anos da Editora Coqueiro e enviado pelo autor como colaboração para a Jangada Brasil.
Os autores
Alberto de Oliveira e Héber Matos (autor da xilografia da capa do folheto) fazem parte de
um grupo de artistas, técnicos, pesquisadores e mecenas empenhados em criar uma
Cooperativa de Trabalho e Consultoria Cultural, a qual denominaram de Uzyna Cultural, com
o objetivo de pesquisar, empresariar, assessorar, preservar, revitalizar, promover e
divulgar a cultura nordestina, especialmente, em suas expressões populares e seus valores
ínsitos nas demais expressões culturais, aqui compreendidas, "stricto senso",
como arte, artesanato e folclore.