Neste mundo há muita gente finória, sagaz e manhosa; porém, não creio que ninguém leve vantagem neste ponto ao campônio dos sertões de Minas. O tabaréu mineiro, com os seus ares simplórios e ingênuos, é uma criatura capaz de engazopar até o Fígaro de Beaumarchais.
Ele, porém, é inimbrulhável, invencível em finura, e quem se meter a embahil-o com ardis e ciladas, pode contar com o arrependimento.
Note-se que o matuto de Minas é homem honrado e cumpridor da sua palavra, quando trata com gente que faz o mesmo. Porém, desde que desconfie do cristão, ai meu Deus! Quebra o corpo manhosamente e põe-se em guarda, como quem diz aos seus botões: Então vosmecê está coidando que eu sou algum pateta?
O seu semblante nada demonstra; continua a sorrir com ares inocentes, pitando o seu cigarro. E a cada léria ou balela que o outro pretende impingir-lhe, o matuto responde com um gesto de hipócrita credulidade:
— Apois, hein? Ora veja vosmecê!
Quando se pensa que o roceiro está cantado, ele sai-se com uma refinada astúcia, lenta e maduramente combinada, que nos deixa de orelha em pé e queixo caído.
Lembro-me de uma partida que se deu com um caipira lá para as bandas de Paracatu.
Como todo mineiro da gema, este não era lá muito amigo dos progressos e não gostava da estrada de ferro.
Tendo-se construído uma ferrovia em sua província, o homem torceu-lhe o nariz e protestou jamais embarcar em semelhante trapizonga. E durante muitos anos continuou a viajar no seu burrico, pelas suas estradinhas, fazendo o meio dia para comer á beira dagua o seu tutu com torresmos, armando a rede em dois pés de árvores, quentando fogo e contando anedotas do tempo de quórenta e dois.
O agente de uma estação férrea procurava seduzi-lo e catequizá-lo, demonstrando-lhe em como a viagem pelo trem era mais rápida, barata e cômoda.
Porém, o matuto não se convencia.
Um dia, contudo, tem urgência de chegar a certa cidade e vê que a cavalo não o poderia fazer. Vai à estação e pergunta quanto custa o bilhete. O agente regojiza-se.
— Ora, até que afinal convenceu-se, hein?
— Não, senhor; eu quero saber quanto custa o bilhete para um burro...
— Para um burro?!
— Sim, seu compadre.
O agente consulta a tabela e diz:
— Treze mil e trezentos.
— Então, dê-me um.
Vendido o bilhete, o muar foi metido dentro do vagão próprio, e o dono tambem entrou, na ocasião em que o comboio se punha em movimento.
— Então — grita o agente — o senhor não salta?
— Não, senhor, eu também vou.
— Como assim? Não comprou bilhete!
O matuto meteu o pé no estribo, montou no animal e gritou muito ancho, quando o carro já saía fora da estação.
— Eu vou a cavalo!
Notas biográficas
Urbano Duarte (Lençóis, BA, 31/12/1855 - Rio de Janeiro, 10/02/1902)
Bibliografia:
Humorismos, por J. Guerra (1895)
O livro do soldado, em colaboração com o coronel Fernando Veiga
Os dramas
O anjo da vingança
O escravocrata, com Artur Azevedo
Os gatunos (comédia)
Colaborou em O Paiz, no Jornal do Commercio, onde escreveu os folhetins Sem rumo; em A Semana, Revista Brasileira, Gazetinha, Correio do Povo, Estado de São Paulo etc.
O major Urbano Duarte cursou a Escola Militar e foi professor da Escola de Tática. Jornalista e publicista, criticou, como Joaquim José da França Júnior, os costumes sestros e tipos da sociedade fluminense: o cronista foi um fino observador e contou o que observou com bastante naturalidade e chiste. E também, como França Júnior, foi autor dramático.
Urbano Duarte pertenceu à Academia Brasileira de Letras, cadeira França Júnior.
(Em Werneck, Eugênio. Antologia brasileira; coletânea em prosa e verso de escritores nacionais. 15ª ed. Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves, 1932)
* Colaboração eviada à Jangada Brasil por Arthur Nehrer, do Rio de Janeiro