Ao estudioso do nosso folclore interessará o registro fiel das manifestações tradicionais. Sejam quais forem. Não importa sejam boas ou más suas finalidades. Interessará a realidade, anônima e palpitante na memória popular, atravessando os anos e os séculos.
Colecionando parlendas em Natal, encontro uma que se refere exclusivamente à maneira dos meninos pedirem cigarro, uns aos outros. Diz o filante ao companheiro:
— Adão foi feito de barro
Colega, me dá um cigarro
E a resposta negativa é sempre pronta e elegante:
— De barro foi feito Adão
Colega, não tenho não
João Ribeiro anotou uma versão sergipana:
"Adão foi feito de barro
O amigo dá-me um cigarro?
Respondem:
— Adão foi feito de barro
E foi nosso pai primeiro
Quem quiser fumar cigarro
Vá comprar com o seu dinheiro"
Afonso A. de Freitas consigna uma variante paulista, acrescida de dois versos:
"Há três dias que não como
Há quatro que não escarro
Adão foi feito de barro
Amigo, dá-me um cigarro"
E a resposta é a mesma:
"De barro foi feito Adão
Amigo, não tenho não"
Pereira da Costa também anotou idêntico pedido de cigarro. Vejam a resposta:
"Me perdoe o nobre amigo
Se o cigarro não lhe dou
O petrecho que eu trazia
Caiu n'água e se molhou"
Meu pai, batendo papo uma noite, relembrou uns versos curiosos, que aprendera no sertão, quando menino:
Adão foi feito de barro
Eva, porém, foi de osso
Camarão mora no poço
No mar mora o chicharro
Se gosta o médico do carro
Se agarra a ostra ao rochedo
Do gado, o rato tem medo
Foge o cordeiro do lobo
O ébrio serve de bobo
Vadio só quer brinquedo
Com efeito, não há relação de qualquer espécie entre a cópia citada e a parlenda para pedir cigarro, a não ser a repetição do primeiro verso.
Há fórmulas clássicas, usadas entre os meninos, para filar cigarros. Em Natal e no Rio de Janeiro ouvi muitas vezes esta, que o homem do povo também a utiliza:
— Tem um irmão desse aí?
Afonso A. de Freitas registrou esta rima infantil em São Paulo, que nos parece uma recusa formal, diante da insistência de algum filante inveterado:
"Cigarro é fita
Quem não tem
Não pita"
Os filantes de cigarro gostam de dizer entre si, quando são interrogados sobre a marca que preferem:
— Se-me-dão.
No Nordeste há um termo de gíria para designar pontas de cigarros: bagana. Baganeiro é o menino, ou o homem, que só fuma bagana, pontas de cigarros encontradas nas ruas.