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Osvaldo F. de Melo (filho)
Há dias, divulguei pela página literária do jornal A Gazeta, algumas
quadrinhas tradicionais que colhi, de bons informantes, no interior da ilha de
Santa Catarina. Num pequeno comentário dizia eu que o material divulgado parecia
próprio para uma página literária, porque ali estava fixado o lirismo do
colonizador luso. Mas, não é só o fundo lírico que dá valor àqueles versos. Para
o estudo demopsicológico eles são importantes. Já tive oportunidade de expender
a minha opinião de que ninguém poderá escrever sobre o homem da Ilha (o nosso
litorâneo, aliás) com penetração e fundo psicológico, sem conhecer a sua poesia.
E a poesia do nosso pescador ou do nosso pequeno agricultor está representada
nas suas quadrinhas. Elas acompanham o homem no seu trabalho; são musicadas nos
bailes e nas ratoeiras e nos fandangos, constituem-se tema principal.
Daí porque agora, pelo Boletim Trimestral, trago aos leitores de
outros pontos do país, aquelas quadrinhas que selecionei dentre uma centena,
aproximadamente. Possivelmente um ou outro estudioso as aproveitará para efeito
de análise e comparação.
Algumas quadrinhas encerram um fundo romântico. Geralmente há notáveis
comparações ou figuras poéticas:
Açucena quando nasce
Longe do pé bota flor
Na ausência se conhece
Quem é firme no seu amor
Fui à praia comprar peixe
Comprei um pampo dourado
Dentro do pampo encontrei
O teu coração retratado
Bananeira, chora, chora
Pelos filhos que tem
Cortam o cacho, chora a mãe
Ficam os filhos sem ninguém
O meu amor foi embora
Pra banda que o sol entrou
O sol já foi, já veio
Meu amor foi e ficou
Perguntei ao sol se viu
À lua se conheceu
Às estrelas se encontraram
Amor firme como o meu
Menina não se encoste
Que a parede tem pó
Só encoste nos meus braços
Que o amor é um só
Outras lembram o violeiro decepcionado ou...
Tu andas te gabando
Que tens muito "aonde" escolhas
Toma cuidado, não fiques
Como a figueira sem folhas
Vou escrever uma carta
Com a pena do quero-quero
Pra te mandar dizer
Que não te ligo nem te quero
Quem zombou do meu amor
Foi a minha namorada
Pensa que eu tenho paixão
Paixão, não tenho nada
Num copo de salsa verde
Num copo de verde salsa
Mais vale uma feia firme
Que uma bonita falsa
Muitas delas têm um sentido jocoso:
Da minha casa pra lá
Todo mundo me quer bem
Só a mãe do meu amor
Não sei que raiva me tem
Atirei um cravo n'água
De teimoso foi ao fundo
Os peixinhos responderam
Vida dom Pedro II
Eu plantei a cana verde
Lá em baixo, na baixada
Me chuparam a cana toda
Só deixaram a bagaçada
Quem é amarelo não dança
Só dança quem é vermelho
O melhor dos dançadores
Dança dobrando o joelho
Outras, finalmente, usadas nos desafios, indicam a posição em que se coloca o
cantador:
Quem quiser cantar comigo
Lave a boca com sabão
Olha que eu tiro cantigas
Da palma da minha mão
Não tenho medo de homem
Nemdo ronco que ele tem
O besouro também ronca
Vai-se ver não é ninguém
Eu sou cabra cantador
Canto uma semana inteira
Canto como gaturamo
Na ponta da laranjeira
Sou cantador de fama
E canto como um tié
Desafio cantador
Venha de onde vier
Assim, através dos seus versos, esboça-se o retrato psicológico do homem do
litoral, em meio à pobreza, às dificuldades e às maleitas, ainda consegue
perpetuar a sua poesia que é imortal, porque é a sua alma.
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