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José Egídio Farinha
A história do uso das cores vermelha e branca data de tempos muito recuados como
distintivos partidários, principalmente em lenços, mas também na fita de
chapéus, em ponchos e bombachos.
Era costume originário das agitadas e turbulentas repúblicas do Prata.
Rosas, o tirano impiedoso que transformou a Argentina (1830-1852) numa fábrica
de torturas cruéis, que aniquilou as liberdades e sufocou o exercício dos velhos
partidos políticos, estabeleceu o uso obrigatório do vermelho como cor oficial.
Aquele que tivesse o topete de se rebelar contra aquele uso era sistematicamente
perseguido e seviciado, indo parar muitas vezes amarrado a um formigueiro bravo
com o corpo besuntado de mel.
Quem tivesse a ousadia e o atrevimento de usar ostensivamentemente a cor azul
celeste, — cor nacional do grande país irmão, que Rosas possuía verdadeira
alergia, era degolado sem dó nem piedade ao som macabro da clássica mazurca.
O povo usava o vermelho, nas gravatas, bandas, barretes e laços com distintivos
e dizeres.
Os guapos e fanáticos soldados rosistas tinham uniformes inteiramente
vermelhos... Aí, felizmente, a cor encarnada era simbolo de opressão, de
despotismo e exteriorizava um sonho de conquista e de poder discricionário, pois
Rosas queria por todos os meios e modos implantar o vice-reinado do Prata.
No Uruguai, os dois tradicionais partidos políticos, encarniçados adversários, o
Blanco e o Colorado, respectivamente do feroz Leandro Gomez e do bravo
Venâncio Flores, tinham por emblema o branco e o vermelho.
Daí, naturalmente, segundo a assertiva do historiador Clóvis Ribeiro, no seu
livro erudito e fartamente ilustrado: Brasões e bandeiras do Brasil, se
originaram os lenços encarnados e brancos rio-grandenses, como insígnias dos
partidos políticos gaúchos.
Embora o uso do vermelho do Rio Grande do Sul, fosse tão adotado, que até os
regimentos imperiais aquartelados no sul, usavam blusas ou túnicas encarnadas,
rosa ou carmim, assim como chapéu ferrados de vermelho conforme se vêem nos
figurinos militares de 1857.
Também no Paraguai, o uso do vermelho era muito generalizado, e na guerra, com o
Brasil, os valentes soldados de Solano Lopes — que acalentou o sonho fabuloso de
ser imperador, envergavam fardas vermelhas.
Os lenços rio-grandenses usados no pescoço apresentavam laços característicos,
cada um dos quais designativos de cada revolução, em que os partidários de um e
de outro credo político se enfrentavam no campo de luta.
O laço vistoso dos farrapos, era o laço que não desatava, igual de ambos os
lados, e o nó sendo difícil de desatar, significava como era corrente na época a
firmeza das convicções políticas e a inteireza de caráter daqueles patriotas.
Era o denominado laço farroupilha ou republicano (República de Piratinim).
Os lenços usados pelos farroupilhas foram importados dos Estados Unidos por um
negociante de Montevidéu, Marcial Rodriguez, no depoimento do escritor Augusto
Meyer, no seu Guia folclórico gaúcho, e traziam estampados a bandeira tricolor
da República Rio-Grandense.
Os primeiros exemplares que chegaram à cidade do Rio Grande do Sul foram
incinerados na alfândega, mas os que vieram por terra chegaram ao acampamento
dos rebeldes em Piratinim, em terras de Manuel de Moura, no dia 3 de dezembro de
1843.
O tope farroupilha continuou a ser usado após a queda do Império por todos os
partidos políticos indistintamente, tanto em lenços vermelhos como em lenços
brancos. Houve mais tarde o laço "maragato" ou federalista, somente usado em
lenços vermelhos, distintivo dos liderados do inesquecível lider político e
verbo estelar do Império e do primeiro decênio republicano, Gaspar da Silveira
Martins.
As camisas vermelhas instituídas pelo grande condotiere Garibaldi, tiveram sua
inspiração nas túnicas encarnadas dos pampas rio-grandenses.
