Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Agosto 2005 - nº 81 - Ano VII


Sumário

Festança

Aspectos da festa de Bom Jesus da Lapa
Osvaldo de Souza

A festa de São Roque em Paquetá
Marisa Lira

Jardineira, arco de flores ou balainhas

Cancioneiro

O romance do conde de Alemanha
Téo Brandão

Tipos populares do Recife
Eustórgio Vanderlei

As letras do abecedário

Imaginário

O Filho da Burra

O quibungo

A camisa do homem feliz
Figueiredo Pimentel

Colher de Pau

Frutos, caça e pesca do Brasil
José de Santa Rita Durão

Os rituais da farinha de mandioca
A. Seixas Neto

Complexo da mandioca
Gastão Cruls

Oficina

A semana do vadio e a do trabalhador
Gustavo Barroso

A rede
Múcio Leão

Caprinocultura
Mauro Mota

Palhoça

Adão foi feito de barro

Em plena era atômica, estátua de jumento vai subir ao pedestal

Funcionário malandro
Oscar Nonato Chaves

Panacéia

Espirro
Getúlio César

Para curar embriaguez: urubu

Fatos e crendices sobre o raio
Ângelo Pais de Camargo

Veja o que foi publicado em Oficina
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Simplicitate Design

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Oficina
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A rede

Múcio Leão

A nossa venerável rede já aparece no primeiro documento relativo ao Brasil. Lá está na carta de Pero Vaz de Caminha. Vão os conquistadores brancos visitar a aldeia dos índios, e eis como Caminha a descreve: "Segundo eles diziam, foram bem uma légua e meia a uma povoação de casas, em que haveria nove ou dez casas, as quais diziam que eram tão compridas cada uma como esta nau capitânia; e eram de madeira, e de ilhargas de tábuas, e cobertas de palha de razoada altura, e todas em uma só casa, sem nenhum repartimento; tinham de dentro muitos esteios e de esteio a esteio uma rede atada pelos cabos em cada esteio, altas, em que dormiam; e debaixo, para se agüentarem, faziam seus fogos."

Objeto de uso imprescindível para o índio, foi logo a rede um objeto também imprescindível para o branco, que tão bem procura assimilar tantos hábitos dos selvagens. Em São Paulo, por exemplo, a difusão da rede foi imensa. Todo mundo só dormia em rede. Sérgio Buarque de Holanda alude a uma determinada cama que existia em São Paulo no século XVIII: a de Gonçalo Pires. Mas acrescenta: "Em verdade, não era essa cama a única existente na época em São Paulo. Existia ainda a de Gaspar Cunha e de sua mulher Isabel Sobrinha."

Como em São Paulo, a rede é, no Nordeste, um elemento insubstituível de vida. Segundo Gardner, a rede é, à noite, a cama preferida por ser muito fresca — o que ele, que durante três anos não dormiu em outra coisa, pôde atestar; e é durante o dia, o substituto da cadeira ou do sofá...

* * *

Dormida de índios, a rede passa, com efeito, a ser dormida de brancos. E como os brancos a ela se adaptam, como a amam, como a adoram! Há, nesse sentido, um depoimento muito curioso — o do padre Rui Pereira, o amabilíssimo jesuíta, aquele doce homem para o qual o Brasil era o paraíso na terra. Ele expressava a sua infinita felicidade de viver no Brasil e meditava: "Dir-me-ão; que vida pode ter um homem dormindo em uma rede, pendurado no ar como rédea de uvas? Digo que é isto cá tão grande coisa que, tendo eu cama de colchões, e aconselhando-me o médico que dormisse na rede, a achei tal que nunca mais pude ver cama, nem descansar noite que nela não dormisse, em comparação do descanso que nas redes acho."

Ainda hoje será assim. Se o Nordeste, em geral, adotou a cama como um móvel de uso constante — nem por isso baniu a rede. E há regiões nordestinas, sobretudo no interior, em que a rede continua a ser durante a noite a cama em que se dorme e durante o dia o sofá ou a cadeira em que se repousa.

* * *

Além do lugar de dormir a rede era também, veículo de transporte. Ainda hoje, no interior será usada — ora para transporte de enfermos ou até de mortes, como a vimos pessoalmente tanta vez, em localidades pernambucanas; ora para conduzir pessoas importantes, que não desejam cansar os pés.

Koster, que tanto se divertiu com as coisas brasileiras, conta um episódio curioso, ligado a rede como meio de transporte. Achava-se ele enfermo no engenho, e tendo de ir para o Recife, teve de recorrer a uma rede, que era conduzida por negros. Ao atravessarem Olinda, uma preta perguntou se ali ia algum morto. Respondeu um dos carregadores: "Não é um morto que levamos aqui: é o diabo, que vai dentro da rede." Depois voltou-se para Koster e perguntou "Não é mesmo patrão?" Ao que Koster respondeu: "É, sim". A boa mulher continuou seu caminho, benzendo-se e excomungando "Ave Maria! Deus vos defenda!"

Motivo de constante saudade para os nortistas ou nordestinos que emigram para o Sul, para os sulistas que saíram do país, a rede é uma constante fonte de inspiração do brasileiro.

(Leão, Múcio. "A rede". [Não foi possível identificar a referência bibliográfica completa deste artigo])
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