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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

oficina

ANO VI - EDIÇÃO 69
Agosto 2004

Oficina
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Os remeiros do rio São Francisco, por Joaquim Ribeiro

Operários de construção civil na fundação da cidade de Salvador, por Edison Carneiro

Horticultura, por Carlos Augusto Taunay
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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OFICINA - Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...


Horticultura

Carlos Augusto Taunay

Quando encomendamos encarecidamente a todo agricultor que consagre uma porção de terreno e de cuidados a uma horta, tomamos a obrigação de dizer algumas palavras sobre esta ramificação da grande arte de cultivar a terra, podendo-se proclamar que a horticultura é à agricultura na razão da miniatura à pintura histórica, pois que se não dá grandes resultados e extensíssimas colheitas, ela sobressai, pelo acabado e o engraçado, não havendo quem possa negar que a vida civilizada deve à horticultura suas mais inocentes e agradáveis comodidades e recreações, a ponto de se poder medir o grau de civilização pelo apuro da arte de cultivar os jardins e as hortas, cujo entretenimento fez desde a mais remota Antigüidade as delícias dos reis e dos sábios, dos guerreiros e das belas nos dias de glória, e a sua consolação nas horas da velhice, da infelicidade ou do desengano; ultimamente uma horta foi a primeira habitação do homem ainda no primor da sua diota inocência, e as almas dos justos vão receber o prêmio das suas virtudes em maravilhosos jardins.

O Brasil, por privilégio de posição e clima, e profusão dos bens da natureza, oferece o aspecto de um magnífico jardim, e a tal ponto que os primeiros descobridores assentaram que tinham achado a sé do paraíso terrestre; em semelhante país a horticultura oferece poucas dificuldades a vencer; já observamos que todos os vegetais cultivados ou cultiváveis podiam-se ajuntar nele, e acrescentaremos que graças à horticultura, no mesmo ponto, e quiçá na superfície de uma légua quadrada, bastaria escolher um terreno variado de brejos e morros, e bem regado de águas com certas exposições às virações, e outras abrigadas, para criar um panorama da vegetação do globo.

Porém, aonde a natureza dá muito, o homem se descuida, e não obstante as maiores facilidades a arte horticultural acha-se no Brasil no mesmo ponto de atraso do que as mais. Somente ao redor das cidades e nas propriedades de certos agrônomos que se adiantaram a seu tempo, vimos já ensaios notáveis e progressos; o resto oferece apenas algum canto, ao qual uma ou duas espécies de couve, de pimenta, de quigombó e de pepino, misturadamente plantados, merecem o título de horta, e esta magnificência falta à parte das fazendas.

É preciso confessar que o estado colonial explica e desculpa a indiferença do brasileiro para qualquer aperfeiçoamento social. O dobrado jugo do despotismo e da superstição acanhava-o, debaixo dos grilhões da rotina e costume, ao escasso passadiço de que por necessidade os descobridores se contentaram. Mas o tempo da libertação chegou, e, verdadeiramente, desde a vinda da corte e dos estrangeiros, observaram-se grandes melhoramentos em vários ramos de agricultura. Nos arredores do Rio de Janeiro a horticultura tem se estendido muito; poucas hortaliças e legumes há que hoje não apareçam na quitanda; com efeito, talvez não exista no mundo situação mais propícia para desenvolvimento da arte engraçada do hortelão do que a da corte. As vargens da beira-mar criam quantos vegetais o sol dos trópicos sazona, enquanto a serra da Tijuca e as mais serras vizinhas hospedam as plantas européias com tal carinho que não podem ter saudades do solo natalício. Portanto vemos o morango, o pêssego, as maçãs, as alcachofras, couve-flores, rivalizar nas mesas com os ananases, as mangas, os abacates etc. podendo-se considerar Rio de Janeiro como o rendez-vous de todos os dons que Pomona e Vetumno têm repartido entre todas as regiões do globo.

Que será pois quando uma incansável aplicação promovida pelointeresse e guiada pela experiência tiver elevado a arte ao grau de perfeição que nos países mais maltratados da natureza, como Estocolmo ou São Petersburgo, sabe produzir milagres, e no solo natalício dos gelos e neves chegar a ponto de sazonar o ananás, glória do Equador e imperador coroado de todas as tribos de frutas de ambos os hemisférios.

Verdadeiramente as novas qualidades de frutas e legumes, e variedades aperfeiçoadas das espécies hoje conhecidas, hão de chegar a um tal auge, seja no número ou na qualidade, que mal nós podemos fazer idéia de que há de ser quando a ciência e a experiência, de mãos dadas, tiverem trabalhado dois ou três séculos sobre os tipos que hoje fazem nossas delícias. Estes gostos ficam reservados aos nossos vindouros; porém, a glória de iniciar esta nova era está a nosso alcance, e se o tratamento e o enxerto têm obtido na Europa dos bravos e amargosos bagos das pereiras, macieiras, pessegueiros silvestres, saborosíssima descendência, com quanto maior razão nos podemos lisonjear de obter pelos mesmos meios das nossas árvores frutíferas, cujas frutas são naturalmente deliciosas e perfeitas, produtos que desde a aurora da criação dada aos seus progenitores retribuíram pela refinação das suas boas qualidades os nossos cuidados e desvelos; porém, os detalhes mais amplos sobre este assunto pertencem ao capítulo seguinte, no qual trataremos dos pomares.

