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Anna Marina
Se você pensa na Bahia, pensa logo em acarajé, abará, vatapá, cocada, comidas
típicas, comidas folclóricas, vindas todas elas dos escravos, e muitas saídas ou
incorporadas aos cultos dos negros, como a deliciosa farofa de dendê, que por
mais que a gente faça aqui no "sul", não tem o sabor da baiana, feita com o puro
azeite destilado da flor do dendê e misturado com farinha "de água".
E Minas? Onde está sua comida folclórica? O escritor Eduardo Frieiro faz a
pergunta em seu livro mais deixa a dúvida: Minas tem e não tem comida típica.
Mas a vida do negro, ligada ao folclore, tinha sempre feijão e angu. No mesmo
livro Frieiro diz: "A alimentação (do negro) quase sempre não passava de feijão
bichado e angu mal cozido. Em outros casos a pobre besta escravizada tinha de se
contentar com a laranja, banana e farinha de mandioca. E toca a trabalhar. Assim
como ficou no nosso folclore.
Comida de negro brabo:
Quatros laranjas num gaio
Uma cuia de farinha
Cinco pontas de vergaio"
O certo é que o forte de nossa cozinha típica está baseada na carne de porco
(o lombo, o torresmo, a lingüiça, o leitão assado), no feijão (tropeiro ou
tutu), na couve e no arroz, na mandioca cozida. A galinha também não fica de
fora e era a salvação nas fazendas quando chegava um hóspede inesperado, a canja
das gestantes obrigadas a comer quarenta dias, durante o resguardo. Dos dias de
festa e dos dias de dor. Assim o, nosso frango ao molho pardo com quiabo e angu
é irmão gêmeo da galinha de cabidela do Norte — comida que veio com o negro da
África.
Segredo da simplicidade
Antigamente esses pratos eram diários e comuns — ninguém convidava ninguém para
comer um feijão tropeiro. Hoje, com as dietas em que todos vivem, que
transformam o cardápio diário numa monotonia de salada e bife grelhado, um
feijão tropeiro bem feito é um manjar dos deuses — comida de festa, de muito
repetir. Mas na sua simplicidade tem também seus segredos — que a comida
simples, como todos sabem, é a mais difícil de fazer.
Feijão tropeiro
Feijão mulatinho cozido - ovos (1 por pessoa) - cebola - tomates - torresmos
bem secos - cheiros verdes - vinagre - farinha - pimentas
Escorra muito bem o feijão de todo o seu caldo. Coloque numa frigideira uma boa
porção de gordura de porco. Quebre os ovos um a um. Deixe fritar e quando
estiverem quase duros corte com a colher. Coloque um pouco de alho socado.
Acrescente o feijão, tomates picados bem miúdo e os cheiros verdes. Deixe
refogar bem. Junte um pouco de vinagre (que dá um gosto especial ao feijão) e
os torresmos, e a farinha, e a pimenta do reino e malagueta. Coloque o feijão
numa travessa grande, cercado por uma coroa de lingüiça frita e outra de couve
bem verdinha.
Experimente junto mandioca cozida com sal.
Feijão preguiçoso
Escorra muito bem o feijão ainda quente. Coloque numa travessa funda. O feijão
já deve estar salgado. Cubra com farinha de mandioca. Cubra a farinha com
rodelas de cebola crua. Escalde tudo com uma boa porção de banha de porco
fervente. Coma com leitão assado.
Tutu de feijão
Doure em bastante gordura de porco um pouco de alho e uma boa porção de cebola
ralada. Junte o feijão cozido (mulatinho ou preto) com o caldo, acrescente
cheiros verdes e tempere tudo com sal e pimenta. Vá mexendo e juntando farinha
de mandioca até conseguir uma boa consistência (de pirê). Coloque numa travessa
e enfeite com rodelas de ovo cozido, azeitonas verdes e cebola crua. Sirva com
leitão, costeleta, lingüiça e muita couve refogada.
Muita gente prefere fazer o tutu depois de ter passado o feijão no
liquidificador. Fica mais fino, mas o autêntico mesmo é o feito com grão
inteiros.
Lombo à mineira
Tome um lombo de bom tamanho, limpe do excesso de gordura e deixe de molho em
água fria, durante 1 ou 2 horas (para o sangue sair e a carne ficar bem
branquinha). Depois escorra a água, fure todo o lombo com um espeto próprio.
