Em João Pessoa, um agricultor do vale do Mamanguape assegura que só conhece um remédio infalível contra a embriaguez. Ei-lo "mata-se um urubu, tira-se-lhe o bofe, torra-se, transforma-se em pó, que se põe dentro de uma garrafa de cachaça. Depois, coloca-se a garrafa à vista do bebedor, de modo que, sem qualquer esforço, ele possa beber aquela cachaça. Dentro de poucos dias, o beberrão contumaz enjoa da cachaça e, assim deixará de bebê-la definitivamente. Se, porém, vier a saber que na cachaça havia bofe de urubu, voltará a fazê-lo da maneira anterior".
Esta informação aparece no livro Medicina folclórica, de autoria de José de Magalhães, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará. Para aqueles que desejam abandonar o vício existem, entretanto, dezenas de "truques especiais" bastante conhecidos, especialmente no interior da Bahia, Minas Gerais e Alagoas.
Sustentam vários nordestinos que, abandona-se a bebida, "tomando a cachaça misturada com areia de cemitério ou com pena de urubu torrada", mas o paciente não pode saber; ou "colocando-se um pão ou bolacha debaixo do braço da pessoa recentemente falecida e depois entregando-o ao viciado para comer, sem que ele saiba o que foi feito".
Outra "mezinha" para deixar de beber é esta: "tira-se, de uma galinha preta, a moela, lava-se, torra-se, faz-se uma infusão e dá-se para a pessoa beber. Nunca mais esse ex-beberrão deve comer galinha preta". Segundo os entendidos. "Um copo de aguardente com três pingos de sangue de urubu" também é bom remédio para esquecer a branquinha.
Agora, pode-se tentar ainda estes "eficazes argumentos": colocar um pão nos pés do morto e dizer, sem ser percebido: "leva a cachaça de fulano", ou fazer uma infusão de cachaça com minhoca ralada no chão. É tiro e queda, afirmam os baianos.
Urubu
Segundo o doutor José Magalhães, "o urubu — medicação antietílica registrada por barão de Studart — ainda goza de predileção entre as demais".
— Também se fuma, em cachimbo de barro, a mistura de penas de urubu, guizos de cascavel e folhas de fumo, Eduardo Campos, por exemplo, verificou o hábito de comer-se o fígado dessa ave para deixar de beber.
Mac Kinny, na obra O abutre na ciência médica da antigüidade revela que essa ave sempre foi "elemento mágico na terapêutica dos povos antigos (egípcios, babilônios, assírios, gregos e romanos), que dela aproveitavam penas entranhas, ossos, humores, excrementos, sangue, cérebro, pele, carne, bico etc.."
— Parece — acentua esse autor — que os egípcios estimavam o abutre, menos como fonte de matéria médica, do que como símbolo de proteção divina da humanidade nesta vida e na futura.
Roquete Pinto escreve que a coruja também já foi usada para combater a embriaguez. Segundo ele, os padres da Companhia de Jesus "davam, aos índios bêbados, aguardente misturada com calda desta ave triste".