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Agosto 2005 - nº 81 - Ano VII


Sumário

Festança

Aspectos da festa de Bom Jesus da Lapa
Osvaldo de Souza

A festa de São Roque em Paquetá
Marisa Lira

Jardineira, arco de flores ou balainhas

Cancioneiro

O romance do conde de Alemanha
Téo Brandão

Tipos populares do Recife
Eustórgio Vanderlei

As letras do abecedário

Imaginário

O Filho da Burra

O quibungo

A camisa do homem feliz
Figueiredo Pimentel

Colher de Pau

Frutos, caça e pesca do Brasil
José de Santa Rita Durão

Os rituais da farinha de mandioca
A. Seixas Neto

Complexo da mandioca
Gastão Cruls

Oficina

A semana do vadio e a do trabalhador
Gustavo Barroso

A rede
Múcio Leão

Caprinocultura
Mauro Mota

Palhoça

Adão foi feito de barro

Em plena era atômica, estátua de jumento vai subir ao pedestal

Funcionário malandro
Oscar Nonato Chaves

Panacéia

Espirro
Getúlio César

Para curar embriaguez: urubu

Fatos e crendices sobre o raio
Ângelo Pais de Camargo

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Simplicitate Design

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Festança
Textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

Aspectos da festa de Bom Jesus da Lapa

Osvaldo de Souza

A cidade de Bom Jesus da Lapa, inerte nas outras épocas do ano, é invadida por uma multidão de romeiros por ocasião da festa do padroeiro, nos primeiros dias de agosto.

É incrível a influência que o santuário da Lapa exerce sobre o espírito ingênuo daquela gente!

Milhares de peregrinos, valendo-se de todos os meios de condução existentes na região, acorrem à Lapa, atraídos pela fama do grande taumaturgo do São Francisco. O romeiro enfrenta todos os sacrifícios, viajando às vezes, centenas de quilômetros a pé, para cumprir uma promessa ou trazido pela esperança de uma cura milagrosa para as suas mazelas.

Os modestos hotéis, pensões e casas para romeiros transbordam de gente que vem de todos os lados do sertão. O povo se abriga até nas grutas existentes nos arredores da cidade, numa promiscuidade e falta de higiene impressionantes.

Há um verdadeiro fanatismo entre os devotos; e, sobretudo, muita miséria e exploração.

Mendigos das paragens mais distantes invadem a cidade;  cegos, aleijados, doentes de toda natureza, amontoados dos dois lados da rua que conduz à gruta-santuário, estendem as mãos à caridade pública.

A mendicância é naqueles dias uma indústria rendosa... Há indivíduos que se fingem cegos para explorar a piedade dos romeiros... Intermináveis cantorias ecoam por todos os lados; são as melopéias plangentes dos pedintes. Até crianças são iniciadas nesse mister, como as que aparecem na foto abaixo, apanhada no largo que defronta a igreja.

Certa vez, passando por uma esquina, me despertou atenção a cantiga lastimosa de uma mendiga. Não devia ter mais de 25 anos e procedia de longínquo lugarejo do sertão cearense. Acocorada à beira da calçada, enrolada nuns trapos, cantava uma sextilha com a seguinte melodia:

Ó moço, eu não sou daqui
Nem filha desse lugar
Sou duma terra tão longe
Do estado do Ceará
Patrão, me dê uma esmola
Que é pra Deus lhe ajudar

Terminada a festa, dias depois encontrei a mesma "mendiga", cheia de saúde, toda janota e feliz num vestido novo, passeando pelas ruas da cidade... À entrada da gruta foi construído um pórtico de alvenaria que dá acesso ao santuário; o sertanejo penetra na caverna sagrada com a mais fervorosa religiosidade.

A entrada dos romeiros no santuário é sempre precedida pelo espocar do foguetório. Os fiéis rojam-se ao chão e de joelhos, em êxtase, sorridentes e felizes, rastejam até o altar-mor.

Em uma das muitas barracas armadas na praça principal, junto com rosários, escapulários e medalhas do Bom Jesus, encontrei um folheto intitulado: Romaria ao Bom Jesus da Lapa (terceira edição), composição de um romeiro que a gente logo vê que sabia ler. Em quadrinhas ele faz um relato das peripécias da viagem, da via-crucis das longas caminhadas e dolorosas privações. Em certo momento, com ardente fé, incita os companheiros de viagem, dizendo:

Oh, companheiros de viagem!
Algo na estrada sofremos
Mas só vendo o Bom Jesus
Alegres nos sentiremos

Depois de referir-se ao cumprimento das promessas o romeiro-poeta improvisa esta quadrinha alusiva àquele ato:

Senhor Bom Jesus da Lapa
Eu já vou me levantar
Cumprindo minhas promessas
Já posso alegre voltar

Em seguida nos descreve a gruta sagrada, da forma seguinte:

Senhor Bom Jesus da Lapa
Agora deixai reparar
Nas belezas desta gruta
Para aos amigos contar
A gruta tem cinco covas
Interessantes e belas
Vosso corpo cinco chagas
O Cruzeiro cinco estrelas
Chamam: cova da Serpente
A que está perto da pia
Dos Milagres, Onça e Monge
E a nova Sacristia
Na gruta, aberta na pedra
Tudo é de pedra, bem feito!
Assentos, pias, altares...
Tem até um sino perfeito

(O "sino perfeito" é uma pedra que, percutida, soa surdamente como um sino. Cada uma daquelas furnas tem a sua história entremeada de lendas fantásticas, que infelizmente não me foi possível registrar).

Depois da visitação demorada à gruta dos Milagres, — verdadeiro museu da fé, — e da escalada obrigatória ao Cruzeiro, no topo do morro sagrado, o romeiro despede-se do santo milagreiro. O popular trovador do folheto, contagiado pela emoção coletiva dos que partiam, compôs intermináveis quadrinhas repassadas de ternura e sentimentalismo religioso, como estas três que destaco:

Senhor Bom Jesus da Lapa
Deitai-me a vossa bênção
Que já quero ir-me embora
Mas deixando o coração
Ao chegar a hora do adeus
Dá vontade de chorar
Mas me consolo pensando
Que outro ano hei de voltar
Senhor Bom Jesus da Lapa
Quero vos tornar a ver
Que seja depois de morto
Se em vida não pode ser

Encerrada a festa, há o êxodo dos romeiros. A cidade da Lapa se despovoa rapidamente e tudo volta à letargia habitual.

Pelas estradas ensolaradas a multidão de peregrinos desfila, enfrentando novamente a fadiga das longas caminhadas de retorno, feliz porque volta com a fé fortalecida. E por isso canta assim o romeiro-poeta:

Nesta gruta é grande
E digno de admiração
O ateu aqui se converte
E se afervora o cristão

(Souza, Osvaldo de. "Aspectos da festa de Bom Jesus da Lapa". O Estado de São Paulo, 29 de março de 1953)
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