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Guilherme Santos Neves
Muitos dos estudiosos do folclore têm feito referência saudosa a velhas
criadas, de quem ouviram lendas, romances, cantigas, provérbios e ditos
populares. Foi assim, por exemplo, Almeida Garret, lembrando sempre, em vários
dos seus escritos, a "boa Brígida", em torna da qual se reuniam "os pequenos
todos da casa", enlevados a ouvirem, "meio cantados" ou "meio rezados (...)
romances populares ou xácaras de maravilhas e encantamentos, de lindas
princesas, de galantes e esforçados cavaleiros". Também Sílvio Romero, a
relembrar histórias da velha Antônia, "mucama de estimação", que lhe foi,
inconscientemente, a grande inspiradora dos seus trabalhos sobre folclore. Luís
da Câmara Cascudo, entre nós, recorda, com especial carinho, a velha Luísa
Freire, chamada na intimidade a Bibi, "figura familiar inseparável das [suas]
recordações de menino", e que foi — como confessa o mestre — "inesgotável fonte
de literatura oral brasileira". Dessa "Sherazade humilde e analfabeta" ouviu,
desde criança, principalmente contos e casos, que reouviu, anotou e, afinal,
publicou em seu informativo e precioso livro Trinta estórias brasileiras
(Porto, Portocalense Editora, 1955).
Aos nomes da velha Brígida, da mãe-preta Antônia, da Luísa Freire e de tantas
outras mulheres-folk, posso acrescentar — e comovido o faço — a Dalmacinha ou
Macinha, a nossa sempre lembrada Dalmácia Ferreira Nunes. Veio ela, em março de
1946, de Caçaroca, vilarejo capixaba, servir emnossa casa. Branca,
simpática,muito alta, de uma ingenuidade e simpleza cativantes, afeiçoou-se a
todos nós e, querida de todos, foi assim vivendo, sempre simples e boa,
interessada na vida comum, participando das alegrias e das tristezas,
acompanhando-nos quase sempre, salvo quando de suas rápidas visitas à Caçaroca —
sua terra natal — ou à Barra de Jucu, para rever parentes e amigos. E assim,
durante vinte e dois anos, Dalmácia viveu conosco — melhor, conviveu conosco —
integrada mesmo em nossa família. Todos lhe queríamos bem, a todos queria bem.
A partir de um determinado momento, no convívio alegre em casa, sentimos, com
espanto e alegria, que tínhamos conosco uma "preciosidade". Dotada de excelente
memória, Dalmácia sabia, como ninguém, um rol infinito de trovas populares.
Disse-nos que as aprendera desde criança, ouvindo-as de sua mãe, de suas tias e
gente doutros tempos, quase sempre quando, de noite, se reuniam para conversar
em serão. Trovas de amor, líricas e bonitas; trovas brejeiras a que se ligavam
flores, frutas, o sol e a lua; trovas — uma porção delas — sentenciosas. Aliás,
sempre senti que na boca de Dalmácia, as quadrinhas avulsas tinham, por vezes, a
intenção e o sabor de provérbios. Quase sempre as dizia ela no propósito da
conversa. Para comentar um fato, para registrar um instante, para fixar um
sentimento. Alguém falava em viajar, e logo, lá vinha a trova adequada:
Adeus, minha sempre-viva
Até quando nos veremos
As pedras do mar se encontram
Assimnós também seremos
Se alguém estava triste, ou em tristeza falava, Dalmácia logo, confortante:
Me dizei de que estás triste
Quero entristecer também
Que eu não gosto de ver triste
Coisinha que eu quero bem
Às vezes, provocávamos sua memória, referindo-lhe apenas o tema: "Dalmácia,
diga aí um 'verso' que fale em... peneira". E ela, sem tardar um nada:
Minha arupembinha d'ouro
Meu alecrim peneirado
Se vós tendes outro amor
Não me tragais enganado
Aliás, o que, a meu ver, comprova a antigüidade de quase todo o trovário de
Dalmácia, é o tratamento vós nele presente: em vez de tu ou você,
preferentemente o vós — tão corrente na boca de gente velhinha e simples:
Me zelai-me, amor, zelai-me
Me zelai como eu te zelo
Me zelais dentro do peito
Vereis o bem que te quero
E outros inúmeros versos no mesmo tratamento: "Se eu contar as minhas queixas
/ Vós não haveis de sentir..."; "O amarelo é desprezo / Vós sois quem me
desprezais..."; "Não é por morares longe / Que eu de vós hei de esquecer...";
"Penteai vosso cabelo / Da moda que vos convém..."
Em algumas de suas trovas sente-se um quê de filosofia prática, de mensagem
doméstica e social, de preceito de bom e bem viver. Esta, por exemplo:
Eu perguntei à Fortuna
De que é que eu viveria
Ela foi me respondeu
Que o tempo me ensinaria
Ou esta, que faz lembrar fonte de poesia culta:
De que me serve eu ter glória
Se tenho a vida emprestada
Que no fim da minha vida
Fiquei sem glória e sem nada?
Mas não apenas trovas sabia Dalmácia. Dela coligimos histórias curtas,
cantigas de vários gêneros, pequenas fábulas, superstições e crendices, orações
e simpatias, provérbios e frases-feitas...
Dalmácia — desde o dia 13 de agosto de 1968 — dorme, tranqüila, tranqüila,
onde sempre disse queria descansar: no pequenino cemitério da Barra do Jucu,
junto de parentes seus.
Sobre sua campa rasa, de pobre, bem se ajustariam estes versos do seu
trovário popular:
De correr venho cansada
De cansada me assentei
Achei o que procurava
Agora descansarei
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