Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Agosto 2005 - nº 81 - Ano VII


Sumário

Festança

Aspectos da festa de Bom Jesus da Lapa
Osvaldo de Souza

A festa de São Roque em Paquetá
Marisa Lira

Jardineira, arco de flores ou balainhas

Cancioneiro

O romance do conde de Alemanha
Téo Brandão

Tipos populares do Recife
Eustórgio Vanderlei

As letras do abecedário

Imaginário

O Filho da Burra

O quibungo

A camisa do homem feliz
Figueiredo Pimentel

Colher de Pau

Frutos, caça e pesca do Brasil
José de Santa Rita Durão

Os rituais da farinha de mandioca
A. Seixas Neto

Complexo da mandioca
Gastão Cruls

Oficina

A semana do vadio e a do trabalhador
Gustavo Barroso

A rede
Múcio Leão

Caprinocultura
Mauro Mota

Palhoça

Adão foi feito de barro

Em plena era atômica, estátua de jumento vai subir ao pedestal

Funcionário malandro
Oscar Nonato Chaves

Panacéia

Espirro
Getúlio César

Para curar embriaguez: urubu

Fatos e crendices sobre o raio
Ângelo Pais de Camargo

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Cancioneiro
Textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...

Tipos populares do Recife

Eustórgio Vanderlei

Leandro Gomes — poeta popular — repentista e de grande inspiração, sempre pronto a versejar — Ele próprio vendia seus livros de versos durante o percurso dos trens da "linha-sul" de Pernambuco — Boêmio inveterado

Entre os Tipos populares do Recife antigo avulta a figura do poeta-repentista que foi Leandro Gomes de Barros, vivendo na capital pernambucana em fins de século passado.

Era uma caboclo de pequena estatura, gorducho, de cabelo liso, caindo em melenas, pela testa abaixo. Teria uns 40 anos.

Seu quartel general eram os vários botequins, ou melhor: as tabernas e café do largo das Cincos Pontas, por ficarem perto da estação do mesmo nome, de onde partiam os trens da antiga Estrada de Ferro Sul de Pernambuco, depois Great Western e hoje Rede Rodoviária do Nordeste.

Boêmio inveterado

Leandro Gomes entregava-se ao vício do álcool e dizem que, quanto mais embriagado estava mais inspirado ficava, brotando-lhe os versos com espantosa fluência. Aproveitava os assuntos em foco na época, assim como o "imposto do selo" criado por Campos Sales, o jogo do "bicho" inventado no Rio de Janeiro, pelo barão de Drummond, e a passagem do século que ele dramatizou em um dos seus poemas. Referia-se no século XIX, que findara deixando um acervo promissor ao século XX. Tudo porém redundara em triste desilusão, tanto assim que, com relação à fartura do século passado, improvisara estes versos:

"Roceiros velhos que nunca
Puderam fazer figura
Compravam gravatas finas
E amarravam... na cintura.
Dizendo com roço... — Eu tenho [1]
Dinheiro da safra velha
Quem compra bem dois engenhos"...

O século novo, entretanto, não correspondeu a sua expectativa e ele, observando, já naquele tempo, a carestia, versejava:

"Na primeira feira do ano
Conheceu-se o prejuízo,
Chorava os agricultores
Como em Dia de Juízo,
Não se encontrando um só bolso
Que não estivesse liso. [2]

A metrificação que usava

Leandro Gomes empregava, nas suas poesias, as sextilhas, como a que citamos, em redondilhas (sete sílabas) e também as estrofes em "martelo" (versos de cinco sílabas) em pequenas estrofes de duas quadras, como as seguintes, logo após as sextilhas:

"Este século novo
Nos meteu o pau
Chegamos a um grau
Que não há quem se sarve.

Não há homem que case.
A sorte entornou-se
O mundo trancou-se
E perdeu-se a chave..."

(Aqui entre as palavras case e chave, não há rima, e sim consoante)

Certa vez o desafiaram a fazer um "acróstico", gênero antigo de poesia, cujos versos começam com a letra inicial de um nome.

O nome dado era o seu próprio: LEANDRO

Ineditamente o poeta improvisou na venda em que estava entre dois copos de cachaça, o seguinte:

"Lá no céu Maria é tudo;
Emblema da divindade,
Alma vivificante
No seio da Eternidade
Dom que o mortal não tem,
Remédio que nos faz bem.
Origem de caridade!"

E assim o poeta correspondeu ao desafio galhardamente.

Era ele próprio editor e "distribuidor" dos seus "livros de poesias", viajando nos trens da já citada Estrada de Ferro, entre o Recife e Palmares, e no prolongamento de Palmares e Garanhuns. Vendia a 200 réis o folheto (equivalentes hoje a 20 centavos). O caso é que toda a população do interior do estado, assim como do estado das Alagoas, compravam seus folhetos, a assim o poeta se mantinha e mandava imprimir outros livros com a História da princesa Magalona a da Imperatriz Porcina e outros mais do mesmo gênero... poético.

