Faz dias já, visitei um antigo engenho de farinha, dos começos do século XVIII, no interior ilhéu, visitei, entretanto, é figura de expressão, porque estive, em verdade no lugar das ruínas do antigo engenho. Ruínas como os velhos e sólidos moirões da casa de cevar, os restos de pedra do forno, e outras antiqualhas relativas ao artesanato. E conversando com gente da redondeza — gente mais antiga, lá do começo do século XX —, fui sabendo da história inteira.
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O engenho de mandioca do século XVIII ainda era um tipo trazido desde os indígenas, pelos lusitanos. A mandioca é raiz típica do Brasil e os índios dela faziam farinhas, bolos e bebidas de violentíssimo teor alcoólico usado nas festividades de guerra, para dar coragem ou melhor... endoidar a bugrada para o entrevero, e até os nomes típicos indígenas eram usados para os utensílios. Assim, colhida a mandioca, era levada para a casa de depósito e ali raspada a casca; depois, as raízes eram passadas na roda de cevar, uma espécie de moinho movido a força de boi ou mula ou cavalo, mas pela ritualística, deveria ser boi, pois mais lerdo e mais síncrono em seus passos. Depois de ralada, era depositada em balaios de nome "tipiti", para secar da água, a massa que fora ao coxo para lavar. Da água do tipiti sai o polvinho e a farinha. Antes, porém, a massa vai a prensa para escorrimento inicial. Feita e colhida a farinha, vai ao forno para torrar e está pronta. O polvilho é secado ao sol. O forno da farinhada é uma enorme bacia rasa de ferro ou cobre. Assim o engenho de mandioca. Ali pelo sítio do Saco Grande houve bons farinheiros no início do século, como o Zé Antônio de Lima, o Manuel Custódio e tantos.
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O engenho da farinha é folclórico, porque arte puramente nacional. Na reunião dos operadores do engenho, de grande movimentação humana, as mulheres e crianças raspam mandioca e contam causos, e quando o trabalho vai por noite adentro, é um narrar história de assombração, feitiçaria, duendes, e aparições, que enervando e criando ambiente propício ao meio, impede que as pessoas deixem a casa iluminada a velas e fogos para fazer café, para o escuro da noite. Os homens amontoam massa no tipiti, fornecem a roda de cevar, e de quando a quando bebericam um trago. Houve em idos tempos famosas farinhas de Barreiros, das Picadas, do Saco Grande etc.