Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Agosto 2005 - nº 81 - Ano VII


Sumário

Festança

Aspectos da festa de Bom Jesus da Lapa
Osvaldo de Souza

A festa de São Roque em Paquetá
Marisa Lira

Jardineira, arco de flores ou balainhas

Cancioneiro

O romance do conde de Alemanha
Téo Brandão

Tipos populares do Recife
Eustórgio Vanderlei

As letras do abecedário

Imaginário

O Filho da Burra

O quibungo

A camisa do homem feliz
Figueiredo Pimentel

Colher de Pau

Frutos, caça e pesca do Brasil
José de Santa Rita Durão

Os rituais da farinha de mandioca
A. Seixas Neto

Complexo da mandioca
Gastão Cruls

Oficina

A semana do vadio e a do trabalhador
Gustavo Barroso

A rede
Múcio Leão

Caprinocultura
Mauro Mota

Palhoça

Adão foi feito de barro

Em plena era atômica, estátua de jumento vai subir ao pedestal

Funcionário malandro
Oscar Nonato Chaves

Panacéia

Espirro
Getúlio César

Para curar embriaguez: urubu

Fatos e crendices sobre o raio
Ângelo Pais de Camargo

Veja o que foi publicado em Panacéia
Apoio Cultural
Simplicitate Design

Veja como sua empresa pode apoiar a nossa iniciativa.

Panacéia
Textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...

Espirro

Getúlio César

O espirro é uma função fisiológica que se origina do "movimento súbito e convulsivo dos músculos da respiração, produzido ordinariamente por excitação da membrana pituitária..."

O ato de espirrar chama-se esternutação, vem do latim esternumentum.

Os antigos gregos e romanos tinha no espirro um presságio de grande significação.

Presságio — pressagium em latim, significa prevenir e, para eles o espirro prevenia possíveis acontecimentos favoráveis e à vezes desfavoráveis.

Aristóteles, filósofo grego que viveu no ano de 384 ao de 322 AC, ensinava aos seus discípulos: "O homem inspira e expira por esse órgão (o nariz) e o espirro é efetuado por esses meios; que afinal é expelir a respiração recolhida, e torna-se o único modo de expiração usado como presságio, e é considerado como sobrenatural".

Os romanos dividiam o presságio em sete classes, dentre elas estava "os espirros de manhã, ao meio-dia, e à tarde".

O nosso povo envolve o espirro em uma tela misteriosa servindo ele para manifestação de bons desejos e pedidos de felicidade. É comum quando alguém espirra dizer cheio de fervor: Deus me salve! Ave Maria! Jesus me proteja! Nossa Senhora me proteja! E dos circunstantes ouvir essas expressões de felicidade: Pax domine! Saúde! Felicidade!, porque o espirro é sinal de boa sorte quando não é de gripe.

Às vezes aparece um engraçado para replicar quando alguém espirra: Vai chover; bode quando espirra adivinha chuva!!

A manifestação de respeito ao espirro nos veio de longe, Tibério, o imperador romano, era escrupuloso em abençoar espirros, e desejava que assim fizessem para ele. Esse hábito imposto por um imperador cruel que viveu 42 anos antes de Cristo até 37 anos depois de Cristo, perdura ainda entre nosso povo, entre os saxônios, escandinavos e europeus, e até entre os islamitas que dizem quando ouvem um espirro: Salve Alá! e os israelitas: Vida longa!

Na Noruega se um doente espirra não morrerá. Acreditam ainda que o espirro é a confirmação daquilo que se pensa. O mesmo acreditam os cossacos siberianos.

Quase todo o povo tem a sua superstição sobre o espirro. Em alguns clãs africanos é considerado uma ofensa se espirrar na frente do rei; "espirrar ao partir para uma viagem é mau sinal, convém adiá-la"; se no momento de se casarem o noivo ou a noiva espirra é sinal de má sorte; "o soldado espirrar em marcha para a guerra é um aviso que ser morto com uma lança". Assim cada clã tem a sua superstição particular.

Afirmam que o espirro pode produzir salutares benefícios para a cura do soluço. Muitos médicos antigos, nesses casos, passavam ao doente esturnotatórios forte. Um médico inglês, há muitos séculos escreveu: "Espirrar cura soluço, é proveitoso para parturientes, em letargias, apoplexias e catalepsias. É, porém, funesto para elas em doença do peito, começo de bronquite e cérebros enfraquecidos, nestes casos as expõe ao perigo de abortarem".

Era uso antigo antes de uma batalha, o general fazer sacrifício a seu deus. Temístocles, general ateniense, que viveu 525 anos antes de Cristo, quando marchou para a batalha de Xerxes fez o seu sacrifício, um soldado espirrou. O augure que o acompanhava predisse então a vitória dos gregos e a derrota dos persas.

Xenofonte, historiador, filósofo e general ateniense que viveu 430 antes de Cristo, preparando-se para uma batalha exorta os seus soldados dizendo: "Temos com o auxílio dos deuses, grandes esperanças de nos salvar com glória"; nesse momento um soldado espirrou. Xenofonte cheio de alegria exclama: "Já que neste instante em que deliberávamos sobre nossa salvação, Zeus, salvador, nos envia um presságio".

Ulisses, voltando do cerco de Tróia, naufragou indo parar na ilha Ogígia, onde reinava Calipso que urdira com os Fados o naufrágio de Ulisses porque o amava e queria prendê-lo no seu reino. Sete anos passou ele sob a proteção e carinhos amorosos da deusa sensual.

Conseguindo fugir em uma jangada, encetou uma viagem cheia de empecilhos que o faziam demorar pelos caminhos. Penélope, em Ítaca, o esperava sempre desprezando as ofertas de inúmeros pretendentes que desejavam desposá-la. Uma tarde orava ela, aos seus deuses quando Telêmaco, seu filho, ao lado espirrou. Penélope tranqüilizou-se porque os deuses atendendo às suas preces deram-lhe um presságio feliz da volta de Ulisses que só voltou depois de vinte anos de ausência.

Os negros do sul da África dizem que "espirrar antes de se levantar pela manhã, alguém está chegando; se espirrar ao comer, dele limpar a boca, do contrário, é certo morte na família" e os brancos existentes nesses lugares dizem que "espirrar uma vez, é espirrar para sorte, e espirrar domingo, pela manhã, antes de se levantar; é aviso de proposta de casamento, antes da semana findar".

O espirro influi, assim na vida dos povos, havendo até uma norma para designar os espirros de acordo com os dias da semana como se vê: "Espirrar na segunda-feira, perigo sem falta; espirrar na terça-feira, por estranho é beijada; espirrar na quarta-feira, espere carta; espirrar na quinta-feira, melhor será seu fado; espirrar na sexta-feira, espirra para chorar; espirrar no sábado, o namoro vai chegar; espirrar no domingo, procure segurança ou o diabo toma conta de toda semana".

A significação mais original que encontrei para o ato de espirrar é a que diz ser um estratagema da alma para escapar do corpo.

O povo para tudo tem uma explicação especial, e o espirro mereceu a sua parte, como vemos cheia de surpresas.

 

(César, Getúlio. "Espirro". Diário de Pernambuco. Recife 23 de setembro de 1956)
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