O chumbrego das meninas
Carlos José
A moça que se zangar
Com estes versos que fiz,
Procure falar comigo.
Na casa fiz porque quis.
No samba parede e meia,
Perto da loja meretriz.
Nessa rua moro eu,
No beco da malandragem
Na esquina dom Pelintra.
Tem um samba da frangagem,
Domesticando essas moças
Que gostam da safadagem
Pra baixo já fica o
Prossiga na rua em frente,
Anterior vê a sede
De santa mocinha quente,
Lá no escuro me conte
A dor que seu peito sente
Nessa casa sem respeito
De moça dançar sem pejo,
De dia tão labutando
De noite tão no latejo
De dia apurem bondade
De noite levando beijos
Paga cota todo mundo,
Ali ninguém não amola
Vê se crianças nas garras
De cada um freguês trangela,
Esticar-se de uma forma
Que só corda de viola
Quando termina uma parte
Só se vê moça suada,
Dizendo seu Zé agora
Mande botar um bicada
E vamos nos acabar hoje
Tudo de gata esporada
Ronca concertina e bombo,
Triângulo, reco e caixão
Um tagarela e outro grita,
Outro prali faz serão
Um quebra e encosta a pança
Haja beijo e beliscão
Senhorita dançadeira
Não imagina na desgraça
Que já tem visto nas outras,
Com todo mundo se abraça
Diz ao malandro nós hoje
Vamos subir na fumaça
Toda festa que tem dança,
Sai o namoro, o ditado
Sai o barulho, a intriga,
Sai o crime e o pecado,
Sai a moça e o malandro
Com o seu nome falado
Uma moça que não dança,
Porém vai olhar de fora
Tem malandro audacioso
Que por traz dela se escora,
Quando sai diz aos colegas
Me esfreguei naquela agora
Vejam bem pais de família,
De dança o que é que sai,
Da moça que dança e olha
Em quem a fama recai,
São cúmplices todos os quatros
Dança moça velha e pai
Xarope de dança é bom,
Pra fama de moça nova
Guardar dieta dos velhos
Até descobrir se aprova
Os alimentos são três:
Igreja, hospital e cova
Hipnotiza a tal dança
A qualquer moça solteira
No gozo da mocidade
Ali não se vê canseira
Quem achar ruim o que digo
Faça do livro confeito,
Já tendo pago o folheto
Na dança lá pinte o sete
As danças são proibidas,
Com pessoas desiguais
De sexos quero eu dizer,
Moça dançar com rapaz
Por cometer nesse ato,
Muitos pecados mortais
Basta dizer que as danças
Do paganismo provém
Para serem detestadas
E aborrecidas também.
O sentido de quem dança
Está de Deus muito além
Certas festas que se faz,
Em honra de Deus não são
Porém sim do satanás
Diz a sagrada missão,
Pois na dança o vício público
Toma maior expressão
Da dança nasce a semente
Do vício da humanidade,
Diz São Ambrósio que a dança
É coro da iniqüidade,
Escolho da inocência,
Morte da honestidade
É a fonte da infãmia
Da licença e liberdade
Os meninos ímpios conhecem
Da impureza e maldade
Quem pratica a dança faz
Uma guerra a castidade
Faz a vergonha de um lar,
A ruína, o desacordo
Faz o ciúme, o fuxico
Faz a briga, o desaforo.
Faz a dança, tudo isso,
Faz riso fundir-se em choro
Garanto que os dançarinos
São indignos do perdão,
Pois qual é o Evangelho
Que dá autorização,
O homem é sempre leviano,
Lascivos seus olhos são
Homem de Deus é a imagem
Homem na terra é senhor
O homem é malicioso,
Sempre o homem é de horror,
Homem na dança é cruel,
Homem grande pecador
Infeliz de qualquer moça
Que só quer viver da dança,
Jamais uma moça dessa
Pode ser como uma criança
Uma vez que a um malandro
Deu-lhe toda confiança
Já tem se visto mocinha
Ficar em decrepitude,
Somente porque dançou
No tempo da juventude,
Quando se casa à capela
Só vai a poder de grude
Quilos de grude de cera
Vão sustentando a capela
Trezentos e vinte broxes
Vão agarrados com ela.
Porque a moça na dança
Perdeu o direito dele
Ladrão da honestidade,
Na dança é onde se acha.
Pensa bem família que
Na dança não se rebaixa.
Na dança moça é mexida
Que só massa de bolacha
Moça na dança cochicha,
Faz toda revelação
O rapaz também declara-se
A sua má intenção,
Mas ambas as tentativas
Terminam em tapeação
Não existe dança séria,
Todas são falsificadas
Só dança que não se rege
Pela escritura sagrada.
Faço guerra contra a dança,
A dança não vale nada
O mundo só dá valor
A quem toca e dança bem,
Na festa que não há dança
Não se vê chegar ninguém.
Houve toque moça e dança
Até o diabo vem...
Moça anda atrás de dança,
Como ladrão por vasculho,
Como intriga por barulho,
Como fraco por sustança,
Como lombriga por pança,
Como matuto por jaca,
Como bezerra por vaca,
Como fateira por tripa,
Como aguardente por pipa,
Como soldado por faca
Moça anda atrás de dança,
Como noite por macumba,
Como negro por zabumba,
Como francês por França,
Como noiva por aliança,
Como o aruá por ova,
Como mentira por prova,
Como cintura por cinto,
Como gavião por pinto,
Como defunto por cova
Moça anda atrás de dança,
Como mosca por ferida,
Como fome por comida,
Como crise por bonança,
Como carta por lembrança,
Como sebo por sabão,
Como brasa por tição,
Como raiva por desprezo,
Como cadeia por preso,
Como doutor por questão
Moça anda atrás de dança,
Como jogador por jogo,
Como piaba por gogo,
Como neto por herança,
Como peso por balança,
Como carne por tempero,
Como barba por barbeiro,
Como pente por piolho,
Como pestana por olho,
Como pobre por dinheiro
Moça anda atrás de dança,
Como general por guerra,
Como selvagem por serra,
Como argolinha por lança,
Como bispo por criança,
Como sacristão por sino,
Como mestre por ensino,
Como venda por caixeiro,
Como pena por tinteiro,
Como escola por menino
Moça anda atrás de dança,
Como doente por clima,
Como posta por rima,
Como ira por vingança,
Como marrafa por trança,
Como rapaz por namoro,
Como curtume por couro,
Como velha por feitiço,
Como abelha por cortiço,
Como cachorro por soro.