Os engraxates, que tinham banca fixa na porta das escadas de sobrados, vendiam também esses folhetos, que dependuravam, em barbantes, à vista do freguês, junto dos cadarços para os sapatos, constituindo essa prática, o que ainda hoje se chama literatura de cordel".

Um auto-retrato... em verso

Conta-se que, muito doente pelo excesso da bebida que ele ingeria, foi apresentado a um "colega" nas improvisações, o poeta João de Ataíde, da Paraíba o qual aliás não bebia.

Depois de trocarem amabilidades, Leandro Gomes pediu ao colega que lhe recitasse alguns dos seus versos, só que o outro acedeu de bom grado.

Não tardou que Leandro, com a maior franqueza lhe disesse:

— Menino, você pra mim é pinto nanico... Se duvida escute lá essa história...

Empregando seus dois gêneros poéticos preferidos: a sextilha e o "martelo" improvisou a poesia que denominou: O bêbado e que é uma autobiografia:

"Um cachaceiro, já velho
Tomava muita aguardente.
Devido a tomar demais
Caiu um dia, doente,
E diz consigo: Eu vou mal...
Deixo o mundo certamente.

Ponha-se a pensar.
Dizendo: Eu me acabo
De tanto beber
Mas, nem o diabo
Me obriga a deixar
Posso me acabar
Na morte tirana
A mulher que dana.
Minha sogra briga
Prefiro uma intriga
Mas não deixo a cana [3]

No tempo em que eu era moço
E tinha minha saúde
Aproveitei bem meu tempo
Bebi a cana que pude
Cana no bucho mexia
Como a água no açude.

Chega minha tia
Derramando prantos
Dizendo que os santos
Nem um só bebia!...
E eu digo: Titia
Você tá danada
Deixe de maçada
Eu sou verdadeiro
Se não tem dinheiro
Eu pago um bicada! [4]

O poeta Ataíde, que o ouvia, o aplaudiu, assim como a grande roda de admiradores do vate popular que se formava sempre que ele começava a improvisar seus versos, que lhe saíam dos lábios como uma cascata de rimas e graciosas imagens.

Elogio da bebida

Leandro Gomes não era entretanto, um "cantador" de elogios, como os há, nas feiras do interior do estado, geralmente pobres ceguinhos que cantam, acompanhando-se à viola, nas suas melopéias chorosas, em tristes acordes de tons menores. Não, Leandro Gomes não fazia elogios. Se houve alguma coisa, e não "pessoa vivente", que ele elogiasse, foi a bebida, a aguardente, a cachaça.

Em um dos seus admiráveis "martelos" disse o poeta do povo:

"A bebida é boa
Cheira e é gostosa,
É tão saborosa
Que ninguém enjoa.
Então a pessoa
Que se dá com ela
Não fica amarela [5]
Nem sente fastio...
Então, quando há frio
Oh! Que vida aquela!...

E assim o poeta o trovador inspirado cadenciava uma dança, como os antigos menestréis que se deixavam levar por seu Deus "sua dama". Ele se deixava também matar pelo seu Deus, que era o copo e pela sua dama que era a bebida...

Coincidência?...

O gênero de poesia com estrofes de cinco sílabas é chamado, como já se disse de "martelo", assim como certa quantidade de bebidas, em geral, aguardente, tem o mesmo nome de "martelo". Será coincidência? Ou será porque os "martelos"... de aguardente martelam a inspiração dos poetas sertanejos, a fim de que, como centelhas de ferro em brasa, lhes saiam fagulhando do cérebro os belos "martelos" nas cincos sílabas dos versos da sua poesia primitiva e rude que são às vezes, tão brilhantes como as cincos estrelas do Cruzeiro do Sul! Os estudiosos do assunto que procurem descobrir se há qualquer analogia entre os dois "martelos" ou se é uma simples coincidência de denominação.

A derradeira viagem

Aquela vida boa que o poeta levava entre seus folhetos e os passageiros dos trens da Estrada de Ferro Sul Pernambuco um dia teve fim. Deram pela sua falta. Indagaram:

— Cadê Leandro? Por onde andará ele?

E um velho condutor do trem, seu amigo, e admirador dos seus versos respondeu tristemente:

— O Leandro... Foi fazer sua última viagem! Aquela da qual não se volta diste?...

E assim foi: O poeta morreu, deixando sua memória, ressuscitando em cada estrofe, em cada verso da sua poesia inspirada e emocional.

 

Notas

1. Roço: Orgulho, vaidade
2. Lisa: vazio, sem dinheiro
3. Cana: aguardente de cana, cachaça
4. Bicada: dose da bebida
5. Amarelo: pálido anêmico

 

(Vanderlei, Eustórgio. "Tipos populares do Recife". Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 08 de fevereiro de 1953)
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