Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Agosto 2005 - nº 81 - Ano VII


Sumário

Festança

Aspectos da festa de Bom Jesus da Lapa
Osvaldo de Souza

A festa de São Roque em Paquetá
Marisa Lira

Jardineira, arco de flores ou balainhas

Cancioneiro

O romance do conde de Alemanha
Téo Brandão

Tipos populares do Recife
Eustórgio Vanderlei

As letras do abecedário

Imaginário

O Filho da Burra

O quibungo

A camisa do homem feliz
Figueiredo Pimentel

Colher de Pau

Frutos, caça e pesca do Brasil
José de Santa Rita Durão

Os rituais da farinha de mandioca
A. Seixas Neto

Complexo da mandioca
Gastão Cruls

Oficina

A semana do vadio e a do trabalhador
Gustavo Barroso

A rede
Múcio Leão

Caprinocultura
Mauro Mota

Palhoça

Adão foi feito de barro

Em plena era atômica, estátua de jumento vai subir ao pedestal

Funcionário malandro
Oscar Nonato Chaves

Panacéia

Espirro
Getúlio César

Para curar embriaguez: urubu

Fatos e crendices sobre o raio
Ângelo Pais de Camargo

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Apoio Cultural
Simplicitate Design

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Colher de Pau
Textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...

Complexo da mandioca

Gastão Cruls

Já houve quem observasse que o homem branco, nestes quatrocentos e tantos anos decorridos após a sua instalação no Novo Mundo, jamais descobriu, na flora americana, uma só planta útil, pois que o conhecimento de todas aquelas — e são inúmeras — de que se tem aproveitado até agora para fins alimentares, medicamentosos ou industriais lhe veio sempre através do indígena.

Assim aconteceu com o milho, a mandioca, o cacau, a batata, a coca, a quina, a ipeca e a borracha, para só citarmos aquelas de maior importância e cujo uso teve repercussão universal. De algumas, então, como o milho e a mandioca-brava, o civilizado recolheu do ameríndio todo o seu complexo, isto é, conhecimento do melhor terreno e da época mais favorável ao seu plantio, maneira de cultivá-las e multiplicá-las, utilização alimentar das suas sementes ou raízes e utensílios necessários ao preparo dos produtos que as mesmas podem fornecer. Diga-se que no caso da mandioca essas aquisições se acresceram de uma descoberta de valor excepcional: a possibilidade de transformar uma raiz extremamente tóxica numa substância inócua e salutar. Ignora-se ainda como os índios teriam chegado a esse resultado, mas o fato é que eles já estavam perfeitamente senhores da técnica que, por meio da extração do seu suco leitoso e rico de ácido cianídrico, torna inofensivo o tubérculo da Euforbiácea.

Se os povos primitivos sempre se aproveitaram do reino vegetal para a obtenção de tóxicos que seriam empregados nas suas armas de guerra e de caça e também para os seus ordálios, foge è regra que de determinada planta apenas se extraísse o veneno visando torná-la comestível. Daí o pensar-se que o suco letal da mandioca tivesse tido também qualquer utilidade para os índios que, ao procurá-lo, dessa ou daquela maneira, provavelmente pelo esmagamento e expressão das raízes, teriam então verificado que a massa, quando dele expurgada, perde a sua nocividade. Mas isso são apenas conjeturas, pois quando os europeus aqui aportaram, já o suco da mandioca não tinha qualquer serventia como tóxico, a não ser talvez, mas isso mesmo muito raramente, para atonar o peixe, à maneira do timbó, conforme uma referência de Martius. Ao contrário, o próprio leite da mandioca, depois de fervido, era também aproveitado pelos índios que o faziam, temperado com bastante pimenta, o caldo principal das suas paneladas de carne e peixe. E é esse o mesmo tucupi ainda hoje tão apreciado na Amazônia.

Hesita-se ainda em precisar qual teria sido, no Novo Continente, o habitat inicial da mandioca. Querem alguns autores que ela seja oriunda da América Central, e que daí é que se tenha divulgado o seu conhecimento pelo Hemisfério Ocidental. Nordeskiöld, entretanto, dá-lhe por berço a Amazônia tropical, onde, segundo outros, os aruaques teriam sido, senão os seus primeiros cultivadores, pelo menos os seus grandes disseminadores. Aruaque, que parece significar comedor de farinha, seria até, segundo Chamberlain, um nome pejorativo dado pelas outras tribos a índios que se chamavam primitivamente Loconô ou Lucunu.

