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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

cancioneiro

ANO VI - EDIÇÃO 69
Agosto 2004

Cancioneiro
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A peleja do cego Sinfrônio com Manuel Passarinho

Folclore de Caçaroca, por Guilherme Santos Neves

Quadrinhas do folclore ilhéu, por Osvaldo F. de Melo (filho)
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Capa
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Festança
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


Quadrinhas do folclore ilhéu

Osvaldo F. de Melo (filho)

Há dias, divulguei pela página literária do jornal A Gazeta, algumas quadrinhas tradicionais que colhi, de bons informantes, no interior da ilha de Santa Catarina. Num pequeno comentário dizia eu que o material divulgado parecia próprio para uma página literária, porque ali estava fixado o lirismo do colonizador luso. Mas, não é só o fundo lírico que dá valor àqueles versos. Para o estudo demopsicológico eles são importantes. Já tive oportunidade de expender a minha opinião de que ninguém poderá escrever sobre o homem da Ilha (o nosso litorâneo, aliás) com penetração e fundo psicológico, sem conhecer a sua poesia.

E a poesia do nosso pescador ou do nosso pequeno agricultor está representada nas suas quadrinhas. Elas acompanham o homem no seu trabalho; são musicadas nos bailes e nas ratoeiras e nos fandangos, constituem-se tema principal.

Daí porque agora, pelo Boletim Trimestral, trago aos leitores de outros pontos do país, aquelas quadrinhas que selecionei dentre uma centena, aproximadamente. Possivelmente um ou outro estudioso as aproveitará para efeito de análise e comparação.

Algumas quadrinhas encerram um fundo romântico. Geralmente há notáveis comparações ou figuras poéticas:

Açucena quando nasce
Longe do pé bota flor
Na ausência se conhece
Quem é firme no seu amor

Fui à praia comprar peixe
Comprei um pampo dourado
Dentro do pampo encontrei
O teu coração retratado

Bananeira, chora, chora
Pelos filhos que tem
Cortam o cacho, chora a mãe
Ficam os filhos sem ninguém

O meu amor foi embora
Pra banda que o sol entrou
O sol já foi, já veio
Meu amor foi e ficou

Perguntei ao sol se viu
À lua se conheceu
Às estrelas se encontraram
Amor firme como o meu

Menina não se encoste
Que a parede tem pó
Só encoste nos meus braços
Que o amor é um só

Outras lembram o violeiro decepcionado ou...

Tu andas te gabando
Que tens muito "aonde" escolhas
Toma cuidado, não fiques
Como a figueira sem folhas

Vou escrever uma carta
Com a pena do quero-quero
Pra te mandar dizer
Que não te ligo nem te quero

Quem zombou do meu amor
Foi a minha namorada
Pensa que eu tenho paixão
Paixão, não tenho nada

Num copo de salsa verde
Num copo de verde salsa
Mais vale uma feia firme
Que uma bonita falsa

Muitas delas têm um sentido jocoso:

Da minha casa pra lá
Todo mundo me quer bem
Só a mãe do meu amor
Não sei que raiva me tem

Atirei um cravo n'água
De teimoso foi ao fundo
Os peixinhos responderam
Vida dom Pedro II

Eu plantei a cana verde
Lá em baixo, na baixada
Me chuparam a cana toda
Só deixaram a bagaçada

Quem é amarelo não dança
Só dança quem é vermelho
O melhor dos dançadores
Dança dobrando o joelho

Outras, finalmente, usadas nos desafios, indicam a posição em que se coloca o cantador:

Quem quiser cantar comigo
Lave a boca com sabão
Olha que eu tiro cantigas
Da palma da minha mão

Não tenho medo de homem
Nemdo ronco que ele tem
O besouro também ronca
Vai-se ver não é ninguém

Eu sou cabra cantador
Canto uma semana inteira
Canto como gaturamo
Na ponta da laranjeira

Sou cantador de fama
E canto como um tié
Desafio cantador
Venha de onde vier

Assim, através dos seus versos, esboça-se o retrato psicológico do homem do litoral, em meio à pobreza, às dificuldades e às maleitas, ainda consegue perpetuar a sua poesia que é imortal, porque é a sua alma.

(Melo, Osvaldo F. de (filho). "Quadrinhas do folclore ilhéu". Boletim da Comissão Catarinense de Folclore. Florianópolis, ano 2, nº 8, junho de 1951)