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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

Panacéia

ANO VI - EDIÇÃO 69
Agosto 2004

Panacéia
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Ritos mágicos

O barrete do saci, por Luís da Câmara Cascudo

Superstições e crendices
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Catavento
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Almanaque
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PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


Ritos mágicos

É a ação civilizadora que pelo menos em parte altera e disciplina as reações do homem perante o desconhecido. O estado propício à receptividade de superstições tende a se modificar toda vez que uma coletividade se torna mais instruída. Quanto mais declarado o espírito primitivo de um povo, mais tem ele motivo para valer-se de seus pensamentos, suas formulações mágicas, de sua medicina empírica, para tratar o corpo e preservar a alma dos maus espíritos.

O que surpreende o estudioso desses assuntos de costumes, de práticas, que ocorrem simultaneamente em várias superfícies geográficas. Dai surgir, evidentemente, o estímulo que o estudo do folclore proporciona aos que, de surpresa, degustam esse sentimento de prazer que é o redescobrimento em outros agrupamentos humanos e reincidência de aspirações populares normais a sua ambiência social.

Alceu Maynard Araújo, que elegeu a pesquisa demopsicológica como um dos bons objetivos de sua vida, vale-nos agora com bem concatenado trabalho — Alguns ritos mágicos (abusões, feitiçaria e medicina popular) — que lhe valeu  conquistar merecido prêmio ao ensejo do 6º Concurso de Monografias de Folclore da Discoteca Municipal (São Paulo, 1961), a que vem agora, a lume em edição do Departamento de Cultura do governo paulista.

Tomando o município de São Luís do Paraitinga como centro de seus estudos, notadamente Lagoinha, Caçatuba e a própria cidade de São Luís (SP), o conhecido folclorista vem demonstrar mais uma vez que em qualquer área geográfica brasileira são encontrados os mesmos ritos, os mesmos sentimentos de temor ao desconhecido, ao lado de uma prática medicinal vinculada à boa tradição que ocorre em todo o território nacional.

Em alguns casos a receita anotada mal disfarça a sua identidade com outras recomendações que podem ser testemunhadas, diariamente, em outros pontos do país, o mesmo ocorrendo com as abusões, as simpatias, etc. Registra o estudioso: "A mulher que está amamentando não deve visitar uma pessoa mordida de cobra. pois, se tal acontecer, o veneno subirá, morrendo (o picado) o que foi ofendido pelo "bicho peçonhento". No Ceará não é necessário a mulher estar amamentando. Se se encontra ao menos em estado de gravidez não deverá visitar pessoas que foram picadas por cobra. É morte na certa para a vítima do réptil.

Mais adiante, registra o autor: "Não presta deitar-se com as mãos na nuca, a morte virá para um membro da família". É a réplica do que ocorre no Ceará, terra onde ninguém deve levar às mãos à altura da cabeça, cruzando-as porque estará azarando os pais. Se relincho de burro como recensou o prof. Alceu Maynard Araújo, anuncia chuva para os habitantes de São Paulo, em contrapartida o relincho de jumento no Nordeste, formula previsão de chuva. Aliás participa o jumento em nossa região de uma série de sinais, alguns inenarráveis para os leitores, a propósito de inverno ou de chuvas mesmo que esporádicas.

Na ordem dos remédios aconselhados pela excretoterapia, surge ainda em registro do autor, o indefectível chá de jasmim do campo, que não é outra coisa, apesar do eufemismo senão o excreto de cão apanhado na rua, remédio milagroso (?) espécie de panacéia nacional contra sarampo, a que se submeteram muitas inteligências lúcidas desse país.

Há entretanto, peculiaridades. Vale a pena transcrever-se a recomendação que se faz ao marido paulista cuja esposa está aguardando a chegada do herdeiro. Vejamo-la conforme documentou o prof. Maynard: "Quando a mulher está custando para dar a luz o marido deve dar um tiro para o ar com a espingarda, lavar o cano, e com a água que foi usada em tal mister, dar para a mulher beber. É um porrete! Dará à luz imediatamente".

Como se fala muito no Ceará, a propósito de café fraco, em "chá de lavagem de espingarda", será que não se descobre nesta prática supersticiosa do hinterland paulista ponto de contatos com o comentário pejorativo do cearense?

Partindo-se de hipótese dessa natureza há um vasto mundo de semelhanças que precisam ser dissecadas por aqueles que se dedicam aos estudos em profundidade. O importante será, naturalmente, a honestidade da pesquisa, ponto de partida obrigatória de quantos desejam prestar um bom serviço ao desenvolvimento da alma popular.

O livro do prof. Alceu Maynard Araújo, que aqui se comenta, é dessas obras que fundamentam as informações que devem conter uma pesquisa pessoal, cuidadosa e marcadamente honesta. Não é trabalho de gabinete, dos que se aproveitam muitas vezes simples informações indiretas correndo o tremendo risco de oferecer como verdade aos leitores uma inválida distorção dos fatos.

Alguns ritos mágicos do autor paulista, confirma que as coletividades podem mudar de ambiente mas, em seu estado de pauperismo e quase primitivismo, tem os mesmos métodos de defesa, contribuindo assim, permanentemente para a estratificação do nosso folclore.

("Ritos mágicos". O Jornal, Rio de Janeiro, 29 de maio de 1960)