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O folclore na política

Vilmar Coelho    [1962]

A época é de efervescência política. Toda a gente se agita. O vai-vem é febricitante. A corrida é louca em demanda do voto popular para cargos eletivos. É um sinal de que a mamata é boa.

Candidatos desdobram-se em atividades, abaixo e acima, pedindo votos e prometendo a camisa do corpo.

Cabos eleitorais e amigos dos pretendentes aos vários cargos, entram na dança, ou melhor na contradança, nessa quadrilha, onde toda gente se movimenta ao ritmo da sanfona da politicagem, que os eruditos chamam de movimento cívico, de democracia e sei que mais palavras bonitas com que apelidam a liberdade de votar e receber votos.

Em verdade, nos países civilizados, onde o voto é dado conscientemente, onde o poder econômico não entra como fator de corrupção de consciências, a eleição é o mais belo espetáculo dos povos livres.

No Brasil, porém, esse cometimento, por motivos de ordens várias que seria cansativo enumerar, a prática do voto muito deixa a desejar.

Há ainda vícios de origens remotas que tiram o brilho e a nobreza do sufrágio popular.

Sem dúvida, vamos pouco a pouco, aparando as arestas polindo costumes, apurando as leis, codificando os textos especializados do direito inerente ao voto, melhorando, dia a dia aquilo que não está certo e corrigindo erros, aperfeiçoando enfim os costumes e instruindo o cidadão votante.

Com paciência e mais algum tempo teremos eleições limpas como nas velhas democracias européias, livres das eivas que devem ser afastadas.

Dessa trepidação popular, no entrechoque de grupos que se digladiam, de intenções antagônicas, nem sempre cheios de princípios sadios, mas às vezes, sempre pobre de idéias boas, boas sempre de egoísmos e intenções malsãs, nasce muita coisa que merece ser fixada para documentação de uma época. Episódios pitorescos, anedotas improvisadas à feição de cada caso, slogans e ditos onde a imaginação popular dá largas à sua verve, ao seu espírito galhofeiro, à sua malícia gostosa, à sua ironia cortante, mesmo à maldade destruidora de reputações e avassaladora da honra alheia.

A ocasião é azada. Dão-se expansão aos velhos ódios, dos ressentimentos remotos escondidos num cantinho da alma, onde o diabo sempre se esconde para aproveitar a hora oportuna, gerando vinganças, tragédias e desordens de conseqüências funestas com prejuízo para a coletividade humana, perturbando o ritmo da vida de toda gente, muitas vezes, pagando os justos pelos pecadores. Essa movimentação é própria dos regimes democráticos, onde cada cidadão pode se situar onde entender, dizer o que quer — e ouvir o que não quer — falar, esbaldar-se, criticar — e ser criticado — praticar todos os atos compatíveis com a lei, inclusive o de transgredi-las, caluniando, mentindo, ultrajando, visando tirar partido dessas diatribes, com prejuízo alheio.

E nessa canoa embarca muita coisa. Muitas vezes, o bom senso naufraga, a serenidade se afunda nessas águas turvas. Mas toca o barco para a frente, nesse tormentoso momento de se lançar nas urnas as células quadrangulares com os nomes dos salvadores da pátria, bem impressos, bem legíveis como exige a lei.

Nem o folclore escapa a esse tumultuar de coisas, nesses períodos que antecedem os pleitos.

Filho do interior de Minas, sertão agreste, onde não chegam os silvos das locomotivas, onde os coronéis mandavam (e ainda mandam) assisti desde que raciocino por mim mesmo, muitos episódios pitorescos, muito ódio, muita amizade desfeita, muitas famílias destruídas, muitos inimigos se abraçarem, muitos casamentos se desfazerem e muitas uniões se consolidarem. Panorama variado nessa paisagem humana tão controversa, tão contraditória.

O caboclo mineiro, inteligente e perspicaz, por vezes, irônico e malicioso, põe as unhas de fora e entra com o seu quinhão de espólio de todos. Observa os homens, captam sua psicologia, e lança uma tirada das suas.

Se um candidato se proclama homem sério, cumpridor dos seus deveres, olhando-o com o lado dos olhos, sentencia malicioso o velhaco: Homem sério é como assombração: a gente vê falar neles, mas eles não existem".

Se é opulento de bens e se diz honesto, a réplica não demora: "Eu nunca vi rio cheio de água limpa". E nesse andar vai longe.

Não raro as musas são convocadas e, prestes acodem ao chamamento ao som da viola, nos ajuntamentos festivos das batucadas alegres.

O rico conhece o pobre
Na ocasião da eleição
Fica todo mentiroso
Todo cheio de atenção
Se encontra pobre na rua,
Chega perto e aperta a mão.
Pergunta pela família.
Como vai a obrigação
Paga pinga na vendinha
E assenta no balcão.
Abraça e conta pilhéria
Trata a gente como irmão
Pede voto e faz promessa
Que é uma regalação:
— Te dou casa pra morá.
Dou terra procê plantá.
Escola para os seus filhos
E cavalo para andá.
Remédio para a família
Dinheiro procê gastar.
Te dou crédito na venda
E prestígio no arraiá
Promete mundos e fundos.
O que nunca pode dá.
Mas passadas as eleições
Já depois do voto dado
Se encontra a gente na rua
Vira a cara pra outro lado.
Se a gente não salva eles
Diz que a gente é malcriado.
Não conhece o seu lugá
Que não respeita patrão.
Fala em prendê e processá.
Se a gente pede um favor
Manda a gente trabaiá.
Eu com gente desse ordem
Eu pra cá, eles pra lá.

Fica aqui esta amostra, que dela tirem proveito os incautos eleitores ludibriados.

 

(Coelho, Vilmar. "O folclore na política". Gazeta Comercial. Juiz de Fora, 29 de setembro de 1962)
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