João do Rio
Minha querida senhora — Há opiniões muito divergentes sobre o mês de agosto. Uns dizem que o mês de agosto dá desgosto; outros que o mês de agosto é um mês de gosto, mês triunfal, mês em que o sol caminha para o signo de leão. Até nos meses, as opiniões se dividem — o que não impede que V. Ex.ª possa tirar a sorte grande em agosto e a sua pior inimiga venha a perder por exemplo — os dentes na próxima quinzena — o que é agradável para uma e desagradável para a outra.
Por motivos particulares considero o mês de agosto precioso, assim como seria o mês em que conseguisse escapar das mãos de refinados corsários um pobre viajante incauto. É de modo geral o mês de repouso da crise mundana. Ainda agora V. Ex.ª vê: o Municipal fechou sem Sain-Saëns e só em setembro reabre para a companhia lírica, que dará apenas dez recitais.
Como em todos os meses, agosto tem casos políticos, exageros de descompostura, e na imprensa essa brincadeira de circo romano em papelão. Como em todos os meses, há desventuras, sortes maluqueiras em agosto.
Agosto também tem a sua feição própria. Nos oito meses de calor é ele com antecedência o anunciador do verão, do terrível verão que aniquila as mais fortes energias. E nisso os encantadores vêm um reflexo da Europa, onde o mês de agosto é formidavelmente quente, como ninguém ignora...
— Parece que estamos em Paris.
— Exatamente!
— Em Londres é exagero. Londres no verão é ainda mais interessante que no inverno. Pelo menos antes da guerra.
— Ah! se não fosse a guerra não estaríamos todos aqui.
— Como a guerra atrapalhou a gente.
— Infinitamente.
Os oculistas estudam os meses por partes: negócios, arte, nascimentos, amor. V. Ex.ª indagará do mês de agosto no aspecto negócio? Dir-lhe-ei que é razoável. Quando o outro não tem outro remédio dá dinheiro no mês de agosto, e se é inteligente, mais esperto, mais ladino e com maior soma de trunfos pode-se ganhar um negócio em agosto pode ser o mês das surpresas e o mês irrevogavelmente dramático. Ninguém ama porque quer, ninguém gosta por simples brincadeira. É tão doloroso, tão aborrecido, tão contra a vontade e tão fatal!
De modo que pode muito bem pode ser que V. Ex.ª receba no mês de agosto uma declaração de amor. Uma. Duas. Três. Talvez mais. Mas que nenhuma seja a declaração de amor da pessoa que V. Ex.ª espera. Não seja má para os que não lhe agradarem, pensando no que lhe seria bem. Convença sem cólera, sem irritação. A maior desgraça deste mundo foi terem os homens coração. E V. Ex.ª não imagina o quanto faz sofrer o gesto de enfado de uma criatura que a fatalidade mandou amar.
— Mas isso dá-se em qualquer outro mês! exclamará V. Ex.ª
— Claro! O mês de agosto é como qualquer outro mês, marca do tempo sem fim, para a ilusão da mesma humanidade.
Beija-lhe as mãos.
Joe, 06 de agosto de 1916