Ilustração de Marcos Jardim
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O matuto mineiro

Urbano Duarte *

Neste mundo há muita gente finória, sagaz e manhosa; porém, não creio que ninguém leve vantagem neste ponto ao campônio dos sertões de Minas. O tabaréu mineiro, com os seus ares simplórios e ingênuos, é uma criatura capaz de engazopar até o Fígaro de Beaumarchais.

Ele, porém, é inimbrulhável, invencível em finura, e quem se meter a embahil-o com ardis e ciladas, pode contar com o arrependimento.

Note-se que o matuto de Minas é homem honrado e cumpridor da sua palavra, quando trata com gente que faz o mesmo. Porém, desde que desconfie do cristão, ai meu Deus! Quebra o corpo manhosamente e põe-se em guarda, como quem diz aos seus botões: Então vosmecê está coidando que eu sou algum pateta?

O seu semblante nada demonstra; continua a sorrir com ares inocentes, pitando o seu cigarro. E a cada léria ou balela que o outro pretende impingir-lhe, o matuto responde com um gesto de hipócrita credulidade:

Apois, hein? Ora veja vosmecê!

Quando se pensa que o roceiro está cantado, ele sai-se com uma refinada astúcia, lenta e maduramente combinada, que nos deixa de orelha em pé e queixo caído.

Lembro-me de uma partida que se deu com um caipira lá para as bandas de Paracatu.

Como todo mineiro da gema, este não era lá muito amigo dos progressos e não gostava da estrada de ferro.

Tendo-se construído uma ferrovia em sua província, o homem torceu-lhe o nariz e protestou jamais embarcar em semelhante trapizonga. E durante muitos anos continuou a viajar no seu burrico, pelas suas estradinhas, fazendo o meio dia para comer á beira d’agua o seu tutu com torresmos, armando a rede em dois pés de árvores, quentando fogo e contando anedotas do tempo de quórenta  e dois.

O agente de uma estação férrea procurava seduzi-lo e catequizá-lo, demonstrando-lhe em como a viagem pelo trem era mais rápida, barata e cômoda.

Porém, o matuto não se convencia.

Um dia, contudo, tem urgência de chegar a certa cidade e vê que a cavalo não o poderia fazer. Vai à estação e pergunta quanto custa o bilhete. O agente regojiza-se.

— Ora, até que afinal convenceu-se, hein?

— Não, senhor; eu quero saber quanto custa o bilhete para um burro...

— Para um burro?!

— Sim, seu compadre.

O agente consulta a tabela e diz:

— Treze mil e trezentos.

— Então, dê-me um.

Vendido o bilhete, o muar foi metido dentro do vagão próprio, e o dono tambem entrou, na ocasião em que o comboio se punha em movimento.

— Então — grita o agente — o senhor não salta?

— Não, senhor, eu também vou.

— Como assim? Não comprou bilhete!

O matuto meteu o pé no estribo, montou no animal e gritou muito ancho, quando o carro já saía fora da estação.

— Eu vou a cavalo!

 

Notas biográficas

Urbano Duarte (Lençóis, BA, 31/12/1855 - Rio de Janeiro, 10/02/1902)

Bibliografia:
Humorismos, por J. Guerra (1895)
O livro do soldado, em colaboração com o coronel Fernando Veiga
Os dramas
O anjo da vingança
O escravocrata, com Artur Azevedo
Os gatunos (comédia)

Colaborou em O Paiz, no Jornal do Commercio, onde escreveu os folhetins Sem rumo; em A Semana, Revista Brasileira, Gazetinha, Correio do Povo, Estado de São Paulo etc.

O major Urbano Duarte cursou a Escola Militar e foi professor da Escola de Tática. Jornalista e publicista, criticou, como Joaquim José da França Júnior, os costumes sestros e tipos da sociedade fluminense: o cronista foi um fino observador e contou o que observou com bastante naturalidade e chiste. E também, como França Júnior, foi autor dramático.

Urbano Duarte pertenceu à Academia Brasileira de Letras, cadeira França Júnior.

 

(Em Werneck, Eugênio. Antologia brasileira; coletânea em prosa e verso de escritores nacionais. 15ª ed. Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves, 1932)

 

* Colaboração eviada à Jangada Brasil por Arthur Nehrer, do Rio de Janeiro

 

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