Tempere com uma vinha-d'alho feita com sal, pimenta do reino, pimenta malagueta,
bastante limão, folhas de louro socadas junto com o alho. Deixe de molho se
possível de um dia para o outro. Retire o lombo do tempero, limpe e leve para
assar em tabuleiro. Cõe a vinha de alho para retirar os temperos (que ao assar
queimariam no forno e dariam um gosto desagradável ao lombo) e vá juntando
lentamente ao lombo, até que fique cozido e dourado. Quando estiver assado,
retire-o da assadeira o excesso de gordura e faça uma farofa com o restante, que
os antigos chamavam de "pé-da-carne" (porque sempre ficam uns pedacinhos presos
no fundo da forma) e um pouco de noz moscada, também ralada. Coloque o lombo de
um lado da travessa, enfeitado com rodelas de limão e do outro coloque a farofa,
bem douradinha e saborosa.
Esse é o típico lombo mineiro, que não leva nenhum vinho no seu preparo, assim
como sua farofa não leva nenhuma passa, nem maça, nem miúdos, nem azeitona: é a
farinha pura e simples, temperada com o delicioso "pé-da-carne".
Frango ao molho pardo
Para fazer um frango ao molho pardo mais gostoso, dê preferência ao frango mais
velho, porque os frangos novos, de granja, cozinham rapidamente e não dão um bom
caldo, que é o segredo do prato. Se não achar o frango, compre uma galinha — e
comece apenas a cozinhá-la mais cedo. Para quem não gosta de matar frango em
casa, os abatedouros fornecem não só o frango como também o sangue, já preparado
com o vinagre para não talhar.
Tome o frango, ou galinha, e tempere muito bem, com alho, sal, louro, cebola,
cebolinha, pimenta, pimenta do reino. Deixe de um dia para o outro ou algumas
horas dentro dessa vinha de alho. Retire os pedaços e afogue em gordura de porco
— a legítima cozinha mineira só pode ser feita com gordura de porco — deixando
corar. Depois de corados, junte o restante dos temperos, água e deixe cozinhar.
Estando o frango cozido e na hora de servir, junte o sangue, misturado com 1
colher de sopa rasa de farinha de trigo ou maizena e um pouco de água. Não ferva
muito para não talhar. Sirva com arroz branco, quiabo e angu.
A hora do café
Na hora do café, lá vinha a escrava chamar a sinhá para chegar até à mesa. A
mesa, enorme, estava cheia de quitutes, entre os quais os famosos biscoitos
mineiros (o enche-caixote por exemplo não pode ser mais feito hoje, pois a uma
massa de polvilho juntavam-se dúzias de ovos até formar uma pasta que assada em
forno de barro transformava-se em um biscoito grande e fofo, daqueles que "somem
na boca") os bolos de fubá, feitos com coalhada e erva doce, e os biscoitos de "porvilho",
os famosos sequilhos. Para você experimentar a força da culinária mineira, aqui
estão eles, depurado de seus excessos de ovos e manteiga.
Biscoito de polvilho
Tome 250 gramas de polvilho peneirado. 4 colheres de açúcar, 1 colher de
manteiga, 2 gemas e 2 colheres de água. Misture tudo, amasse bem e abra fino,
com um rolo. Corte em rodelas de 4 cm de diâmetro e leve a assar no forno.
Biscoito de milho
Tome 225 gramas de fubá de milho fino, 350 gramas de polvilho peneirado, 60
gramas de manteiga, 112 gramas de banha, 225 gramas de açúcar, 2 ovos e 1 colher
de chá de sal. Junte os ovos, o açúcar e as gorduras, bata, junte o fubá com
polvilho, amasse, faça pequenas argolas e leve para assar em tabuleiro
polvilhado.
Junto com os biscoitos, os doces simples de frutas com rapadura:
Rapadura com mamão
Leve ao fogo 3 litros de melado (feito com rapadura e água) e deixe ferver até
açucarar; ponha 3 xícaras de mamão ralado e torne a tomar ponto. Despeje em
tabuleiro untado e, depois de frio, corte em quadrados. O mamão é verde — e se
você tiver a felicidade de encontrar, substitua a fruta pelo caule do mamoeiro,
que ainda é melhor.
Docinhos de abóbora
Pese 1/2 quilo de abóbora bem madura descasque-a e ponha a cozinhar em pouca
água. Escorra, passe pela peneira, junte 1/2 quilo de açúcar, 1 coco ralado e
leve ao fogo num tacho, sempre mexendo, até soltar do fundo. Deite bocados
compridos, como cocadas, num tabuleiro. Polvilhe com açúcar por meio de uma
peneira e deixe secar ao sol, ou na estufa.
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