Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Sumário
A doença do rico é a saúde do pobre
Encontro de Lampião com Kung Fu em Juazeiro do Norte
Ele viveu há três mil anos atrás
Dois glosadores: Azulão e Borborema
Discussão de João Formiga com Francisco Parafuso
Arrebenta Mundo
Apolinário e Helena entre os laços do amor
ABC da saudade
A vida de um grande folclorista brasileiro
A peleja de Leandro Gomes com uma velha de Sergipe
O trem da madrugada
O menino monstro
O chumbrego das meninas
Lamento do trabalhador
Gosto com desgosto (O casamento do sapo)
Futebol dos peixes – Grande sensação
Frei Caneca – Herói e mártir republicano
O forró da bicharada
O meu livro
A chegada de Lampião no inferno
O cachorro dos mortos
História da donzela Teodora
As presepadas do satanás na igreja
As astúcias de Zé da Luz
A Revolta da Chibata
Textos publicados nas edições anteriores

 

 

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Agosto 2006 - Ano VIII - nº 93

Edição Especial: Literatura de Cordel

Gosto com desgosto (O casamento do sapo)

Leandro Gomes de Barros

No tempo do carrantismo
Tempo que os bichos falavam
Como hoje vivem os homens
Eles também transitavam
Havia muitas questões
Casos fundos que se davam

Na cidade da Caipora
Perto da Tábua Lascada
Município da Rabugem
Freguesia de São Nada
Rua de Não Sei Se Há
Esquina da Sorte Minguada

Morava nesse chalé
Um sapo velho caldeireiro
Tinha uma grande família
Um filho ainda solteiro
O velho era arrumado
E o filho tinha dinheiro

A filha caçula dele
Sapa também arrumada
Filha daquele lugar
Por todo mundo estimada
Por amar muito o seu pai
Ainda não era casada

O visconde Cururu
Barão da cria quebrada
Morava na Vila Nojenta
Rua da Esfarrapada
Travessa do Alagadiço
Na casa número nada

O visconde tinha um filho
Um rapaz também solteiro
Não era lá desses ricos
Mas também tinha dinheiro
Engraçou-se da sapinha
A filha do caldeireiro

A viscondessa dona Gia
Conhecendo que o filho amava
A sapinha caldeireira
Com vergonha não falava
Respeitava muito ao pai
Por isso nada tratava

Disse a Gia ao Cururu:
— Seu filho quer se casar
Mas tem-lhe muito respeito
Acanhou-se em lhe falar
Venho consultar a você
Acha bom se ela aceitar?

— Acho. Respondeu o sapo
A sapa é bem arranjada
Filha de um homem distinto
Um belíssimo camarada
Ela e o pai aceitando
Se faz eu não digo nada

O visconde Cururu
Deu parte ao caldeireiro
Esse com gosto aceitou
Quase recusa primeiro
Mas depois se resolveu
Contrataram para janeiro

Disse o sapo caldeireiro:
— É preciso eu preparar
Um vestido muito fino
Para a noiva se casar
Eu quero dar um banquete
Para ninguém censurar

Comprou vestido de seda
Espartilho e capela
Guarda-sol, luvas, sapatos
Tudo, que agradasse a ela
E disse que convidasse
Todas as amigas dela

Tinham tratado o casamento
Para doze de janeiro
em dezembro choveu muito
Quase que enche o barreiro
Resolveram o casamento
Devido a esse aguaceiro

Reuniram-se as famílias
E deram logo andamento
Saiu da Vila Nojenta
Um grande acompanhamento
Sapos de todas as classes
Que vinham ao casamento

O visconde Cururu
Metido em um casacão
O noivo todo de preto
Trazia um bom correntão
Um pincenês de cristal
Em cada dedo um anelão

Deram começo ao banquete
O caldeireiro tocava
O sapo-boi que era noivo
Junto da noiva berrava
O visconde Cururu
Um violão afinava

A mulher do caldeireiro
Ajudando a vestir a filha
Dona Gia e outras damas
Estavam dançando quadrilha
O caldeireiro gritava
A festa brilha ou não brilha

Estava o cunhado do noivo
Tocando num rabecão
O sapo sunga Neném
Descorria um violão
O Cururu no piano
A Gia no botijão

Já o altar estava armado
Estava a noiva se aprontando
Os copeiros pondo a mesa
Perus e porcos assando
Quando de súbito viram
Três cobras virem chegando

Dessas três recém-chegadas
Foi um jaracuçu
Dirigiu-se ao gabinete
Do visconde Cururu
Olhem o desgosto no gozo
Quem quis mais comer peru?

Uma das cobras de campo
Foi ao major caldeireiro
Não respeitou-lhe a patente
Nem se importou com dinheiro
A noiva e os convidados
Ganharam logo o barreiro

A outra ficou por fora
Como quem fica de espia
Saiu beirando o barreiro
Pode agarrar dona Gia
Já viram que festa essa
Sem graça e sem poesia?

A noiva pôde evadir-se
O noivo também fugiu
Dos convidados só um
Por feliz escapuliu
A mãe da noiva danou-se
Nem o noivo mais a viu

Festa de sapo em barreiro
Bicho de rumo em vasculha
Herança de filhos pobres
Milho em lugar de gargulho
É como coco de negro
Vem se acabar em barulho

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