Quem teria a pachorra de reunir a série de expressões vulgarizadas pelo comparecimento da cabra e do bode à nossa fala nordestina? Cabra, aqui, é filho de mulato e negro, cangaceiro, mulher de mau gênio. Cabra-laranja, mulato sarará; cabra-macho, homem valente; cabra-da-peste, o aventureiro; cabra-safado, o desprezível; cabra-frouxo ou mofino, o covarde; cabra-besta, o imbecil, orgulhoso sem motivo; cabra-mole, o sem iniciativa, preguiçoso; cabra escovado, o experiente, o sabido; cabrão, o que tolera as traições da mulher. Cabra-cega, o jogo infantil; chifre de cabra, coisa ou pessoa insignificante. Ser metido a rabo de cabra é ser metido a coisa; cabrinha é um jogo popular com dados; pé-de-cabra, instrumento de arrombadores; olho-de-cabra-morta, pessoa de olhar terno; cabroeira, grupo de cabras safados.
E o adagiário? Não há doce ruim, nem cabra bom; Quem cabras não tem e cabritos vende de onde lhe vem? Cabra manca morro abaixo faz viagem; O bom cabrito não berra; A cabra da minha vizinha dá mais leite do que a minha.
O bode não fica atrás nessa corrida sobre o vocabulário. É valete de baralho; novo seria almoço de trabalhador rural, servido no campo; alteração, encrenca, sangangu. O indivíduo afônico chamamos de bode rouco; o maçom, de bode preto; a pessoa a quem se atribui sempre a responsabilidade por insucessos, de bode expiatório.
O que dizemos de quem se comporta mal, de quem se mete em aventuras e bagunças? Pinta o bode. E de um trabalho bem feito, sem deslize? Certo que só beiço de bode — Sem vergonha que só bode criado em casa, diz de pessoa sem contenção e pudor; Quem menos pode é quem paga o bode, sobre a dificuldades dos mais fracos. Bode quando não salta, berra: o indivíduo revela-se de qualquer modo.
O caprino surge ainda em defesa do bigode: Homem tem bigode, quem tem cavanhaque é bode. Eis um dito de valentões e mulherengos: Olhou para mim, olhou para um bode, porque com a minha vida ninguém pode. Botar chapéu de bode significa enganar um homem, fazendo ménage à trois; Bodum, mau-cheiro de gente; Bode, quando espirra, anuncia chuva, os vaticínios dos conversadores de rodas de botica e cartório nas cidadezinhas do interior.
É este a comunicante, só mais um exemplo do expansionismo caprino. Mas o bode expande-se culturalmente e definha economicamente. Precisamos restituir-lhe a valides. Precisamos retomar o ciclo civilizado do bode.