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Maria Rita
Nas minhas andanças pelo norte, atendendo as desgraças de amigos, por força do
munus advocatício, tenho descoberto pessoas e coisas interessantíssimas.
Em Natal, não me furto de revelar, que a figura mais interessante que se me
deparou foi a de Chico Santeiro. Não adiantaria dar-lhe o nome. Todos os
conhecem pelo dístico que o celebrizou. Não riam: celebrizou mesmo.
Chico Santeiro é um homem de 61 anos. Desde os dez, imitando o pai, fazedor e
restaurador de imagens, com um canivete ordinário, cinzela figuras humanas e de
animais, revelando uma vocação artística que só mesmo uma nação perdulária como
a nossa deixa imolar-se à ignorância, à carência, ao abandono.
Filho do interior, Chico Santeiro cresceu, fez-se homem, de canivete em punho.
Sua arte possui tal força, que, paupérrimo, mal alimentado, sem ter quase o que
vestir, vivendo nas condições mais precárias, é solicitado por encomendas dos
vários recantos do país, e até do estrangeiro. Vi — em seu livro de notas, assim
como um caderno de fiado de venda de arraial, nomes e locais de fregueses seus
da França, da Alemanha, da Inglaterra, de São Paulo, do Rio de Janeiro, do Paraná... Vi
seus trabalhos — o Cristo, o carro de bois, a orquestra, a rendeira, na escola
doméstica... Fiz questão de conhecê-lo. Na praia de Areia Preta, um
recanto pitoresco, de belíssima paisagem, num rubro pôr-de-sol, encontrei-o numa
casa pobre, onde mora por favor, de um compadre abastado — sr. Sérvulo Severo. É
casado. Cinco filhos: dezoito, quinze, quatorze, sete, cinco e três anos e meio.
A mais velha já usa o canivete moldando imagens. Todos criados nas condições
mais penosas.
Marido e mulher dão um aspecto de haverem levado uma vida de restrições
absolutas. Magérrimo, o Chico já com a vista comprometida, talvez por
avitaminose e não doença; as crianças denotando a subalimentação da que faz
morrer o organismo. Todos maltrapilhos. Na casa falta tudo. Enche-lhe de orgulho
uma bênção do Santo Padre, na parede rústica, com que lhe agradecera a imagem do
Cristo de sua lavra. No mais... o vazio. Trouxe uma rendeira e um
carro de bois. Faltam o Cristo e a orquestra. Seu Cristo tem vida,
expressão, emociona. A orquestra é a sobrevivência de tipos populares do
folclore riograndense. Tobias das Queimadas, cantador de emboladas e tocador de
violino; Inácio das Catingueiras, também cantador, poeta, repentista, uma
espécie de trovador provençal, cujas quadras eram acompanhadas ao som da viola;
Augusto de Bilinha, tocador de ganzá, e Mestre Limoeiro, o homem da
concertina-harmônica — o acordeom dos salões de hoje. É esse homem, que batido
pela fome, desceu do mato onde tinha à mão seu material de trabalho — jacarandá;
a candeia e o canivete — que hoje, já alquebrado mais pela vida ruim do que
pelos anos, que muitas vezes deixa de trabalhar por falta de madeira. No Rio
Grande do Norte há dinheiro a rodo, para o supérfluo. Nos departamentos
federais, no fim do ano passado, às vésperas do pleito municipal, verbas
correram como rios... as subvenções são distribuídas da maneira mais pródiga,
por institutos que não passam, muitas vezes dos estatutos. Enquanto isso, um
homem que é uma instituição nacional, — o fato de haver sido escolhido por Deus,
o dom da arte marcou-o como tal — não tem onde morar, o que comer, com mulher e
cinco filhos — nem com que vestir-se e vesti-los.
Vendo as condições de vida de Chico Santeiro, compreendi outros sintomas da vida
de lá. Sensibilidade que se não deixa tocar pelo dom mais próximo de Deus — o de
criar beleza — também se não pode emocionar diante do flagelo das levas de
famintos, caindo aqui, ali e acolá de fome, enquanto os outros enriquecem de sua
fome, de sua nudez, de sua desgraça.
O problema Chico Santeiro não me saiu mais da cabeça. Levei-o ao governador
Dinarte Mariz. Espero que me comunique a solução. Seria uma grande decepção para
mim voltar a Natal e encontrar o artista sem material para cinzelar suas
figuras, ele, mulher e filhos carentes do necessário para preservar a vida.
Considero tão grave o abandono de uma criatura a quem Deus destacou de maneira
tão evidente, que nem situo esse problema como um problema local. Amparar Chico
Santeiro, dar-lhe condições para trabalhar, cuidar de sua família,
assegurando-lhe moradia, alimento e educação para os filhos é um dever do país.
Desgraçada a terra onde as vocações artísticas se estiolam de inanição e não
podem ser preservadas, pela hereditariedade, mesmo quando Deus persiste em
retransmitir o dom, como neste caso: três gerações seguidas.
Disseram-me que certos fatos desabonadores de que a terra potiguar tem sido
teatro devem-se ao custo dos mandatos parlamentares: ninguém ali conseguirá um
mandato por menos de três milhões de cruzeiros; confesso que julgo a atividade
de Chico Santeiro mais útil ao país do que a de parlamentares eleitos por esse
preço. Logo, prefereria que os recursos que aliviam os ônus dos candidatos
fossem canalizados para dar comida a quem tem fome, água a quem tem sede,
educação aos cegos para ignorância, e vida condigna aos eleitos de Deus — os
artistas.
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