No meio de retalhos, rendas, fotos amareladas, bauzinhos misteriosos cheios de jóias e, principalmente, livros, muitos livros, passei minha infância na carioca cidade abençoada por São Sebastião, onde nasci. Minha avó paterna e minha tia-madrinha ensinavam-me os nomes afrancesados das peças de moda. Mouchoir, épingle, sautoir, as rimas delicadas e finas como musselines e outros mimos que povoavam meu imaginário. E foi assim que cheguei à Rua do Ouvidor, uma espécie de Faubourg de Saint-Honoré do Rio de Janeiro. "A marinheira que você quer tem na A Boneca, na Rua do Ouvidor". Lá ia eu com mamãe, muitas vezes no dia sinistro do dentista, que parecia que esmigalhava meus dentes com aquela broca barulhenta e perversa. Mas eu brincava de Poliana, aquela que sempre via o lado positivo de tudo, e ficava contando os minutos para sair dali e ver as vitrines da rua que ainda era chique no final dos anos 40. Como prêmio, lanchava na Confeitaria Colombo, e, quando o tempo dava engraçado é que antigamente ele era comprido, parece que Cronos esquecia de virar a sua ampulheta íamos ver as matinés do Cineac Trianon, no qual meus heróis eram Popeye, Mickey, Pato Donald e o Gato Félix. Mas antes dessa farra ingênua, nós íamos ver as modas, como se dizia na época. Quando olhava as vitrines, meus olhos pareciam que se fechavam e eu dava um mergulho no passado.
E que eu via? Eram elegantes damas com sombrinhas de renda e cabos de prata com seus nomes escritos. Usavam chapéus pequenos com plumas, bolsas minúsculas (nenhuma mulher tinha talão de cheques, cartões de crédito, documentos variados, só mesmo caixinha de pó de arroz, batonzinho em pasta, algumas moedas, e, às vezes, a chave da casa), saias com pouff de crinolina e o peito, chamado de pombo, empinava-se e fazia a linha S, conseguida não com silicone ou bisturi, mas com os artefatos de barbatanas, ilhoses e cadarços do espartilho. Vovó me mostrava postais e revistas antigas com essas senhoras tão elegantes e enumerava as lojas chiques, como Voga, a florista Mme. Finot, a Demarais (exibia as últimas novidades para a beleza) e outras. Mas, contava ela, "o melhor de tudo eram as modistas". Quando eu andava pela rua segurando a mão de mamãe, imaginava as roupas rendadas de Mlle. Lucy, Mme. Aran e dezenas de outras. "Anda, menina, não vai dar tempo para o sorvete!" Caía na realidade e ficava pensando se eu dia teria um vestido como aqueles das histórias.
Passaram-se os anos, a Rua do Ouvidor continua com o mesmo nome (o primeiro foi Travessa do Gadelha, depois Rua do Barbalho, Rua da Cruz e dezenas de outros), mas perdeu o seu charme. O comércio de moda continua lá, agora nas mãos de comerciantes que vendem modinha do momento a preço de banana, alguns orientais que se expandem dos lucrativos negócios do Saara (as ruas famosas por vender mercadorias populares, como a da Alfândega, Senhor dos Passos e adjacências). Até que se encontra uma filial ou outra de lojas ditas de griffes, mas que na grande maioria ficam hoje nas ruas Sete de Setembro e Gonçalves Dias, próximas aos prédios onde trabalham as poderosas funcionárias de multinacionais, escritórios de advocacia, órgãos do governo e outros babados.
A trajetória da moda atravessou o Centro, foi para Copacabana, tomou posse de Ipanema (onde é a mais fashion, de quem bate perna por lá e das boutiques cheias de graça como a garota de Vinícius e Tom) e foi emergir na Barra da Tijuca. Os shoppings crescem e aparecem, o Rio é todo o moda, ainda que se diga que São Paulo é o grande ditador, tomando o lugar do colega São Sebastião.
Mas, pelo menos no meu imaginário, nunca haverá uma rua como a do Ouvidor, que teve como primeira costureira uma certa Perpétua, que, entre outros méritos de corte e costura, foi namorada de Tiradentes.
* Gilda Chataignier — carioca, graduada em jornalismo pela UFRJ, no momento colabora em revistas diversas (Caras, Quem, World Fashion e outras) e é professora de moda na Universidade Estácio de Sá (nas disciplinas Jornalismo de Moda e Tópicos Avançados) e na Universidade Veiga de Almeida (História da Moda Contemporânea). Ministra palestras, simpósios e cursos, sendo o do momento Tecidos da Moda, que já está na 6a edição. Autora de vários livros, sendo o mais representativo Todos os caminhos da moda (Editora Rocco), esgotado, mas que deverá ser reeditado. No prelo, a História da moda no Brasil, com enfoque voltado para adolescentes.