Lamento do trabalhador

João Lopes Freire

O mundo é um confessionário
Se a gente bem observar
Em cada uma esquina
Tem um pecado a contar
Cada dia que se passa
Vê-se a miséria aumentar

Tem muitas lágrimas a derramar
Quem tiver consciência
Sentindo que o amor do próximo
Continua em decadência
Do que chamamos amor
É muito grande a ausência

Não é só do pão que vive o homem
E nem também de promessa
Mas muitos ainda pensam nisto
Sustentam a última remessa
E quem não quiser morrer de fome
Perca a vergonha e peça

Jesus falava na mércia
Na sagrada profecia
Mas hoje os donos do mundo
Escondem a mercadoria
Para vender por preço alto
Que eu acho covardia

A gente lê nos jornais
Se vê na televisão
Também se escuta nos rádios
Promessa sem direção
Dizendo vai abaixar tudo
E chegar muito feijão

Mas se vê aumentar o pão
O café e a gasolina
Medicamento nem se fala
Aumenta até vaselina
E o pobre de passar fome
Já está de canela fina

Os comerciantes se combinam
No armazém ou na mercearia
Vamos levantar o preço
Nós mesmos é quem marca o dia
Vamos dizer que está em falta
E se levantar a mercadoria

Eu sei que o rádio anuncia
Que vem feijão da Argentina
Do Chile e da Bulgária
Vem até da Palestina
Da Inglaterra e do Japão
Do México e da Indochina

Mas quem enricou com promessa
Foi Blato e São Cristão
Que trabalhavam no Juazeiro
Com padre Cícero Romão
E na Aparecida do Norte
Quem gosta de exploração

Mas  pobre assalariado
Que leva a pesada cruz
No seu barraco falta pão
Falta água e falta luz
Não tem para quem apelar
Somente para Jesus

Aquele que vai morar
Numa casa com telhado
O mesmo seja com laje
Ganha um salário limitado
Por não poder pagar aluguel
Logo será despejado

Chega mais de um soldado
Tudo de arma na mão
Um oficial de justiça
Um advogado e um escrivão
Dizendo "desmonta os móveis
E joga no caminhão"

Diz "vá lá para o depósito
Ou mesmo para o galpão"
Aquela pobre família
Fica sem direção
Para quem tem consciência
Isto é falta de religião

O pobre não tem vez não
Só escuta promessa e mais nada
Muito embora seja ele
Quem constrói o açude e estrada
Clubes e apartamentos
Canal, esgoto e calçada

A cidade iluminada
Poste e instalação
Telefone e limpeza pública
Carro pequeno e caminhão
Tudo é o pobre quem faz
Porque rico não faz não

Padaria, massa e pão
Armário, cama e mesa
O almoço, jantar e ceia
E desenvolve qualquer empresa
Mas para eles não tem vez
Só termina na pobreza

Tem um tal de salário mínimo
Que é pequeno até o nome
Quem ganha esta migalha
Só vive passando fome
Até na própria esposa
Tem vez que esquece o nome

Toda classe de operário
Desde o Norte e Nordeste
É a mola fundamental
Mas sofre que só a peste
Ficando velho ou doente
Para ele não tem mais teste

Diz logo assim o patrão
"Vamos mandar ele embora"
Aí o pobre doente
Sai pelo mundo afora
Vai para o INPS
Aí que a coisa piora

Doente passando mal
Se levanta de madrugada
Para fazer um exame
Que a data já está marcada
Quando chega o resultado
O médico não lhe deu nada

Com a esposa parada
E mais um filho doente
Fica tudo em desespero
Sendo cristão sei que sente
São estas as fotografias
Do nosso Brasil para frente

Pois não tem homem decente
Vendo o filho chorar
A esposa passando mal
Ele fica diferente
Muitas vezes enlouquece
Termina matando gente

Às vezes bom trabalhador
Que já deu tanta produção
Tanto que já ajudou
O progresso da nação
Termina às vezes na miséria
Por mal de administração

Promessa existe demais
Mas falta realidade
E também muitas mentiras
O qual só serve a verdade
E do que eu leio nos jornais
Não vejo nem a metade

Tem coisa que é verdade
Isto eu presto atenção
É maconheiro e bandido
Tarado junto a ladrão
Para este tipo de gente
Não falta arma e munição

Procurando desmoralizar
Os nossos policiais
E quanto mais eles prendem
Aí que aparece mais
Todos de arma na mão
E ninguém sabe donde eles traz

Na cidade o banditismo
Persegue o trabalhador
E na fazenda o fazendeiro
Massacra o agricultor
E nas usinas de açúcar
Sofre muito o lavrador

