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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

palhoça

ANO VI - EDIÇÃO 69
Agosto 2004

Palhoça
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O simbolismo dos lenços gaúchos, por José Egidio Farinha

A passagem era mais cara, nos bondes puxados a burro

Chico Santeiro, por Maria Rita
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Capa
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PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


O simbolismo dos lenços gaúchos

José Egídio Farinha

A história do uso das cores vermelha e branca data de tempos muito recuados como distintivos partidários, principalmente em lenços, mas também na fita de chapéus, em ponchos e bombachos.

Era costume originário das agitadas e turbulentas repúblicas do Prata.

Rosas, o tirano impiedoso que transformou a Argentina (1830-1852) numa fábrica de torturas cruéis, que aniquilou as liberdades e sufocou o exercício dos velhos partidos políticos, estabeleceu o uso obrigatório do vermelho como cor oficial. Aquele que tivesse o topete de se rebelar contra aquele uso era sistematicamente perseguido e seviciado, indo parar muitas vezes amarrado a um formigueiro bravo com o corpo besuntado de mel.

Quem tivesse a ousadia e o atrevimento de usar ostensivamentemente a cor azul celeste, — cor nacional do grande país irmão, que Rosas possuía verdadeira alergia, era degolado sem dó nem piedade ao som macabro da clássica mazurca.

O povo usava o vermelho, nas gravatas, bandas, barretes e laços com distintivos e dizeres.

Os guapos e fanáticos soldados rosistas tinham uniformes inteiramente vermelhos... Aí, felizmente, a cor encarnada era simbolo de opressão, de despotismo e exteriorizava um sonho de conquista e de poder discricionário, pois Rosas queria por todos os meios e modos implantar o vice-reinado do Prata.

No Uruguai, os dois tradicionais partidos políticos, encarniçados adversários, o Blanco e o Colorado, respectivamente  do feroz Leandro Gomez e do bravo Venâncio Flores, tinham por emblema o branco e o vermelho.

Daí, naturalmente, segundo a assertiva do historiador Clóvis Ribeiro, no seu livro erudito e fartamente ilustrado: Brasões e bandeiras do Brasil, se originaram os lenços encarnados e brancos rio-grandenses, como insígnias dos partidos políticos gaúchos.

Embora o uso do vermelho do Rio Grande do Sul, fosse tão adotado, que até os regimentos imperiais aquartelados no sul, usavam blusas ou túnicas encarnadas, rosa ou carmim, assim como chapéu ferrados de vermelho conforme se vêem nos figurinos militares de 1857.

Também no Paraguai, o uso do vermelho era muito generalizado, e na guerra, com o Brasil, os valentes soldados de Solano Lopes — que acalentou o sonho fabuloso de ser imperador, envergavam fardas vermelhas.

Os lenços rio-grandenses usados no pescoço apresentavam laços característicos, cada um dos quais designativos de cada revolução, em que os partidários de um e de outro credo político se enfrentavam no campo de luta.

O laço vistoso dos farrapos, era o laço que não desatava, igual de ambos os lados, e o nó sendo difícil de desatar, significava como era corrente na época a firmeza das convicções políticas e a inteireza de caráter daqueles patriotas.

Era o denominado laço farroupilha ou republicano (República de Piratinim).

Os lenços usados pelos farroupilhas foram importados dos Estados Unidos por um negociante de Montevidéu, Marcial Rodriguez, no depoimento do escritor Augusto Meyer, no seu Guia folclórico gaúcho, e traziam estampados a bandeira tricolor da República Rio-Grandense.

Os primeiros exemplares que chegaram à cidade do Rio Grande do Sul foram incinerados na alfândega, mas os que vieram por terra chegaram ao acampamento dos rebeldes em Piratinim, em terras de Manuel de Moura, no dia 3 de dezembro de 1843.

O tope farroupilha continuou a ser usado após a queda do Império por todos os partidos políticos indistintamente, tanto em lenços vermelhos como em lenços brancos. Houve mais tarde o laço "maragato" ou federalista, somente usado em lenços vermelhos, distintivo dos liderados do inesquecível lider político e verbo estelar do Império e do primeiro decênio republicano, Gaspar da Silveira Martins.

As camisas vermelhas instituídas pelo grande condotiere Garibaldi, tiveram sua inspiração nas túnicas encarnadas dos pampas rio-grandenses.

