Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
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A rede

Múcio Leão

A nossa venerável rede já aparece no primeiro documento relativo ao Brasil. Lá está na carta de Pero Vaz de Caminha. Vão os conquistadores brancos visitar a aldeia dos índios, e eis como Caminha a descreve: "Segundo eles diziam, foram bem uma légua e meia a uma povoação de casas, em que haveria nove ou dez casas, as quais diziam que eram tão compridas cada uma como esta nau capitânia; e eram de madeira, e de ilhargas de tábuas, e cobertas de palha de razoada altura, e todas em uma só casa, sem nenhum repartimento; tinham de dentro muitos esteios e de esteio a esteio uma rede atada pelos cabos em cada esteio, altas, em que dormiam; e debaixo, para se agüentarem, faziam seus fogos."

Objeto de uso imprescindível para o índio, foi logo a rede um objeto também imprescindível para o branco, que tão bem procura assimilar tantos hábitos dos selvagens. Em São Paulo, por exemplo, a difusão da rede foi imensa. Todo mundo só dormia em rede. Sérgio Buarque de Holanda alude a uma determinada cama que existia em São Paulo no século XVIII: a de Gonçalo Pires. Mas acrescenta: "Em verdade, não era essa cama a única existente na época em São Paulo. Existia ainda a de Gaspar Cunha e de sua mulher Isabel Sobrinha."

Como em São Paulo, a rede é, no Nordeste, um elemento insubstituível de vida. Segundo Gardner, a rede é, à noite, a cama preferida por ser muito fresca — o que ele, que durante três anos não dormiu em outra coisa, pôde atestar; e é durante o dia, o substituto da cadeira ou do sofá...

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Dormida de índios, a rede passa, com efeito, a ser dormida de brancos. E como os brancos a ela se adaptam, como a amam, como a adoram! Há, nesse sentido, um depoimento muito curioso — o do padre Rui Pereira, o amabilíssimo jesuíta, aquele doce homem para o qual o Brasil era o paraíso na terra. Ele expressava a sua infinita felicidade de viver no Brasil e meditava: "Dir-me-ão; que vida pode ter um homem dormindo em uma rede, pendurado no ar como rédea de uvas? Digo que é isto cá tão grande coisa que, tendo eu cama de colchões, e aconselhando-me o médico que dormisse na rede, a achei tal que nunca mais pude ver cama, nem descansar noite que nela não dormisse, em comparação do descanso que nas redes acho."

Ainda hoje será assim. Se o Nordeste, em geral, adotou a cama como um móvel de uso constante — nem por isso baniu a rede. E há regiões nordestinas, sobretudo no interior, em que a rede continua a ser durante a noite a cama em que se dorme e durante o dia o sofá ou a cadeira em que se repousa.

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Além do lugar de dormir a rede era também, veículo de transporte. Ainda hoje, no interior será usada — ora para transporte de enfermos ou até de mortes, como a vimos pessoalmente tanta vez, em localidades pernambucanas; ora para conduzir pessoas importantes, que não desejam cansar os pés.

Koster, que tanto se divertiu com as coisas brasileiras, conta um episódio curioso, ligado a rede como meio de transporte. Achava-se ele enfermo no engenho, e tendo de ir para o Recife, teve de recorrer a uma rede, que era conduzida por negros. Ao atravessarem Olinda, uma preta perguntou se ali ia algum morto. Respondeu um dos carregadores: "Não é um morto que levamos aqui: é o diabo, que vai dentro da rede." Depois voltou-se para Koster e perguntou "Não é mesmo patrão?" Ao que Koster respondeu: "É, sim". A boa mulher continuou seu caminho, benzendo-se e excomungando "Ave Maria! Deus vos defenda!"

Motivo de constante saudade para os nortistas ou nordestinos que emigram para o Sul, para os sulistas que saíram do país, a rede é uma constante fonte de inspiração do brasileiro.

 

(Leão, Múcio. "A rede". [Não foi possível identificar a referência bibliográfica completa deste artigo])
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