Mas tenha nascido aqui ou ali, o fato é que, sob a floresta da nossa hiléia, a mandioca foi sempre o alimento básico do ameríndio, que não a dispensava nas suas roças e lhe aperfeiçoou o complexo, criando alguns utensílios de grande utilidade para a sua manipulação, como o tipiti, o ralador e o abano de palha.

Antes, porém, de nos determos mais particularmente sobre este complexo, (...) acentuemos o extraordinário alcance que tiveram para o ameríndio as culturas do milho e da mandioca. Por meio delas, hordas que seriam até então errantes, pois dependiam da caça e da pesca, puderam congregar-se, fazendo vida sedentária e desenvolvendo-se em civilizações mais ou menos adiantadas. Todavia, essas conquistas no campo da agricultura parecem datar de época bastante remota, uma vez que até hoje jamais se pôde reconhecer, na flora do Novo Continente, qualquer planta selvagem que pudesse ser tida como o ancestral daqueles utilíssimos vegetais. Quanto à mandioca, valerá talvez ser lembrado que Piso, na sua História naturalis brasiliae, de 1658, descreve e dá a figura de um certo tubérculo, que não é a manihot utilissima e que os índios tadaperias, da costa ao norte do Rio de Janeiro, aproveitavam como alimento. Aliás, a despeito do acolhimento que merecem as informações desse autor, tal planta jamais pôde ser identificada por outrem.

Obedecendo a fatores de ordem climática, na América indígena foi muito maior a difusão do milho do que a da mandioca, cujo uso, na dieta diária do ameríndio, só logrou grande expansão nas regiões tropicais, de solo baixo e úmido, revestido de espessas florestas, e onde a cultura daquele cereal só vingava com dificuldade.

Ao tempo das descobertas, já os indígenas se aproveitavam das duas principais variedades da euforbiácea: a mandioca-doce ou aipim e a mandioca-brava. Apenas e, talvez, ainda, por causa de condições mesológicas, nem todos tinham conhecimento dos dois tipos de tubérculos. Assim, por exemplo, se o oeste da América do Sul só estava familiarizado com a mandioca-doce e o mar dos caraíbas com a mandioca-brava, em outras regiões fazia-se largo consumo das duas plantas.

Precisando mais estes fatos, diz-se que só depois de 1500 foi que o aipim chegou ao Haiti, enquanto, segundo von den Steinen, ainda em fins do século passado, os índios do alto Xingu continuavam a ignorar a sua existência.

A mandioca-doce, de consumo fácil, como o da batata e do cará, ambos também de origem americana e que apenas pedem um cozimento prévio, não tem o interesse da mandioca-brava, que pôs à prova o engenho do índio, levando-o a uma série de descobertas e invenções, até que conseguisse aproveitá-la em vários produtos alimentares.

De início, quando já se fizera a descoberta fundamental de que a mandioca de venenosa se tornava comestível desde que lhe fosse extraído o suco, a operação, realizada para tal fim seria feita por simples expressão manual da massa branca que fora conseguida das raízes depois de descascadas e convenientemente piladas ou raladas. À guisa de ralador e antes que se fabricasse utensílio especial com esse objetivo, usaram-se e ainda se usam em certas tribos primitivas vários produtos naturais que preenchiam a mesma finalidade, como sejam pedras de superfície irregular, pedaços de troncos rugosos ou a raiz espinhenta de certas palmeiras. Mais tarde, e isso parece ser uma invenção amazônica, foi que se fizeram os primeiros raladores artificiais, hoje muito em voga entre os ameríndios mais adiantados, sendo que certas tribos, como a dos tarumãs, na Guiana Inglesa, se tornaram verdadeiramente famosas pela perfeição com que os fabricam. Essas peças, simples pranchas de madeira cujas dimensões variam, mas que raramente têm mais de um metro de comprimento por quarenta centímetros de largura, recebem na sua face superior, ligeiramente côncava, por embutimento direto no pau, uma infinidade de pedrinhas pontiagudas, amiúde dispostas em desenhos regulares e geométricos. A adesão das pedras à madeira é reforçada por espessa camada de pez, que se espalha por toda a superfície do ralador. Por vezes, as pedras são substituídas por dentes de animais ou espinhos de algumas plantas.

