O forró da bicharada
Apolônio Alves dos Santos
Vou versar para os leitores
Uma história engraçada
A festa dos animais
No reino da Passarada
Cujo livro leva o título:
O forró da bicharada
No tempo que os animais
Falavam e se entendiam
Não havia desavença
Todos se compreendiam
E os decretos do reino
Todos alegres cumpriam
O leão que era o rei
Casado com a leoa
Viviam constantemente
Passando uma vida boa
Todos bichos respeitavam
O rei e sua patroa
Todo ano o rei leão
Pelo seu aniversario
Dava grande banquete
Ali no seu mandatário
Transformava o grande reino
Num verdadeiro cenário
Ali convidava todos
Os bichos do seu reinado
Não ficava um só vivente
Que não fosse convidado
Todos queriam assistir
O dia tão festejado
Aquele grande banquete
Era de admirar
Bebida e comedoria
Tinha ali para sobrar
Os bichos todos bebiam
E comiam a se fartar
Afinal chegou o dia
Da grande reunião
Começou chegar os bichos
De mais alta posição
Num salão todo enfeitado
Era a recepção
Chegou logo o elefante
A girafa e o camelo
E a onça suçuarana
Trajando fino modelo
E o bode todo cheiroso
Endireitando o cabelo
Depois chegou o veado
O urso e a capivara
O avestruz e a águia
O papagaio e a arara
E o mestre tamanduá
Passando a língua na cara
A garça toda vaidosa
Chegou metida a grã-fina
Toda vestida de branco
Por ser rica bailarina
Fazendo inveja ao Pavão
No traje de seda fina
Afinal chegaram todos
Os bichos que existia
No reino da bicharada
Reinava grande alegria
E rei recebeu a todos
Com a maior cortesia
O camelo era o juiz
Elefante delegado
O cavalo era doutor
E o burro advogado
O porco espinho inspetor
E o cachorro soldado
O galo era cantor
O macaco era ferreiro
O veado era ministro
O bode era sanfoneiro
O lobo era marchante
E o boi era sapateiro
O gambá chegou à noite
Junto com o guaxinim
Por serem músicos vieram
Para tocar no festim
Com mestre gato que era
Batedor de tamborim
Depois do grande banquete
Iniciou-se o forró
Se juntaram pra dançar
Todos bichos numa mó
Dona garça começou
Dançar com doutor mocó
O rei leão começou
Dançar com dona leoa
Outros entraram na dança
Acharam a farra boa
O rei gritou: — Emburaca
Aqui ninguém não enjoa
O porco tomou um porre
Ficou logo embriagado
Queria invadir a festa
Todo sujo enlameado
Foi expulso do salão
Por ordem do delegado
A raposa e o gambá
Também tomaram pifão
E lá no salão do baile
Criaram uma confusão
Queriam dançar à força
Com a mulher do pavão
O pavão indignou-se
E foi abrindo o penacho
Sacou da arma dizendo:
— Aqui eu não vejo macho
Deu um tiro no gambá
Que quase derruba o cacho
O galo aproveitou
Para agredir o peru
Já eram rivalizados
E naquele sururu
O galo com seu punhal
O feriu no mucumbu
O peru caiu tremendo
Soltou um grito alarmante
O galo saiu correndo
Mas naquele mesmo instante
Cachorro correu atrás
Prendeu o galo em flagrante
Logo o cachorro levou
O galo para a prisão
Depois no baile chegaram
Teju e camaleão
Os dois que eram rivais
Partiram para agressão
A cobra também chegou
Para enfrentar o teju
Naquele grande alvoroço
Chegou ali o tatu
Os dois queria engolir
A cobra surucucu
Ali terminou a paz
Travou-se a revolução
O cachorro deu um tiro
No meio da multidão
Ticaca soltou um traque
Incendiou o salão
Macaco orangotango
Pegou-se com chimpanzé
E o bode dava espirro
Como quem tomou rapé
Saiu danado correndo
Gritando por Salomé
A cabra com medo dele
Corria de mais a mais
E o bode pega não pega
Por dentro dos matagais
A onça a fim de comê-los
Danou-se correndo atrás
Nisto o cavalo também
Irado meteu os pés
Deu logo um coice na mesa
Que estava os coquetéis
Virou com tudo e depois
Sapateou os pastéis
O rei leão irritou-se
Quis enfrentar o cavalo
O tigre franziu a testa
E partiu para agarrá-lo
O urso branco chegou
Dizendo vamos linchá-lo
E o cavalo ficou
Só dando coice e patada
Aonde a pata batia
Estava feita a fritada
Bicho caía no chão
Com a cara ensangüentada
O cavalo meteu os dentes
Na corcunda do camelo
Este sacou o revólver
Gritou lá vai desmantelo
Deu um tiro no cavalo
Passou queimando o cabelo
O cavalo viu que ali
Ia ter mau resultado
Deu uma popa tremenda
E correu desembestado
Macaco pulou em cima
Saiu no lombo escanchado
A garça trepou-se logo
Dizendo ninguém me suje
Os bichos todos lutando
Era aquele ruge-ruge
Cachorro correu com medo
Para não pegar rabuje
Mas a girafa agarrou
Cachorro no espinhaço
O rebolou para cima
Ele subiu no espaço
Que quando caiu no chão
Virou-se todo em bagaço
A águia entrando no meio
Quis engolir o peru
Meteu o bico nos olhos
Do maracajá açu
E queria estrangular
Os filhos do canguru
O tamanduá-bandeira
Foi agarrando o veado
Deu-lhe um abraço tremendo
Com um ódio tão danado
Que quando soltou o bicho
Estava todo quebrado
E a cobra de veado
Na briga também ataca
Foi logo enrolando o rabo
No tronco de uma estaca
E logo soltou um bote
Para pegar uma vaca
Errando o bote da vaca
Pegou um carneiro mocho
Arrochou tanto que ele
Estava ficando roxo
Se os outros não socorre
Ela o matava de arrocho
Nisto chega o elefante
Junto com o rei leão
E a todos bichos valentes
Deram ordem de prisão
E todos foram parar
Nas grades da detenção
Aqui prezados leitores
A história está findada
Lenda assim como esta
Vale a pena ser versada
Escrevi por cortesia
Sem alteração de nada

