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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

palhoça

ANO VI - EDIÇÃO 69
Agosto 2004

Palhoça
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O simbolismo dos lenços gaúchos, por José Egidio Farinha

A passagem era mais cara, nos bondes puxados a burro

Chico Santeiro, por Maria Rita
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


A passagem era mais cara, nos bondes puxados a burro

Artigo publicado em 1965

O munícipe que hoje paga Cr$ 80 por uma passagem de bonde não sabe que tal transporte já foi relativamente bem mais caro, se devidamente guardadas as proporções de época, poder aquisitivo, salários etc. No princípio do século uma passagem até a Ponta da Praia, em pequenos veículos movidos pela tração animal, custava 400 réis, ou os recém-extintos 40 centavos. Hoje custa Cr$ 80, tendo subido "apenas" duzentas vezes, se comparada com a ascensão dos salários dos operários, que nos últimos 60 anos subiram pelos menos 440 vezes.

Por outro lado, a adoção do sistema de tração elétrica permitiu que determinada fase dos transportes coletivos, uma baixa real nas tarifas, que a rigor, eram encarecidas pela necessidade de troca constante das parelhas de burros.

Itinerários

Em princípios deste século existiam apenas sete linhas de bondes, todas a tração animal, com veículos cuja capacidade não ultrapassava trinta pessoas. Eram bastante anti-econômicos, do ponto de vista moderno, mas a ausência de proteção trabalhista permitia aos empregadores explorarem ao máximo a "mais-valia" dos operários, que trabalhavam doze horas por dia, sem descanso semanal ou férias anuais, mediante a paga de cinco mil réis diários, ou 150 mensais.

Enquanto os cocheiros e cobradores esfalfavam-se para fazer funcionar o sistema, as parelhas de burros tinham o privilégio de trabalhar apenas uma hora por dia, sendo trocadas em pontos de muda que valiam também como pontos de seção do tráfego.

Todas as linhas faziam ponto final no largo do Rosário, hoje praça Rui Barbosa. Dali entravam pela rua Visconde de São Leopoldo até alcançar a rua Quinze de Novembro pela direita seguindo até à praça da República, de onde se distribuíam para os bairros.

A linha da Ponta da Praia adentrava pela Senador Feijó ao sair da praça da República, ganhando depois a General Câmara à esquerda (havia mão dupla nessa artéria), até chegar à Conselheiro Nebias, de onde se dirigia para o Boqueirão e dali, pela praia, até o ponto final, que se localizava onde hoje se encontra o Instituto de Pesca, naquele tempo Escola de Aprendizes Marinheiros.

Do largo do Rosário até à Vila Nova (confluência Conselheiro Nébias e Sete de Setembro) pagava-se 100 réis de passagem; dali até a Encruzilhada (cruzamento da Rodrigues Alves) mais 100 réis, e, finalmente do Boqueirão à Ponta da Praia, 200 réis. Esse percurso entre o largo do Rosário e a Ponta da Praia durava duas horas, ida e volta, havendo freqüência de bondes de meia em meia hora. Nas 7 linhas havia em tráfego, no príncipio do século, 28 veículos.

A mais longa

A mais longa linha direta era a que saía dolLargo do Rosário e alcançava o José Menino, fazendo ponto no mesmo local onde hoje param os bondes 3 e 33. Depois de passar pela São Leopoldo, Quinze de Novembro, praça da República e Senador Feijó, entrava pela rua Júlio de Mesquita e, alcançando a Ana Costa, por ela seguia até à praia, de onde demandava o ponto final. O percurso todo custava 400 réis, dividido em seções de 100 réis, do Rosário à Vila Matias, 200 réis da Vila Matias ao Gonzaga, e 100 réis daí ao José Menino.

Essa e a da Ponta da Praia eram as mais extensas. Havia outras menores, que iam à rua Sete de Setembro, até o escritório da CDS, seguindo pela Xavier da Silveira. O retorno fazia-se pela General Câmara, até o Mercado pela rua João Pessoa, cobrando-se 100 réis.

Proprietários

Ao contrário do que se pensa a Companhia City não é a implantadora do sistema de transportes coletivos em Santos. Houve dois concessionários do serviços, no século passado, havendo ainda outro em São Vicente. Ao comprar o acervo dessas empresas, unificou a City as linhas, instituindo, em 1909, o sistema de tração elétrica, que causou verdadeira sensação na época. Pouco a pouco os carros puxados a burros foram sendo retirados da circulação até que, em 1912, o transporte coletivo estava todo eletrificado. No entanto, os velhos e pequenos carros, rebaixados a reboque, continuaram prestando serviços à cidade até 1958, época em que foram definitivamente retirados da circulação e desmontados, sem que aparecessem interessados em guardar pelos menos um dos bondinhos como recordação.

Em 1952, o acervo do serviço passou para o Serviço Municipal de Transportes Coletivos. Os bondes elétricos nos quais a população hoje viaja, salvo poucas exceções, são os mesmos postos a trafegar há sessenta anos.

Remanescentes

Há ainda remanescentes dos tempos do bonde puxado a burros. Um deles é o sr. Antônio Perez Prieto, aposentado há vinte anos, que, no princípio deste século exerceu a sacrificada função de cocheiro (precursor do motorneiro). O último dos cocheiros vivos foi localizado pelos sr. Moacir Dias, chefe do Serviço de Relações Públicas do SMTC, que também forneceu os elementos para esta reportagem. A muito custo deixou-se o sr. Antônio Prieto fotografar, mas de bom grado recordou os itinerários e acontecimentos pitorescos daquele tempo em que se levava uma hora para chegar a Ponta da Praia, numa viagem calma que acompanhava a linha do mar, sobre o terreno arenoso, coberto de mato.

Até os bondes elétricos, hoje tão comuns, estão condenados a desaparecer, e muitos foram fechados lateralmente, a fim de dar maior segurança aos passageiros. Em breve deverá haver apenas tróleibus na cidade. Nesse dia o bonde elétrico será transformado em relíquia de museu, como está acontecendo no estado da Guanabara.

("A passagem era mais cara, nos bondes puxados a burro". A Tribuna. Santos, 29 de agosto de 1965)