O menino monstro
Abraão Batista
Roberto Almeida é repórter
Destemido na cidade
Para descobrir notícia
Não vê tamanho e idade
Vai aos céus, desce ao inferno
Qualquer jornal tem no seu berro
Grande furo de verdade
Foi por ele que tomei
A notícia sensação
Mas sabendo dos detalhes
Vi-me na comiseração
Não deixando de falar
Na grande dor do irmão
Aos dez dias do mês de maio
Em Juazeiro do Norte
No hospital de São Lucas
Eu vou dizer, eu sou forte
Um menino monstro nasceu
E logo que se moveu
Foi entregue para a morte
Lembrem-se todos amigos
Habitantes desta nação
Em mil novecentos e setenta
Anda andando solto o cão
As profecias foram ditas
Guardem todas marmitas
Vai haver revolução
Eu vou relatar direitinho
Não se afobe que vou contar
Os detalhes da história
Deus queira, não vá se assombrar
Pois uma figura horrenda
É dona dessa contenda
Que me faz arrupiar
Ao dez dias do mês de maio
Aqui mesmo em Juazeiro
Nasceu um menino bicho
Ao falar, faço um cruzeiro
No dia mesmo das mães
Quando quase todos clãs
Comemoram no mundo inteiro
A imprensa de nossa terra
Tem seus fotógrafos escolhidos
Para, quando nesses casos
De notícias, estarem unidos
Se não fosse dessa forma
Os jornais não tinham forma
Sem direitos assistidos
Quando o repórter chegou
E falou no hospital
Eu venho aqui, sou imprensa
Quero fazer um edital
Dê-me detalhes do menino
Entre sapo e felino
Filho de fulano de tal
Nos nomes dos pais eu não falo
Pois é falta de caridade
Já que entre nós cristãos
Deve haver sempre irmandade
Mas, a conversa eu confesso
Desliza por entre os versos
Com toda sinceridade
A freira do nausicônio
Olhou fixo no jornalista
E foi dizendo mentiras
Que não tinha visto na lista
O registro do nascimento
De menino peçonhento
Para mudar logo de vista
O Roberto que é muito vivo
Puxou logo dum retrato
E foi dizendo pra freira:
Veja aqui como é o meu trato
E a freira se estremeceu
Quando ali, logo, ela deu
Os detalhes do relato
A freira reconheceu
Aquela fotografia
Era da mesma criança
Que no parto ela assistia
Ficou trêmula, ficou tonta
E o repórter não conta
Da sua fisionomia
O repórter só queria
Confirmação do hospital
Pois já vinha do coveiro
Com um retrato legal
E uma notícia daquela
Foi muito feia pra ela
Por isso quis um final
Agora vou começar
— Pelo sinal, viva São João
Acudam-me São Zacarias
São Jorge, o meu irmão
O que olhei o menino
Parecia-me algo assassino
De terras que não sei não
A cara daquela coisa
Parecia a de um macaco
Tinha a boca de peixe
E a pose de um rato
Com uns braços bem desnudos
Com as mãos quase de gato
Dentro de sua expressão
Deformada para nós
Tinha dois olhos medonhos
Tão rasos como uma noz
Um bigode bem fininho
Não parecia um anjinho
Era uma fera atroz
Em volta dos olhos vermelhos
Como se olhasse ninguém
A testa de quem era forte
A cara que ninguém tem
As mãos de patas de onça
As pernas da geringonça
Era um ser do além
Tinha os dentes completos
Da zona superiora
Tinha os braços tão fortes
De quem corria em motora
Parecia um homem da lua
Pois, se andasse na rua
Daria em todos a lora
Uma pessoa muito sensível
Para aquilo não ia olhar
Lá, se não morresse de medo
Começava logo a chorar
Da expressão sem expressão
Daquele bicho, irmão
Que não devia se enterrar
A boca entreaberta
As ventas de um leão
As orelhas quase de rato
A pose de um Sansão
Era uma coisa tremenda
Era uma oferenda
Ao mais feio — a negação
Que Deus se apiede de nós
Dos bons e dos maus, também
Porque a maldade é tanta
Daqui pra Jerusalém
Ó! não sei se há mais justiça
O diabo ao tolo enfeitiça
E santo não sei se inda tem
Muita gente não crê em milagres
Zomba de Deus e da fé
Mistura o Divino ao feitiço
Comungando hóstia e rapé
O filho não aceitando os pais
A mocinha aos poucos se vai
Tornando-se uma qualquer
As mães são tão criminosas
Matando os filhos no ventre
Tomando pílulas e drogas
Abortando ó serpentes!
Seguindo o mandato do cão
As mulheres em grosso se vão
Para o infa em aço e correntes
Se o preço dessa desordem
Pagassem os malfeitores
Deixassem livres as crianças
Do débito dos pecadores
Eu ficaria calado
Ouvindo o roncar do machado
Nos braços dos lenhadores
Existe um remédio estrangeiro
Chamado Thalidomida
Que as mães dos brasileiros
Estão fazendo comida
Este remédio é o cão
Quando não mata o irmão
Nasce o coitado sem vida
Na Alemanha e Inglaterra
Duas mil crianças nasceram
Aleijadas sem ter mais jeito
Que todas mães entenderam
E gritaram foram estas drogas
Chorando as mães e as sogras
Em grande dor se meteram
O mesmo estão fazendo
As mães do meu Brasil
Acovardam-se, não querem os filhos
Tomam as pílulas, enchem o barril
Para ficar mais cavernosas
Magras, gordas, nervosas
Hipócritas, impuras, às mil
Não admito que um cristão
Não ame a quem gerou
Mate o feto sem castigo
Rei Herodes assim mandou
As igrejas são pagodes
Os cristãos, são puros bodes
A tábua da lei se calou
Assim mesmo eu termino
Esta história sem igual
Relembrando para as mães
O dia do Juízo Final
Não custará, está em cima
E terminando esta rima
Faço o meu ponto final
Juazeiro do Norte, 10 de maio de 1970

