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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

imaginário

ANO VI - EDIÇÃO 69
Agosto 2004

Imaginário
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Três histórias narradas por Dalmácia Ferreira Nunes

Caiporas, por Zé do Norte

Porque é triste o jaburu, por Hélio Serejo
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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As cartas, opiniões e pedidos dos nossos leitores
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IMAGINÁRIO - Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...


Caiporas

Zé do Norte

Ilustração de Marcos JardimCaipora, como é chamado nos estados do Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte, Pernambuco etc., é o verdadeiro terror dos caçadores e dos cachorros de caça. Caipora ou mais verdadeiramente Cá-á-Póra (que na língua brasileira quer dizer espírito perverso, mentiroso, enganador, semelhante ao espírito mau, a que também dão o nome de Mani-coré, possui o dom das metamorfoses). Uma vez apresenta-se com aspecto e roupagens femininas, outras, de um menino, cachorro ou de qualquer outro animal. Toda a vez que pratica qualquer façanha contra alguém, começa a dar gargalhadas, assobios, gritos estridentes, em sinal de regozijo.

Todo caçador que entra na mata na segunda ou sexta-feira, não traz a caça e está sujeito a muitos perigos. Em muitas caçadas que tomei parte, vi coisas extraordinárias. Vi cachorros apanhando e gritando, mas não via ninguém. O que seria então? O que faria o leitor se testemunhasse esse espetáculo? Tenho quase certeza de que a carreira era grande e precipitada. Muitas vezes tive vontade de correr. Por exemplo:

Certa vez fizemos uma caçada em Forno velho, na Serra da Cheirosa que, para mim, foi a mais impressionante da minha vida no sertão. O grupo de caçadores era composto de seis homens de responsabilidade e um menino, que era eu. Bons cachorros, boas espingardas e muita munição.

O velho João Ferreira, que era o mais idoso do grupo, estava contando histórias de caçadas. Inopinadamente apareceu um cachorro de formas e tamanho desproporcionais, assemelhando-se mais a um leão. O velho ordenou que ninguém mexesse com o aludido animal. Os outros cães, que ainda permaneciam amarrados, ficaram tremendo de medo. Ele, aproximando-se de cada um de nós, farejou os pés sem dar um latido, atirou-se para cima dos cães, que, imediatamente, foram soltos para se defenderem. Eram cinco cães de fama e todos cinco desceram apanhando de serra abaixo que fazia dó ouvir-se os seus lancinantes uivos de dor. Logo depois voltaram tão assombrados e cansados que não valiam mais um cadelo velho, comedor de sabão. Instantes após, ouvimos gargalhadas e assobios que faziam arreíar até os cabelos de um morto.

Sendo o velho João Ferreira um caçador muito antigo e, por sinal, catimbozeiro e mandraqueiro, mandou que todos rezassem com ele a seguinte oração para espantar a caipora:

Meu São José carpinteiro
E João Batista caçadô
Acudi-me, rei da mata
Socorrei-me, pai Xangô
Valei-me, Santa Quitéria
Santa Rita e Santa Aurora
Pelas chagas de Jesus
O fio de Nossa Senhora
Mandai um anjo do céu
Pra corrê com essa caipora

Terminada a oração, verificamos que era madrugada, portanto, estávamos fora da perseguição caiporáica.

Além dessa façanha que testemunhei, de visu, dicersas ocorreram noutras caçadas no sertão e com outros caçadores.

Contava o velho João Ferreira que, certo caçador, para se ver livre das perseguições da caipora, fez um trato com a mesma, dizendo: "Se a senhora caipora me deixar caçar descansado e me ajudar a matar muita caça, eu lhe trago fumo e cachaça e o que a senhora me pedir". Então a caipora aceitou a proposta com as seguintes condições: "Toda vez que você vier caçar tem que trazer-me fumo, cachaça, um cachimbo e um pirão de corredô sem pimenta. Se você botar pimenta, nunca mais lhe darei caça e dou-lhe uma surra de levantar fuá. Está feito?" E o caçador: "Está, seim senhora". A caipora concluiu: "Então, tome cuidado".

O caçador, chegando à casa, recomendou que tivessem muito zelo e todo cuidado para não pôr alho nem pimenta na comida da caipora. Porém, traiçoeiramente, a mulher, depois de obedecer ao marido curante muito tempo, resolveu fazer o contrário e esperar o resultado.

O pobre caçador, muito alegre e contente, sem saber da falsidade de sua mulher, juntamente com o seu cachorrinho, que tanto lhe ajudava na vida, entrou na mata e deixou a encomenda no lugar marcado e ficou esperando a caipora, que não tardou muito.

Quando esta botou a comida na boca e sentiu o alho e a pimenta, ficou tão indignada e tão furiosa que pegou o pobre inocente caçador e deu-lhe uma pisa tão grande que o pobrezinho foi para casa arrastando-se.

Outro caçador, de nome Raimundo Carambola, contou que certa vez viu a caipora em forma de um moleque, montado em um veado, campeando paca, tatu, cotia e muitos outros animais. Ele, então, chamou a caipora e pediu: "Eu quero que a senhora me dê licença para caçar em qualquer dia da semana e a qualquer hora do dia". Entã, respondeu-lhe a caipora: "Segunda-feira não podes, porque é o dia em que passo revista em todos os animais. Ao sair do sol também não podes, porque é a hora em que o rei da natureza quer avistar sobre a terra tudo que criou. Ao meio-dia é a hora do descanso, para todos. Ao pôr-do-sol, também não podes, porque é justamente a hora em que toda a natureza deve prestar homenagem ao sol e render graças à Santíssima Trindade". E oferecendo muita caça a Raimundo Carambola, disse-lhe: "Se me obedecer, serei sua amiga e quando precisar de mim é só chamar-me".

(NORTE, Zé do. Brasil sertanejo. Rio de Janeiro, Artes Gráficas, 1948, p.66-68)