A horticultura se ocupa na cultura dos legumes, árvores frutíferas e das flores, e, conforme se aplica especialmente a qualquer destas culturas, apelida o terreno emque trabalha, horta, pomar e jardim de flores; o nome genérico de jardim abrange estas três repartições raras vezes isoladas. Ultimamente quando a horticultura se eleva ao arranjo e disposição geral de uma propriedade de luxo para obter vistas pinturescas e efeitos gerais de gosto e perspectiva pela combinação dos acidentes do terreno, plantações, matos, construções, ruínas, águas e caminhos; ela passa à dignidade de arte liberal e o indivíduo que a cultiva toma o nome de horticultor paisagista. Esta arte, nascida na Inglaterra, está, por bem dizer, desconhecida entre nós; porém a natureza nos dispensa de recorrer a ela, e nos tem mimoseado com mão tão pródiga em matos virgens, abundância de águas correntes, e luxuriante vegetação de milhares de plantas elegantíssimas, que o engenho mais fecundo mal poderia aumentar as naturais belezas de prospectos que somente no artigo dos meios de comunicação podem ganhar alguma coisa com os auxílios da arte.

A horticultura, por atrasada que seja entre nós, já sai da nossa alçada pelo que diz respeito às moradias dos ricos proprietários; porém a humilde horta do fazendeiro que mora longe ainda necessita de nossa atenção e nossos consolos. A este pois diremos brevemente que ele deve escolher para assento do seu jardim um brejo de massapé, regado por um corgo ou uma fonte. Este terreno, depois de cercado em quadro com tanta exatidão que nem gado nem criação alguma do quintal possa entrar, deve ser repartido em quatro canteiros grandes, por duas ruas de braça e meia ou duas braças de largo, conforme o tamanho, que se cortam a ângulos direitos, e que vão dar em outras quatro ruas iguais em largura, que dãoa roda interior do cercado. Os ditos canteiros são da mesma forma divididos em quatro repartições iguais por duas ruas de metade da largura das principais, e cada canteiro destes dividido em canteirinhos de sete palmos de largo e do comprimento do canteiro, por separações de um palmo de largura. estes canteirinhos são então plantados a cordel na direção do comprimento, geralmente em cinco fileiras, a mor parte das hortaliças carecendo de espaço de um palmo para vegeatr a seu sabor; aliás, estas medidas variam, conforme o tamanho da planta e mesmo qualidade do terreno.

Fica escusado o recomendar de secar previamente, por valas e fossos paralelos à rua, os terrenos alagadiços, e mesmo quando a abundância de águas o permitor, de dividir ada canteirinho do outro por um fosso úmido ou de água corrente. Esta distribuição facilita a irrigação tão necessária para as hortas em qualquer país, e indispensável nos climas entretropicais: as freqüentes irrigações e o uso das esteiras ou girões cobertos de folhas de bananeiras, e outras de iguais dimensões que os matos fornecem com fartura, permitirá durante o maior ardor do sol conservar as hortaliças mais delicadas até nos meses do estio mais vigoroso.

O modelo de hortas que delineamos pode servir de tipo, variando-o conforme as localidades; uma das condições é que seja mais próxima à casa que for possível, para que os cuidados e vigias da família sejam diários, pois além da utilidade dos produtos ela proporciona o mais inocente e profícuo divertimento que os donos e seus filhos possam ter na vida do campo.

O asseio, a regularidade e nivelamento das ruas e canteiros são quesitos primordiais. As ruas devem ser forradas de areia para realce, e guarnecidas de árvores frutíferas de mediano tamanho e aspecto grato, quais as laranjeiras, para sombra e recreio. As ruas secundárias pedem da mesma forma ser bordadas por arbustos de produto. As arraseiras mirim e da Índia são de primor para o tal serviço.

Aconselharemos igualmente ao agricultor que consagre às flores os canteirinhos próximos às ruas. Estas mimosas produções da natureza formam o luxo do campo, e um enfeite mais engraçado do que quantos a civilização mais refinada tem podido imaginar. Inútil fica, no fim de tantas recomendações, acrescentar que tudo quanto pertence à horta deve ser feito a cordel e por medida. É preciso pois precaver-se de cordéis e cordetes com seus dois lançotes, assim como de pás, enxadinhas de bico, ancinhos, sacolas etc.

Se o dono da fazenda reunir à sua horta uma vargem de terreno algum tanto mais seco, se bem que excelente, e um outeiro de declive suave, e os plantar de árvores frutíferas de todas as qualidades por ruas, de cada espécie ou misturadamente, ele terá o direito de se gabar que se soube senhorear de tudo quanto a natureza pode oferecer de mais delicioso, aprazível e verdadeiramente útil ao homem industrioso, e a fartura, salubridade e economia, tanto da sua mesa como da de seus escravos, dobrarão com só desviar o trabalho anual de dois escravos, e não dos possantes, da sua lavoura especial.

Sendo o mesmo terreno em contínuo produto fica claro, por mais fértil que seja, ele havia de se esgotar, se o não refizessem de quando em quando. Lá pois irão ter os resíduos e lixos das casas e estrebarias, os antigos depósitos de bagaço reduzidos a estrume de qualidade superior, e outros estercos tão abundantes emqualquer estabelecimento agrícola. As mesmas limpas das valas e fossos são excelentes para engordar o terreno bem como o húmus dos matos virgens, a cinza de vegetais etc. etc.

Quase que todas as hortaliças pedem o mesmo tratamento; semear em viveiros, transplantar as mudas em terreno limpíssimo e mui fofo, por ter sido duas ou três vezes virado com a enxada ou pá, e nivelado com o ancinho, tais são com as limpas e regações os cuidados gerais que exigem. (...)

[1839]

(Taunay, Carlos Augusto. Manual do agricultor brasileiro. São Paulo, Companhia das Letras, 2001, p.214-231)