Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Agosto 2005 - nº 81 - Ano VII


Sumário

Festança

Aspectos da festa de Bom Jesus da Lapa
Osvaldo de Souza

A festa de São Roque em Paquetá
Marisa Lira

Jardineira, arco de flores ou balainhas

Cancioneiro

O romance do conde de Alemanha
Téo Brandão

Tipos populares do Recife
Eustórgio Vanderlei

As letras do abecedário

Imaginário

O Filho da Burra

O quibungo

A camisa do homem feliz
Figueiredo Pimentel

Colher de Pau

Frutos, caça e pesca do Brasil
José de Santa Rita Durão

Os rituais da farinha de mandioca
A. Seixas Neto

Complexo da mandioca
Gastão Cruls

Oficina

A semana do vadio e a do trabalhador
Gustavo Barroso

A rede
Múcio Leão

Caprinocultura
Mauro Mota

Palhoça

Adão foi feito de barro

Em plena era atômica, estátua de jumento vai subir ao pedestal

Funcionário malandro
Oscar Nonato Chaves

Panacéia

Espirro
Getúlio César

Para curar embriaguez: urubu

Fatos e crendices sobre o raio
Ângelo Pais de Camargo

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Simplicitate Design

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Imaginário
Textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

O quibungo

Das várias coleções de livros publicados pelas Edições Melhoramentos tem lugar de destaque a tradicional Biblioteca infantil. Assim é, este conto, bem como aqueles que iremos publicar nos próximos números da página infantil, foram extraídos do livro Histórias do pai João, de autoria de Renato Sêneca Fleury (Biblioteca infantil, nº 67)

 

Muita gente nunca ouviu falar no quibungo, mas antigamente os supersticiosos diziam que ele existia e era um bicho muito esquisito.

Os velhos escravos, jurando muitas vezes que já tinham visto o quibungo, assim o descreviam: é um bicho meio homem, meio animal; tem uma cabeça enorme e um grande buraco bem no meio das costas. Esse buraco se abre quando o quibungo abaixa a cabeça e se fecha quando a levanta:

— E que fazia o quibungo?

— Que fazia? Pois fazia muita malvadeza, carregando as crianças que encontrava no seu caminho.

Ao ouvir de pai João, essas palavras as crianças que o rodeavam puseram-se a rir, não acreditando em nada do que ele estava contando.

— Pois não é mesmo para nhonhozinho acreditar... Isso tudo é brincadeira de negro velho, para ir matando o tempo...

— Conte, pai João, conte a história do quibungo, pediram as crianças. Conte só mais essa!

Pai João começou a contar a história que ele ouvira, quando criança, de seus pais, lá bem longe na sua terra, sob o teto de uma palhoça... Terra que ele nunca mais pudera ver; palhoça que lhe vinha à lembrança vagamente, entre sombras de palmeiras...

— E seus pais?

— Deus levou...

De olhos muito baços, úmidos sempre, com a voz trêmula e arrastada, Pai João foi contando:

— Quibungo, bicho danado, carrega as crianças! Abaixa a cabeça, abrindo o buraco das costas e dentro vai jogando as que pode pegar...

Pois um dia, um homem que tinha três filhos saiu de casa para ir trabalhar.

Em casa ficaram os três filhos e a mulher.

Ficaram muito sossegados, os meninos brincando, a mãe cuidando da comida.

Mas o quibungo andava ali por perto, rondando a casa, à espera da hora em que pudesse chegar sem perigo e carregar os três meninos.

Mal viu sair o dono da casa e percebeu que as crianças se distraíam com seus brinquedos e a mulher cuidava do serviço, foi se chegando até à porta e perguntou, cantando:

— De quem é esta casa, auê
Como gerê, como gerê, como erá?

Ouvindo aquele canto tão feio, a mulher logo percebeu que era o quibungo. Então, com muito medo, ela fez o que era preciso. Respondeu ao bicho também cantando:

— A casa é de meu marido, auê
Como gerê, como gerê, como erá?

A resposta agradou ao quibungo, que perguntou:

— De quem são esses meninos, auê
Como gerê, como gerê, como erá?

A mulher respondeu, a tremer de susto:

— Estes meninos são meus filhos, auê
Como gerê, como gerê, como erá?

Sempre cantando, o quibungo disse que queria carregar os três meninos.

Era inútil à mulher tentar resistir, porque ninguém podia com o bicho.

Então ela, também cantando, mas com lágrimas nos olhos, pelo amor dos filhos repondeu que o quibungo podia levá-los...

Mais que depressa ele abaixou a cabeça, abrindo o buraco das costas, onde jogou os três meninos, que desapareceram no mesmo instante. Levantou em seguida a cabeça e o buraco se fechou.

Então o quibungo perguntou de quem era a mulher.

Prevendo seu triste fim, ela respondeu que era de seu marido, e o quibungo resolveu carregá-la também.

Mas na hora em que avançou para a mulher, chegou o dono da casa, com uma espingarda, arma de que o quibungo tem medo como ninguém.

Vendo o homem armado e pronto para dar-lhe um tiro, o quibungo não sabia como fugir. Correu para um canto da casa, a ver se podia sair pela porta do fundo. Mas não havia outra porta, nem janelas, porque a casa só tinha a porta da frente.

Vendo-se perdido, o quibungo cantou:

— Arrenego desta casa, auê
Que tem uma porta só, auê
Como gerê, como gerê, como erá...

O dono da casa não quis saber de cantigas com o quibungo.

Ficou em pé no meio da porta, para que o bicho não pudesse fugir. Com toda a calma, apontou a espingarda bem na cabeça do quibungo, que nem se mexia de tanto medo. E contou: um, dois e... três!

O tiro foi tão forte que a palhoça tremeu.

O quibungo nem teve tempo de soltar um gemido.

Então, o homem, com um facão, abriu o buraco das costas do quibungo, salvando a mulher e os três filhos.

Entrou por uma porta e saiu por um canivete; mandou o rei, meu senhor, que conte sete.

("O quibungo". Correio Paulistano. São Paulo, 04 de maio de 1952)
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