De tudo eu sou conhecedor
Que não viajo de avião
Viajo em burro ou cavalo
Ou mesmo de pé no chão
Palestrando com o agricultor
E prestando toda atenção

Lá nos ares eu não sei não
O que se passa com os cambiteiros
Com os pequenos agricultores
E os humildes moradores
Nas garras dos fazendeiros

Mas sou um dos violeiros
Que muito tem viajado
E na casa de gente humilde
É onde eu tenho me hospedado
Para saber de tudo
E não viver enganado

Porque toda sala é limpa
No sítio ou na capital
Mas vamos olhar a cozinha
Olhar por trás do quintal
Que tantas vezes tem sujeira
Que a gente se sente mal

Ninguém me passa para trás
Porque eu tenho conhecimento
Nasci em cama de vara
Me criei com sofrimento
Mas tenho honra de ser brasileiro
Ser poeta e ter talento

Para quem não tem pensamento
Nem honra nem proceder
É igual a papagaio
Diz o que escuta dizer
Gosta muito de chaleira
E não se importa de sofrer

Mas o homem de proceder
Que tem honra de ser brasileiro
Sente dentro da alma
O que sente o seu companheiro
E luta para lhe ajudar
E tirá-lo do desespero

Tantas famílias por aí
Vivendo abandonadas
Outras debaixo das pontes
Vivendo desamparadas
E tantas casas sem ninguém
Há anos desocupadas

Sabemos que são nossos irmãos
Deviam levar para a moradia
Vão zelar por esta casa
Pagando pouca quantia
Que vocês também são gente
E não merecem covardia

Mas muitos homens hoje em dia
Às vezes têm tanta cultura
Mas pensam quando morrer
Vão levar para a sepultura
Casa, carro e dinheiro
Daí vem a desventura

Para que tanta casa fechada
Que se vê no Irajá
Também em Padre Miguel
E não deixa ninguém morar
Nem para o céu nem pro inferno
Quando morrer não vão levar

É só mesmo para massacrar
O homem trabalhador
Dão-lhe um salário de fome
Para o pobre sofredor
Ainda querem que este pobre
Seja um bom pagador

Deveriam fazer um cálculo
Quantos filhos é que ele tem
Quanto gasta na escola
Em medicamento também
Toda despesa de casa
Para não dever a ninguém

E poder pagar também
O aluguel da moradia
Não se tornar um devedor
Viver cheio de alegria
E agradecer o governo
Por ter-lhe dado garantia

Mas só se vê hoje em dia
É propaganda e nada mais
Todo trabalhador vai ter casa
E aluguel não pagar mais
Mas isto é só pelos rádios
E pelas páginas dos jornais

Quem quiser que vá atrás
De tanta promessa em vão
Só os documentos que eles pedem
Dá para fazer confusão
Tem quem ganha mais de três salários
Vigente da região

Tenho prestado atenção
No que o governo tem falado
Que estas casas desocupadas
É para os mais necessitados
Que ganha salário mínimo
E vive desamparado

Não sei se é o seu secretariado
Ou o governo estadual
Ou mesmo sejam os ministros
Que têm plano desigual
Fazem uma coisa de um jeito
E botam outra no jornal

Só o pobre passa mal
Tristeza e perturbação
Quem tiver consciência veja
Que parte da administração
Tira o favelado de seu barraco
Em cima do caminhão

Ele lá não paga um tostão
De aluguel da moradia
Eles levam para um apartamento
Que a moradia é mais sadia
Mas se o pobre ganha tão pouco
Que não come nem todo dia

Aí começa atrasar
Aluguel, água e luz
Não tem para onde correr
Tem que apelar para Jesus
Porque o seu sofrimento
Para mau caminho lhe conduz

Devia primeiro ser feito
De tudo um levantamento
Quanto era o seu salário
De acordo com o documento
Para o trabalhador não ter prejuízo
Nem tristeza e nem sofrimento

Eu vejo um aposentado
Quanto é que está ganhando
Quantas lágrimas tem derramado
Quanto os seus filhos estão chorando
E seu aluguel atrasado
E seu despejo se aproximando

Muitos que existe morando
E sua aposentadoria
Ela é feita pelo Norte
Aonde ele vivia
Ganhando pouco salário
Passa fome todo dia

Quem nasceu em berço de ouro
Que não sabe o que é pobreza
E que não sente remorso
Vendo os outros na tristeza
Não se lembra nem de Deus
Só pensa em sua riqueza

Eu nasci lá no sertão
Vendo muita fartura
Comendo milho assado
Fava com rapadura
Misturando com molho de pimenta
E melancia madura

