|
Zé do Norte
Caipora, como é chamado nos estados do Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte,
Pernambuco etc., é o verdadeiro terror dos caçadores e dos cachorros de caça.
Caipora ou mais verdadeiramente Cá-á-Póra (que na língua brasileira quer
dizer espírito perverso, mentiroso, enganador, semelhante ao espírito mau, a que
também dão o nome de Mani-coré, possui o dom das metamorfoses). Uma vez
apresenta-se com aspecto e roupagens femininas, outras, de um menino, cachorro
ou de qualquer outro animal. Toda a vez que pratica qualquer façanha contra
alguém, começa a dar gargalhadas, assobios, gritos estridentes, em sinal de
regozijo.
Todo caçador que entra na mata na segunda ou sexta-feira, não traz a caça e
está sujeito a muitos perigos. Em muitas caçadas que tomei parte, vi coisas
extraordinárias. Vi cachorros apanhando e gritando, mas não via ninguém. O que
seria então? O que faria o leitor se testemunhasse esse espetáculo? Tenho quase
certeza de que a carreira era grande e precipitada. Muitas vezes tive vontade de
correr. Por exemplo:
Certa vez fizemos uma caçada em Forno velho, na Serra da Cheirosa que, para
mim, foi a mais impressionante da minha vida no sertão. O grupo de caçadores era
composto de seis homens de responsabilidade e um menino, que era eu. Bons
cachorros, boas espingardas e muita munição.
O velho João Ferreira, que era o mais idoso do grupo, estava contando
histórias de caçadas. Inopinadamente apareceu um cachorro de formas e tamanho
desproporcionais, assemelhando-se mais a um leão. O velho ordenou que ninguém
mexesse com o aludido animal. Os outros cães, que ainda permaneciam amarrados,
ficaram tremendo de medo. Ele, aproximando-se de cada um de nós, farejou os pés
sem dar um latido, atirou-se para cima dos cães, que, imediatamente, foram
soltos para se defenderem. Eram cinco cães de fama e todos cinco desceram
apanhando de serra abaixo que fazia dó ouvir-se os seus lancinantes uivos de
dor. Logo depois voltaram tão assombrados e cansados que não valiam mais um
cadelo velho, comedor de sabão. Instantes após, ouvimos gargalhadas e assobios
que faziam arreíar até os cabelos de um morto.
Sendo o velho João Ferreira um caçador muito antigo e, por sinal,
catimbozeiro e mandraqueiro, mandou que todos rezassem com ele a seguinte oração
para espantar a caipora:
Meu São José carpinteiro
E João Batista caçadô
Acudi-me, rei da mata
Socorrei-me, pai Xangô
Valei-me, Santa Quitéria
Santa Rita e Santa Aurora
Pelas chagas de Jesus
O fio de Nossa Senhora
Mandai um anjo do céu
Pra corrê com essa caipora
Terminada a oração, verificamos que era madrugada, portanto, estávamos fora
da perseguição caiporáica.
Além dessa façanha que testemunhei, de visu, dicersas ocorreram
noutras caçadas no sertão e com outros caçadores.
Contava o velho João Ferreira que, certo caçador, para se ver livre das
perseguições da caipora, fez um trato com a mesma, dizendo: "Se a senhora
caipora me deixar caçar descansado e me ajudar a matar muita caça, eu lhe trago
fumo e cachaça e o que a senhora me pedir". Então a caipora aceitou a proposta
com as seguintes condições: "Toda vez que você vier caçar tem que trazer-me
fumo, cachaça, um cachimbo e um pirão de corredô sem pimenta. Se você botar
pimenta, nunca mais lhe darei caça e dou-lhe uma surra de levantar fuá. Está
feito?" E o caçador: "Está, seim senhora". A caipora concluiu: "Então, tome
cuidado".
O caçador, chegando à casa, recomendou que tivessem muito zelo e todo cuidado
para não pôr alho nem pimenta na comida da caipora. Porém, traiçoeiramente, a
mulher, depois de obedecer ao marido curante muito tempo, resolveu fazer o
contrário e esperar o resultado.
O pobre caçador, muito alegre e contente, sem saber da falsidade de sua
mulher, juntamente com o seu cachorrinho, que tanto lhe ajudava na vida, entrou
na mata e deixou a encomenda no lugar marcado e ficou esperando a caipora, que
não tardou muito.
Quando esta botou a comida na boca e sentiu o alho e a pimenta, ficou tão
indignada e tão furiosa que pegou o pobre inocente caçador e deu-lhe uma pisa
tão grande que o pobrezinho foi para casa arrastando-se.
Outro caçador, de nome Raimundo Carambola, contou que certa vez viu a caipora
em forma de um moleque, montado em um veado, campeando paca, tatu, cotia e
muitos outros animais. Ele, então, chamou a caipora e pediu: "Eu quero que a
senhora me dê licença para caçar em qualquer dia da semana e a qualquer hora do
dia". Entã, respondeu-lhe a caipora: "Segunda-feira não podes, porque é o dia em
que passo revista em todos os animais. Ao sair do sol também não podes, porque é
a hora em que o rei da natureza quer avistar sobre a terra tudo que criou. Ao
meio-dia é a hora do descanso, para todos. Ao pôr-do-sol, também não podes,
porque é justamente a hora em que toda a natureza deve prestar homenagem ao sol
e render graças à Santíssima Trindade". E oferecendo muita caça a Raimundo
Carambola, disse-lhe: "Se me obedecer, serei sua amiga e quando precisar de mim
é só chamar-me".
|