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Renato Almeida
Artigo publicado em agosto de 1962
No dia 22 deste mês comemora-se o 116º aniversário da criação da palavra
folclore, pois foi nesse dia que a revista londrina The Atheneum publicou
uma carta do arqueólogo inglês Wiliam John Thoms, sob o pseudônimo de Ambrose
Merton, propondo que as chamadas então Antigüidades Populares passassem a ser
designadas com uma boa palavra anglo-saxônica folk-lore, o saber
tradicional do povo.
O termo muito rico, depois de certas reservas, se universalizou e a sua
grafia foi adaptada aos vários idiomas, além de que as suas raízes — folk,
povo, e lore, sabedoria, tiveram emprego separadamente: sociedade,
folk, lore dos camponeses e se prestaram à criação de numerosas
palavras, como folk-música ou folcliteratura.
É interessante divulgar o texto da carta de W. J. Thoms, que é a certidão de
nascimento da palavra folclore, da palavra, é claro, porque a sabedoria
popular é tão velha quanto o homem.
Eis o teor do interessante documento, que The Atheneum, de Londres,
publicou em seu número 982 [de 22 de agosto de 1846]:
"As suas páginas mostraram amiúde o interesse que toma por tudo quanto
chamamos na Inglaterra, 'antigüidades populares', 'literatura popular', (embora
sejamais precisamente, um saber popular do que uma literatura e poderia ser com
mais propriedade designado com uma boa palavra anglo-saxônica, folk-lore,
o saber tradicional do povo), que não perdi a esperança de conseguir a sua
colaboração na tarefa de recolher as poucas espigas que ainda restam espalhadas
no campo no qual os nossos antepassados poderiam ter obtido uma boa colheita.
Quem quer que tenha estudado os usos, costumes, cerimônias, crenças,
romances, refrãos, superstições etc. dos tempos antigos deve ter chegado a duas
conclusões: a primeira, quanto existe de curioso e de interessante nesses
assuntos, agora inteiramente perdidos; a segunda, quanto se poderia ainda
salvar, com esforços oportunos, o que Hene procurou fazer com seu Every-day
book etc., o Atheneum, com sua larga circulação, pode conseguir com
eficácia dez vezes maior — reunir um número infinito de fatos minuciosos que
ilustram a matéria mencionada, que vivem esparsos na memória dos seus milhares
de leitores, e conservá-los em suas páginas até que surja um James Grimm e
preste à mitologia das Ilhas Britânicas o bom serviço que o profundo
tradicionalista e filólogo prestou à mitologia da Alemanha. Este século
dificilmente terá produzido mais notável imperfeito como seu próprio autor
confessa na segunda edição de Deutsche Mythologic. E que é isso? — uma
soma de pequenos fatos, muitos dos quais, tomados separadamente, parecem
triviais e insignificantes, mas quando considerados em conjunto com o sistema no
qual os entrelaçou sua grante mentalidade, adquirem então um valor que jamais
sonhou atribuir-lhes o que primeiro os recolheu.
Quantos fatos semelhantes uma só palavra evocaria, do Norte e do Sul, de John
O'Grot à Ponta da Terra! Quantos leitores ficariam contentes em manifestar-lhe
seu reconhecimento pelas notícias que lhes transmite todas as semanas, enviando
algumas recordações dos tempos antigos, uma lembrança de qualquer uso atualmente
esquecido, de alguma lenda em desaparecimento, de alguma tradição regional, de
algum fragmento de balada.
Tal serviço não seria apenas para o tradicionalista inglês. A conexão entre o
folk lore da Inglaterra (lembre-se de que reclamo a honra de haver
introduzido a denominação folk-lore, como Disrael introduziu
fatherland na literatura deste país) e o da Alemanha é tão íntima que essas
comunicações servirão provavelmente para enriquecer uma futura edição da
mitologia de Grimm. Deixe-me dar um exemplo dessas relações: num capítulo de
Grimm, que trata largamente do papel do cuco na mitologia popular — do caráter
profético que lhe deu a voz do povo —, cita muitos casos de derivar predições do
número de vezes que seu canto é ouvido. E menciona também uma versão popular
"que o cuco nunca canta antes de se ter fartado, três vezes, de cerjas". Agora,
fui recentemente informado de um costume que existia outrora em Yorkshire, que
ilustra o fato da conexão entre o cuco e a cereja — e isso, também em seus
atributos proféticos. Um amigo me comunicou que crianças em Yorshire costumavam
antigamente (e talvez ainda costumem) a cantar uma roda em torno da cerejeira
com a seguinte invocação:
Cuco, cerejeira
Venham cá e nos digam
Quantos anos teremos de vida
Cada menino sacudia a árvore e o número de cerejas derrubadas indicava o
número de anos de vida futura.
Eu sei que o verso infantil que citei se conhece bem; a maneira, porém, de
aplicá-lo não foi anotada por Hene, Brande ou Ellis — e é um desses fatos que,
insignificantes em si mesmos, têm grande importância quando formam elos de uma
grande cadeia e um desses fatos que uma palavra do Atheneum recolheria em
abundância para o uso de futuros investigadores no interessante ramo das
antigüidades literárias — nosso Folk-lore. Ambrose Merton"
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