Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

Aspectos da festa de Bom Jesus da Lapa

Osvaldo de Souza

A cidade de Bom Jesus da Lapa, inerte nas outras épocas do ano, é invadida por uma multidão de romeiros por ocasião da festa do padroeiro, nos primeiros dias de agosto.

É incrível a influência que o santuário da Lapa exerce sobre o espírito ingênuo daquela gente!

Milhares de peregrinos, valendo-se de todos os meios de condução existentes na região, acorrem à Lapa, atraídos pela fama do grande taumaturgo do São Francisco. O romeiro enfrenta todos os sacrifícios, viajando às vezes, centenas de quilômetros a pé, para cumprir uma promessa ou trazido pela esperança de uma cura milagrosa para as suas mazelas.

Os modestos hotéis, pensões e casas para romeiros transbordam de gente que vem de todos os lados do sertão. O povo se abriga até nas grutas existentes nos arredores da cidade, numa promiscuidade e falta de higiene impressionantes.

Há um verdadeiro fanatismo entre os devotos; e, sobretudo, muita miséria e exploração.

Mendigos das paragens mais distantes invadem a cidade;  cegos, aleijados, doentes de toda natureza, amontoados dos dois lados da rua que conduz à gruta-santuário, estendem as mãos à caridade pública.

A mendicância é naqueles dias uma indústria rendosa... Há indivíduos que se fingem cegos para explorar a piedade dos romeiros... Intermináveis cantorias ecoam por todos os lados; são as melopéias plangentes dos pedintes. Até crianças são iniciadas nesse mister, como as que aparecem na foto abaixo, apanhada no largo que defronta a igreja.

Certa vez, passando por uma esquina, me despertou atenção a cantiga lastimosa de uma mendiga. Não devia ter mais de 25 anos e procedia de longínquo lugarejo do sertão cearense. Acocorada à beira da calçada, enrolada nuns trapos, cantava uma sextilha com a seguinte melodia:

Ó moço, eu não sou daqui
Nem filha desse lugar
Sou duma terra tão longe
Do estado do Ceará
Patrão, me dê uma esmola
Que é pra Deus lhe ajudar

Terminada a festa, dias depois encontrei a mesma "mendiga", cheia de saúde, toda janota e feliz num vestido novo, passeando pelas ruas da cidade... À entrada da gruta foi construído um pórtico de alvenaria que dá acesso ao santuário; o sertanejo penetra na caverna sagrada com a mais fervorosa religiosidade.

A entrada dos romeiros no santuário é sempre precedida pelo espocar do foguetório. Os fiéis rojam-se ao chão e de joelhos, em êxtase, sorridentes e felizes, rastejam até o altar-mor.

Em uma das muitas barracas armadas na praça principal, junto com rosários, escapulários e medalhas do Bom Jesus, encontrei um folheto intitulado: Romaria ao Bom Jesus da Lapa (terceira edição), composição de um romeiro que a gente logo vê que sabia ler. Em quadrinhas ele faz um relato das peripécias da viagem, da via-crucis das longas caminhadas e dolorosas privações. Em certo momento, com ardente fé, incita os companheiros de viagem, dizendo:

Oh, companheiros de viagem!
Algo na estrada sofremos
Mas só vendo o Bom Jesus
Alegres nos sentiremos

Depois de referir-se ao cumprimento das promessas o romeiro-poeta improvisa esta quadrinha alusiva àquele ato:

Senhor Bom Jesus da Lapa
Eu já vou me levantar
Cumprindo minhas promessas
Já posso alegre voltar

Em seguida nos descreve a gruta sagrada, da forma seguinte:

Senhor Bom Jesus da Lapa
Agora deixai reparar
Nas belezas desta gruta
Para aos amigos contar
A gruta tem cinco covas
Interessantes e belas
Vosso corpo cinco chagas
O Cruzeiro cinco estrelas
Chamam: cova da Serpente
A que está perto da pia
Dos Milagres, Onça e Monge
E a nova Sacristia
Na gruta, aberta na pedra
Tudo é de pedra, bem feito!
Assentos, pias, altares...
Tem até um sino perfeito

(O "sino perfeito" é uma pedra que, percutida, soa surdamente como um sino. Cada uma daquelas furnas tem a sua história entremeada de lendas fantásticas, que infelizmente não me foi possível registrar).

Depois da visitação demorada à gruta dos Milagres, — verdadeiro museu da fé, — e da escalada obrigatória ao Cruzeiro, no topo do morro sagrado, o romeiro despede-se do santo milagreiro. O popular trovador do folheto, contagiado pela emoção coletiva dos que partiam, compôs intermináveis quadrinhas repassadas de ternura e sentimentalismo religioso, como estas três que destaco:

Senhor Bom Jesus da Lapa
Deitai-me a vossa bênção
Que já quero ir-me embora
Mas deixando o coração
Ao chegar a hora do adeus
Dá vontade de chorar
Mas me consolo pensando
Que outro ano hei de voltar
Senhor Bom Jesus da Lapa
Quero vos tornar a ver
Que seja depois de morto
Se em vida não pode ser

Encerrada a festa, há o êxodo dos romeiros. A cidade da Lapa se despovoa rapidamente e tudo volta à letargia habitual.

Pelas estradas ensolaradas a multidão de peregrinos desfila, enfrentando novamente a fadiga das longas caminhadas de retorno, feliz porque volta com a fé fortalecida. E por isso canta assim o romeiro-poeta:

Nesta gruta é grande
E digno de admiração
O ateu aqui se converte
E se afervora o cristão

 

(Souza, Osvaldo de. "Aspectos da festa de Bom Jesus da Lapa". O Estado de São Paulo, 29 de março de 1953)
Índice | Pesquisa | Central do Leitor | Expediente | Contato | Mapa do site | Termos e condições de uso

Jangada Brasil © 1998-2005