Falávamos há pouco nos tarumãs. Conta um viajante recente, não sabemos com que foros de veracidade, mas a quem não parecem faltar conhecimentos mineralógicos que, quando em contato com aqueles índios, pôde examinar muitos dos tais raladores fabricados pelos mesmos, e em todos encontrou, entre as pedrinhas que lhes eriçavam a superfície, um grande número de diamantes do mais puro quilate.

Mas tornemos à expressão da massa da mandioca, depois que já se acha ralada. Para isto, o índio amazônico também engendrou um instrumento bem interessante. Trata-se de um longo cilindro de palha, oco e elástico, arrematado por duas alças nas suas extremidades, e que tem apenas uma abertura na parte superior, por onde é ele cheio da polpa farinácea que se deseja expurgar do suco venenoso. Suspenso longitudinalmente por meio da alça superior a qualquer esteio forte, passa-se pela sua alça inferior uma longa haste de pau, que fica disposta transversalmente, e sobre a qual se fará grande força para baixo (às vezes são duas mulheres que se sentam nos seus extremos), de tal modo que se consiga distender o mais possível as paredes do tubo compressor. E destarte, enquanto o cilindro perde em largura o que ganha em comprimento, e a massa é cada vez mais apertada, vai-se escoando, através das malhas do trançado, todo o líquido que se deseja eliminar.

O tipiti tem geralmente uns dois metros de comprimento, por quinze centímetros de diâmetro, e é feito com talas de várias plantas, como as palmeiras jauari ou jacitara, o cipó-imbé ou ambé e o arumã. Além deste tipo de tipiti, que é o mais aperfeiçoado (na Guiana Francesa chamam-lhe de couleuvre devido à sua forma e flexibilidade), haveria outro ainda em uso entre os caiapós e uitotos, aberto em toda a sua extensão e que, manuseado em posição transversal, era apenas torcido por duas pessoas, que pegavam nas suas pontas. Este tipiti, por sua vez, teria sido inspirado num processo operatório ainda mais sumário, como seja o de comprimir e torcer a massa dentro de um simples pedaço de esteira.

Diga-se que em certas tribos, como von den Steinen observou no nordeste mato-grossense, a urupema de crivo fino fazia às vezes do tipiti, que lá ainda não era conhecido. Igual serventia tinha a peneira, entre a maioria dos índios tupi-guaranis. Como já ponderamos, haveria mesmo alguns silvícolas que dispensavam o auxílio de qualquer utensílio para fazer a expressão da massa de mandioca, que era toda executada à mão livre.

Retirada do tipiti, já isenta do seu suco letal, a mandioca está apta a ser transformada em alimento. Este, quase sempre, é preparado sob a forma do beiju, um grande bolo circular, com mais de um metro de diâmetro e dois a três centímetros de espessura. Ao contrário do que acontece ou acontecia em outras regiões do nosso território, inclusive na zona costeira por ocasião da descoberta, os silvícolas da hiléia raramente fabricam farinha. Tanto assim que quando alguns viajantes das Guianas a encontram em uso entre os seus aborígenes, como entre os esmerilhões da possessão francesa e os atoraís, os uapixanas e os tarumãs, da possessão inglesa, dizem logo que se trata de uma influência brasileira — brasileira, já se vê, de muito longe, pois que, como dissemos, o ameríndio amazônico sempre preferiu o beiju.

Para o cozimento dos seus bolos de mandioca o índio se serve de uma laje arredondada, pouco espessa, e de superfície lisa, ou de um grande tacho de barro, também circular e de bordas bem rasas, no que não deixa de lembrar a folha da vitória-régia, uma ou outra coisa descansando sobre um forno adrede preparado ou sobre três suportes também de argila, entre os quais se acende o fogo. Durante essa operação, a índia nunca abandona um abano de palha que lhe serve não só para avivar as chamas, como também parar virar várias vezes o beiju, a fim de que a sua cocção se processe uniformemente.