Por ocasião da revolução libertadora de 1923, os revolucionários de Felipe
Portilho, Zeca Neco, Leonel Rocha, Estácio Azambuja e outros, adotaram como
sinal emblemático o uso do lenço vermelho e os partidários da situação
dominante, isto é, os adeptos de Borges de Medeiros, usavam lenços verdes
(Quebrando acintosamente a tradição dos lenços brancos).
Havia nesse período convulsionado da vida rio-grandense, pequenos lenços de seda
vermelha ou verde para uso no bolso da lapela, os primeiros traziam estampados o
retrato do grande patriarca de Pedral Altas, Assis Brasil, — chefe civil da
revolução libertadora, e os segundos ostentavam a efígie de Borges de Medeiros,
que ainda vive na sua tranqüila mansão do Irapuazinho cercado da consideração
dos rio-grandenses [em 1952] — de gregos e troianos, depois de um passado de lutas
apaixonadas, mas com uma tradição de incorruptível republicano.
Na espetacular tomada de Pelotas em 29 de outubro de 1923, pelas forças
intrépidas do saudoso general. Zeca Neto — aquele magnânimo caudilho com um a
estampa garibaldina, a cidade que ficou repleta de lenços vermelhos, moços,
velhos e mulheres ostentavam ao pescoço lenços grandes e pequenos, uma
estrepitosa orgia de lenços coloridos.
Lembro-me vagamente, porque ainda muito menino (Ô poderosa retentiva da
infância), que quando as tropas deixaram a cidade que as havia recebido de
braços abertos, fomos, eu e meus pais, levar na bucólica tablada — e por sinal
que os tradicionais maricás sulinos, floriam saudando a primavera, grande
quantidade de fumo e uma profusão de lenços escarlates aos soldados
revolucionários, os últimos piquetes que ainda se encontravam naquele local.
Na oportunidade da realização do histórico congresso de Bagé em 1928, do qual se
originou a criação do Partido Libertador pelos federalista e democratas (os
primeiros, seguidores da bandeira de Silveira Martins e os segundos, partidártios
de Antonio Prado), o notável tribuno fluminense Maurício de Lacerda em magistral
oração afirmava:
"O laço vermelho dos gaúchos é o tope de revolução nacional".
No mesmo conclave político o escritor e jornalista paulista Afonso Schimidt,
enviado especial do O Estado de São Paulo, compôs estes magníficos e
inspirados versos que transcrevo abaixo:
Quando o canhão rugiu da noite, um deus
Arrancou-lhe da boca a luz, e, com assombro,
Viu que tinha nas mãos, um farrapo vermelho,
E, sem saber porque, atirou-o no ombro.
O soldado que o viu fazer outro tanto e logo
Quando desabrochou nos longes o arrebol,
Pela cochilha azul vinte mil cavaleiros
Traziam no pescoço um punhado de sol.
Depois foi a nação. Quem tinha dentro d'alma
Uma gota de luz um palmo de seda
E tingiu-se de sangue e exarcou-a de sonho,
Desdobrou-a no céu como uma labareda.
É assim que amanhã, quando todos os homens,
Atarem ao pescoço os seus lenços vermelhos,
O povo ficará como se o sol entrasse
Em trinta e seis milhões de límpidos espelhos!
Bem sabia Afonso Schimidt, que com estes versos eloqüentes e épicos estava
profetizando a revolução de 1930, que se vislumbrava nos horizontes do país,
preconizando um programa de reformas e anunciando uma promissora mensagem de
esperança.
Hoje, tudo terminou, os saudosos lenços colorados, brancos ou verdes não mais
existem, são apenas peças de museus, mas eles simbolizaram eloqüentemente os
anseios políticos e sentimentais de várias épocas da história rio-grandense,
pois eram a marca impagável, o sinete glorioso dos ideais guascos, de um tempo
em que os homens tinham mais vergonha, em que havia mais idealismo, em que não
se falava em lucros fáceis, em câmbio negro, em tubarões, em imoralidades
administrativas.
Os homens públicos, os políticos militantes, possuíam uma grande dose de
responsabilidade, de firmeza de atitude de pureza de caráter, e apesar dos erros
que porventura se lhes possam apontar, nutriam um desassombrado amor à nossa
terra.
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