Se tinha muita fartura
Porque toda vizinhança
Vinha para casa da gente
Não se falava em vingança
Se rezava terço e novena
E Deus mandava bonança

Tinha forró, tinha dança
Se brincava noite inteira
Era um baile na latada
Que levantava poeira
Era a dança mais apreciada
Era samba, valsa e rancheira

Tudo era brincadeira
Quando era noite de São João
Com a fogueira no terreiro
A gente soltando balão
Angu, pamonha e canjica
Buscapé, bomba mijão

Se fazia adivinhação
Da faca da bananeira
Se olhava sombra na parede
E no clarão da fogueira
Também um prato com água
Fogo de lágrima e bandeira

Era uma festa de primeira
Para ninguém não faltava nada
Quando era no dia de São João
Era grande a panelada
De carneiro ou cabrito
Cachaça e muita buchada

Primeiro era o mês de maio
Que se chamava o mês das flores
Quando era nas últimas noites
Se chamava dois cantores
Que cantavam noite toda
Louvando nossa mãe das dores

Nordeste dos trabalhadores
Todo mundo tinha fartura
Muita terra para se trabalhar
Não se falava em desventura
Isto que eu estou dizendo
É uma verdade pura

Mas depois veio a desventura
Para o pobre agricultor
Os proprietários viraram bicho
Contra o trabalhador
Dizendo "eu quero criar gado
Que para mim dá mais valor"

Começou fazer cercados
Cercando a propriedade
Aonde a terra era mais forte
Ele fazia por perversidade
Ali plantava só capim
Sem haver necessidade

Muitos desses moradores
Às vezes com roça madura
Tinha deles que tinha até sítio
Era grande a sua agricultura
Todo ano enchia casa
E faziam muita fartura

Mas devido ser despejado
Daquela propriedade
Não tendo para onde ir
Coitado veio para a cidade
Morar dentro da favela
E passar necessidade

Vendeu seu cavalo bom
E sua vaca leiteira
Sua espingarda de fazer caçada
O bornal e a cartucheira
Sua foice e seu machado
E sua cachorra caçadeira

Vendeu até seu jumento
Sua vaquinha estimada
As cabras com as galinhas
O martelo e a enxada
E os cambitos de carregar lenha
Para fazer farinhada

Ainda o proprietário
Bravo igual a tubarão
Dizendo "O que não sair logo
Eu boto a casa no chão
Digo que ele é agitador
Eu sou quem ganho na questão"

Propriedade desocupada
Não pode dar produção
Começou faltar batatinha
Milho, arroz e feijão
Jerimum e batata-doce
Feijão preto e algodão

Então todos os usineiros
As terras boas tomaram
Todos os seus moradores
A plantar cana obrigaram
E os que tinham agricultura
Coitados a abandonaram

Mesmo assim os fazendeiros
Começaram a plantar capim
Feijão para se comer
Começou levando fim
Não querem mais cumprir ordem
E o nosso mundo está assim

Ninguém vai resolver nada
E o usineiro é rico demais
Fazendeiro também é
E a justiça não vai atrás
E indo vão ser hóspedes deles
Somente promessa traz

Sabemos que dinheiro não fala
Para contar nada a ninguém
Os pobres expulsos das terras
Direito para eles não tem
Mas isto é uma vergonha
Para o homem que pensa bem

O governo federal
Muito tem trabalhado
Mas quando sai de Brasília
Por ministro acompanhado
Vai ser hóspede do senador
Ou de governo do estado

Muitos deles são fazendeiros
Também grandes criadores
Nenhum deles vão contar
Quanto ganham seus moradores
E só vão contar grandeza
E não falam nos sofredores

Com pessoas dedicadas
Que só desejam fazer o bem
Que trabalhem muito certo
Se procurando ainda tem
Para ver os erros dos fazendeiros
Que não gostam de ninguém

Lá no Norte eu sei que tem
Hoje grande propriedade
Que dos moradores que tinha
Não tem mais nem a metade
Que os proprietários expulsaram
Só mesmo por perversidade

De Mamanguape a Guaramira
De Itambira a Sapé
De Pilar a Campina Grande
Se Santa Rita a Cobé
De Rio Tinto a Nova Cruz
De Mari a São José

Em todas estas cidades
Agora pouco eu visitei
Em todos os seus municípios
Eu cantando viajei
Nem a metade dos moradores
Morando mais encontrei

Quando algum eu encontrava
Que pedia informação
Já foi embora daqui
Por causa da perseguição
Tão lá pra banda do rio
Que aqui não presta mais não