O beiju, verdadeiro pão dos índios, depois de cozido, é ainda exposto ao sol por várias horas, até que se torne bem seco e duro, mas quebradiço, quando então se conserva por longo tempo.

Certas tribos preferem prepará-lo com a mandioca já fermentada, isto é, imersa previamente na água por alguns dias, o que dá à massa um certo sabor azedo, mas não de todo desagradável.

Servindo-se do beiju os índios conseguem a sua bebida inebriante mais apreciada: o caxiri.. Para isso a torta de mandioca, geralmente mais tostada e mais espessa quando se destina a tal fim, é partida em pedaços que são colocados a fermentar, dentro de grandes vasilhas contendo água. Para que a levedação se processe com mais rapidez, as índias costumam mastigar os pedaços de beiju antes de lançá-los à água, e o conhecimento dessa prática, sem dúvida de valor químico, mas nada higiênica, faz com que os civilizados, quando em visita a alguma tribo, só por muita cortesia e consideração aos seus hospedeiros, se aventurem a participar das libações em comum. É verdade que entre certos silvícolas, essa tarefa de mastigar o beiju está apenas afeta às raparigas adolescente, que ainda têm o cuidado de untar previamente a boca com mel, o que torna menos repulsiva a lembrança dessa operação reputada indispensável ao preparo de um bom caxiri.

Nas Guianas, a bebida que corresponde ao nosso caxiri tem o nome de peiuari, paiuru ou pajuaru, ao passo que aquela designação se aplica a outro licor ebriático feito de milho, batata-doce roxa e um pouco de caldo de cana. Segundo Im Thurn, que o experimentou, esse caxiri, de cor avermelhada, é bastante agradável e sabe a um clarete fraco.

Ainda na região guianense, inclusive a brasileira, mas já nos seus altiplanos, onde predomina a flora campesina e o solo não é muito propício ao desenvolvimento da mandioca, não raro, à sua falta, tanto o beiju como o paiuru são feitos com milho — milho que no caso da bebida fermentada sofre também, por parte das índias, a insalivação preliminar.

Ao descrever esse complexo da mandioca, freqüentemente temos falado em índias e não em índios ocupados nos vários atos operatórios por que passa a raiz até ser transformada em alimento ou bebida. Isto, entretanto, não é de espantar, pois que entre os povos primitivos as tarefas culinárias sempre estiveram entregues às mulheres. Todavia, se fôssemos mais longe, haveríamos de ver que todos os trabalhos agrícolas referentes não só à mandioca como também a outras plantas cultivadas entre os nossos aborígenes, estão na dependência do elemento feminino. Assim, só para ficarmos no campo da euforbiácea, são as mulheres que fazem a sua plantação, abrindo no solo, a cavadeira de pau, os buracos que recebem os estolhos; são elas que fazem as várias capinas da lavoura, enquanto as plantas estão crescendo; são elas, finalmente, que vão arrancar as raízes e as trazem da roça até a maloca, em grande cesto suspenso às costas. Ora, tudo isto, trabalho penosíssimo, pareceu a muita gente que seria encargo mais condizente com as energias do sexo forte, mas de que os índios se esquivam apenas por espírito de pura madraçaria. Razões outras, porém, e bastante aceitáveis, quando lembradas, explicam porque, na América indígena, como já ocorria entre os medas e os persas, a agricultura sempre esteve confiada às mulheres. Em primeiro lugar, entre os povos primitivos, não raro existia a crença de que à mulher, ser fecundo por excelência e que tem por função precípua procriar, é que deve ficar entregue o trabalho da multiplicação das plantas.

Confiado ao homem, qualquer esforço nesse sentido redundância estéril. A respeito dessa convicção, fundamente arraigada no espírito do ameríndio, ocupa-se longamente o padre Gumilla no seu El Orinoco ilustrado. Em segundo lugar, há nisso uma distribuição de atividades. O homem não se pode furtar aos encargos da caça e da pesca, que lhe consomem muito tempo, e são também tarefas bastante pesadas, além do que acrescidas de grandes riscos. E uma vez que assim é, ainda toca ao sexo frágil o melhor quinhão.

(Cruls, Gastão. Hiléia amazônica; aspectos da flora, fauna, arqueologia e etnografia indígenas. 4ª ed. Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1976, p.290-299)
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