Ilustração de Marcos Jardim
Leia também a colaboração dos leitores na edição especial de terceiro aniversário da Jangada Brasil

 

 

 

Se você é pesquisador de cultura popular brasileira e pretende, voluntariamente, enviar textos de sua autoria para apreciação e posterior publicação na Jangada Brasil. Veja como

Mapa do site

Saci é o mestiço brasileiro

Marco Aurélio Rodrigues Dias *

Acredito que o tipo étnico brasileiro, o mestiço, é mais caracterizado como uma cultura do que como um traço racial. E o saci de Monteiro Lobato é o símbolo desse mestiço brasileiro.

Originariamente, o saci-pererê era uma entidade folclórica da mitologia dos índios brasileiros. Era um menino ameríndio, de uma perna só e que tinha como função defender as árvores, a natureza. Era um ecologista. Uma espécie de guarda-florestal. Foram as negras escravas, as famosas aias contadoras de histórias, as responsáveis pela versão moderna do saci que Monteiro Lobato usou nos seus textos. O saci representa, simbolicamente, um período social da história do Brasil. Quando os negros fugiam das senzalas e iam refugiar-se nos quilombos dentro das florestas, os portugueses, armados, iam caçá-los para levá-los de volta para a escravidão. Então os negros, para se defenderem, desenvolveram a capoeira. Quando os portugueses voltavam feridos e derrotados da busca aos escravos fugidos e contavam como os negros se defendiam, aí simplesmente as aias desenvolveram o saci moderno. Foi só tirar uma perna do escravo fugido, o quilombola, e dar cor negra ao saci. Tanto um como o outro já tinham uma função de defesa: o saci defendia as florestas. O negro defendia a liberdade. Ambos armavam ciladas para os seus inimigos. Então o saci passou a ser o quilombola, o negro fugido, arteiro, o herói das aias e dos outros escravos prisioneiros nas senzalas. Além disso o elemento português também apareceu no saci-pererê: o capuz de Papai Noel e também característico dos sete anões. Um elemento europeu, portanto. Toda a miscigenação cultural que se fortificou no fim do século 19 principalmente, ganhou força arquetipal no saci. Na verdade o saci-pererê é um arquétipo do tipo étnico brasileiro, o mestiço. Ele é o mestiço culturalmente definido.

 

* Marco Aurélio Rodrigues Dias, é artista plástico e carioca. Construiu em São Lourenço, Minas Gerais, uma capela em estilo naif dedicada a Nhá Chica, uma santa da região do sul de Minas. Editor de um tablóide "Jornal O DIAS" de quatro páginas que circula no Circuito das Aguas de Minas Gerais.
www.artistaaurellio.hpg.com.br

 

Índice | Pesquisa | Central do Leitor | Expediente | Contato | Mapa do site | Termos e condições de uso

Jangada Brasil © 1998-2005