Por ocasião da revolução libertadora de 1923, os revolucionários de Felipe Portilho, Zeca Neco, Leonel Rocha, Estácio Azambuja e outros, adotaram como sinal emblemático o uso do lenço vermelho e os partidários da situação dominante, isto é, os adeptos de Borges de Medeiros, usavam lenços verdes (Quebrando acintosamente a tradição dos lenços brancos).

Havia nesse período convulsionado da vida rio-grandense, pequenos lenços de seda vermelha ou verde para uso no bolso da lapela, os primeiros traziam estampados o retrato do grande patriarca de Pedral Altas, Assis Brasil, — chefe civil da revolução libertadora, e os segundos ostentavam a efígie de Borges de Medeiros, que ainda vive na sua tranqüila mansão do Irapuazinho cercado da consideração dos rio-grandenses [em 1952] — de gregos e troianos, depois de um passado de lutas apaixonadas, mas com uma tradição de incorruptível republicano.

Na espetacular tomada de Pelotas em 29 de outubro de 1923, pelas forças intrépidas do saudoso general. Zeca Neto — aquele magnânimo caudilho com um a estampa garibaldina, a cidade que ficou repleta de lenços vermelhos, moços, velhos e mulheres ostentavam ao pescoço lenços grandes e pequenos, uma estrepitosa orgia de lenços coloridos.

Lembro-me vagamente, porque ainda muito menino (Ô poderosa retentiva da infância), que quando as tropas deixaram a cidade que as havia recebido de braços abertos, fomos, eu e meus pais, levar na bucólica tablada — e por sinal que os tradicionais maricás sulinos, floriam saudando a primavera, grande quantidade de fumo e uma profusão de lenços escarlates aos soldados revolucionários, os últimos piquetes que ainda se encontravam naquele local.

Na oportunidade da realização do histórico congresso de Bagé em 1928, do qual se originou a criação do Partido Libertador pelos federalista e democratas (os primeiros, seguidores da bandeira de Silveira Martins e os segundos, partidártios de Antonio Prado), o notável tribuno fluminense Maurício de Lacerda em magistral oração afirmava:

"O laço vermelho dos gaúchos é o tope de revolução nacional".

No mesmo conclave político o escritor e jornalista paulista Afonso Schimidt, enviado especial do O Estado de São Paulo, compôs estes magníficos e inspirados versos que transcrevo abaixo:

Quando o canhão rugiu da noite, um deus
Arrancou-lhe da boca a luz, e, com assombro,
Viu que tinha nas mãos, um farrapo vermelho,
E, sem saber porque, atirou-o no ombro.

O soldado que o viu fazer outro tanto e logo
Quando desabrochou nos longes o arrebol,
Pela cochilha azul vinte mil cavaleiros
Traziam no pescoço um punhado de sol.

Depois foi a nação. Quem tinha dentro d'alma
Uma gota de luz um palmo de seda
E tingiu-se de sangue e exarcou-a de sonho,
Desdobrou-a no céu como uma labareda.

É assim que amanhã, quando todos os homens,
Atarem ao pescoço os seus lenços vermelhos,
O povo ficará como se o sol entrasse
Em trinta e seis milhões de límpidos espelhos!

Bem sabia Afonso Schimidt, que com estes versos eloqüentes e épicos estava profetizando a revolução de 1930, que se vislumbrava nos horizontes do país, preconizando um programa de reformas e anunciando uma promissora mensagem de esperança.

Hoje, tudo terminou, os saudosos lenços colorados, brancos ou verdes não mais existem, são apenas peças de museus, mas eles simbolizaram eloqüentemente os anseios políticos e sentimentais de várias épocas da história rio-grandense, pois eram a marca impagável, o sinete glorioso dos ideais guascos, de um tempo em que os homens tinham mais vergonha, em que havia mais idealismo, em que não se falava em lucros fáceis, em câmbio negro, em tubarões, em imoralidades administrativas.

Os homens públicos, os políticos militantes, possuíam uma grande dose de responsabilidade, de firmeza de atitude de pureza de caráter, e apesar dos erros que porventura se lhes possam apontar, nutriam um desassombrado amor à nossa terra.

(Farinha, José Egídio. "O simbolismo dos lenços gaúchos". Diário de Minas. Belo Horizonte, 05 de outubro de 1952)