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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

festança

ANO VI - EDIÇÃO 69
Agosto 2004

Festança
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Campo de ação do folclore

A carta que é uma certidão de nascimento, por Renato Almeida

Cacuriá
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Capa
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


A carta que é uma certidão de nascimento

Renato Almeida

Artigo publicado em agosto de 1962

 

No dia 22 deste mês comemora-se o 116º aniversário da criação da palavra folclore, pois foi nesse dia que a revista londrina The Atheneum publicou uma carta do arqueólogo inglês Wiliam John Thoms, sob o pseudônimo de Ambrose Merton, propondo que as chamadas então Antigüidades Populares passassem a ser designadas com uma boa palavra anglo-saxônica folk-lore, o saber tradicional do povo.

O termo muito rico, depois de certas reservas, se universalizou e a sua grafia foi adaptada aos vários idiomas, além de que as suas raízes — folk, povo, e lore, sabedoria, tiveram emprego separadamente: sociedade, folk, lore dos camponeses e se prestaram à criação de numerosas palavras, como folk-música ou folcliteratura.

É interessante divulgar o texto da carta de W. J. Thoms, que é a certidão de nascimento da palavra folclore, da palavra, é claro, porque a sabedoria popular é tão velha quanto o homem.

Eis o teor do interessante documento, que The Atheneum, de Londres, publicou em seu número 982 [de 22 de agosto de 1846]:

"As suas páginas mostraram amiúde o interesse que toma por tudo quanto chamamos na Inglaterra, 'antigüidades populares', 'literatura popular', (embora sejamais precisamente, um saber popular do que uma literatura e poderia ser com mais propriedade designado com uma boa palavra anglo-saxônica, folk-lore, o saber tradicional do povo), que não perdi a esperança de conseguir a sua colaboração na tarefa de recolher as poucas espigas que ainda restam espalhadas no campo no qual os nossos antepassados poderiam ter obtido uma boa colheita.

Quem quer que tenha estudado os usos, costumes, cerimônias, crenças, romances, refrãos, superstições etc. dos tempos antigos deve ter chegado a duas conclusões: a primeira, quanto existe de curioso e de interessante nesses assuntos, agora inteiramente perdidos; a segunda, quanto se poderia ainda salvar, com esforços oportunos, o que Hene procurou fazer com seu Every-day book etc., o Atheneum, com sua larga circulação, pode conseguir com eficácia dez vezes maior — reunir um número infinito de fatos minuciosos que ilustram a matéria mencionada, que vivem esparsos na memória dos seus milhares de leitores, e conservá-los em suas páginas até que surja um James Grimm e preste à mitologia das Ilhas Britânicas o bom serviço que o profundo tradicionalista e filólogo prestou à mitologia da Alemanha. Este século dificilmente terá produzido mais notável imperfeito como seu próprio autor confessa na segunda edição de Deutsche Mythologic. E que é isso? — uma soma de pequenos fatos, muitos dos quais, tomados separadamente, parecem triviais e insignificantes, mas quando considerados em conjunto com o sistema no qual os entrelaçou sua grante mentalidade, adquirem então um valor que jamais sonhou atribuir-lhes o que primeiro os recolheu.

Quantos fatos semelhantes uma só palavra evocaria, do Norte e do Sul, de John O'Grot à Ponta da Terra! Quantos leitores ficariam contentes em manifestar-lhe seu reconhecimento pelas notícias que lhes transmite todas as semanas, enviando algumas recordações dos tempos antigos, uma lembrança de qualquer uso atualmente esquecido, de alguma lenda em desaparecimento, de alguma tradição regional, de algum fragmento de balada.

Tal serviço não seria apenas para o tradicionalista inglês. A conexão entre o folk lore da Inglaterra (lembre-se de que reclamo a honra de haver introduzido a denominação folk-lore, como Disrael introduziu fatherland na literatura deste país) e o da Alemanha é tão íntima que essas comunicações servirão provavelmente para enriquecer uma futura edição da mitologia de Grimm. Deixe-me dar um exemplo dessas relações: num capítulo de Grimm, que trata largamente do papel do cuco na mitologia popular — do caráter profético que lhe deu a voz do povo —, cita muitos casos de derivar predições do número de vezes que seu canto é ouvido. E menciona também uma versão popular "que o cuco nunca canta antes de se ter fartado, três vezes, de cerjas". Agora, fui recentemente informado de um costume que existia outrora em Yorkshire, que ilustra o fato da conexão entre o cuco e a cereja — e isso, também em seus atributos proféticos. Um amigo me comunicou que crianças em Yorshire costumavam antigamente (e talvez ainda costumem) a cantar uma roda em torno da cerejeira com a seguinte invocação:

Cuco, cerejeira
Venham cá e nos digam
Quantos anos teremos de vida

Cada menino sacudia a árvore e o número de cerejas derrubadas indicava o número de anos de vida futura.

Eu sei que o verso infantil que citei se conhece bem; a maneira, porém, de aplicá-lo não foi anotada por Hene, Brande ou Ellis — e é um desses fatos que, insignificantes em si mesmos, têm grande importância quando formam elos de uma grande cadeia e um desses fatos que uma palavra do Atheneum recolheria em abundância para o uso de futuros investigadores no interessante ramo das antigüidades literárias — nosso Folk-lore. Ambrose Merton"

(Almeida, Renato. "Celebra-se este mês o 116º aniversário da palavra folclore; A carta que é uma certidão de nascimento". Jornal de Letras. Rio de Janeiro, agosto de 1962)