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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

cancioneiro

ANO VI - EDIÇÃO 69
Agosto 2004

Cancioneiro
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A peleja do cego Sinfrônio com Manuel Passarinho

Folclore de Caçaroca, por Guilherme Santos Neves

Quadrinhas do folclore ilhéu, por Osvaldo F. de Melo (filho)
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Capa
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Festança
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


Folclore de Caçaroca

Guilherme Santos Neves

Muitos dos estudiosos do folclore têm feito referência saudosa a velhas criadas, de quem ouviram lendas, romances, cantigas, provérbios e ditos populares. Foi assim, por exemplo, Almeida Garret, lembrando sempre, em vários dos seus escritos, a "boa Brígida", em torna da qual se reuniam "os pequenos todos da casa", enlevados a ouvirem, "meio cantados" ou "meio rezados (...) romances populares ou xácaras de maravilhas e encantamentos, de lindas princesas, de galantes e esforçados cavaleiros". Também Sílvio Romero, a relembrar histórias da velha Antônia, "mucama de estimação", que lhe foi, inconscientemente, a grande inspiradora dos seus trabalhos sobre folclore. Luís da Câmara Cascudo, entre nós, recorda, com especial carinho, a velha Luísa Freire, chamada na intimidade a Bibi, "figura familiar inseparável das [suas] recordações de menino", e que foi — como confessa o mestre — "inesgotável fonte de literatura oral brasileira". Dessa "Sherazade humilde e analfabeta" ouviu, desde criança, principalmente contos e casos, que reouviu, anotou e, afinal, publicou em seu informativo e precioso livro Trinta estórias brasileiras (Porto, Portocalense Editora, 1955).

Aos nomes da velha Brígida, da mãe-preta Antônia, da Luísa Freire e de tantas outras mulheres-folk, posso acrescentar — e comovido o faço — a Dalmacinha ou Macinha, a nossa sempre lembrada Dalmácia Ferreira Nunes. Veio ela, em março de 1946, de Caçaroca, vilarejo capixaba, servir emnossa casa. Branca, simpática,muito alta, de uma ingenuidade e simpleza cativantes, afeiçoou-se a todos nós e, querida de todos, foi assim vivendo, sempre simples e boa, interessada na vida comum, participando das alegrias e das tristezas, acompanhando-nos quase sempre, salvo quando de suas rápidas visitas à Caçaroca — sua terra natal — ou à Barra de Jucu, para rever parentes e amigos. E assim, durante vinte e dois anos, Dalmácia viveu conosco — melhor, conviveu conosco — integrada mesmo em nossa família. Todos lhe queríamos bem, a todos queria bem.

A partir de um determinado momento, no convívio alegre em casa, sentimos, com espanto e alegria, que tínhamos conosco uma "preciosidade". Dotada de excelente memória, Dalmácia sabia, como ninguém, um rol infinito de trovas populares. Disse-nos que as aprendera desde criança, ouvindo-as de sua mãe, de suas tias e gente doutros tempos, quase sempre quando, de noite, se reuniam para conversar em serão. Trovas de amor, líricas e bonitas; trovas brejeiras a que se ligavam flores, frutas, o sol e a lua; trovas — uma porção delas — sentenciosas. Aliás, sempre senti que na boca de Dalmácia, as quadrinhas avulsas tinham, por vezes, a intenção e o sabor de provérbios. Quase sempre as dizia ela no propósito da conversa. Para comentar um fato, para registrar um instante, para fixar um sentimento. Alguém falava em viajar, e logo, lá vinha a trova adequada:

Adeus, minha sempre-viva
Até quando nos veremos
As pedras do mar se encontram
Assimnós também seremos

Se alguém estava triste, ou em tristeza falava, Dalmácia logo, confortante:

Me dizei de que estás triste
Quero entristecer também
Que eu não gosto de ver triste
Coisinha que eu quero bem

Às vezes, provocávamos sua memória, referindo-lhe apenas o tema: "Dalmácia, diga aí um 'verso' que fale em... peneira". E ela, sem tardar um nada:

Minha arupembinha d'ouro
Meu alecrim peneirado
Se vós tendes outro amor
Não me tragais enganado

Aliás, o que, a meu ver, comprova a antigüidade de quase todo o trovário de Dalmácia, é o tratamento vós nele presente: em vez de tu ou você, preferentemente o vós — tão corrente na boca de gente velhinha e simples:

Me zelai-me, amor, zelai-me
Me zelai como eu te zelo
Me zelais dentro do peito
Vereis o bem que te quero

E outros inúmeros versos no mesmo tratamento: "Se eu contar as minhas queixas / Vós não haveis de sentir..."; "O amarelo é desprezo / Vós sois quem me desprezais..."; "Não é por morares longe / Que eu de vós hei de esquecer..."; "Penteai vosso cabelo / Da moda que vos convém..."

Em algumas de suas trovas sente-se um quê de filosofia prática, de mensagem doméstica e social, de preceito de bom e bem viver. Esta, por exemplo:

Eu perguntei à Fortuna
De que é que eu viveria
Ela foi me respondeu
Que o tempo me ensinaria

Ou esta, que faz lembrar fonte de poesia culta:

De que me serve eu ter glória
Se tenho a vida emprestada
Que no fim da minha vida
Fiquei sem glória e sem nada?

Mas não apenas trovas sabia Dalmácia. Dela coligimos histórias curtas, cantigas de vários gêneros, pequenas fábulas, superstições e crendices, orações e simpatias, provérbios e frases-feitas...

Dalmácia — desde o dia 13 de agosto de 1968 — dorme, tranqüila, tranqüila, onde sempre disse queria descansar: no pequenino cemitério da Barra do Jucu, junto de parentes seus.

Sobre sua campa rasa, de pobre, bem se ajustariam estes versos do seu trovário popular:

De correr venho cansada
De cansada me assentei
Achei o que procurava
Agora descansarei

(Em Neves, Guilherme Santos. "Folclore de Caçaroca". Folclore. Vitória, nº 91, agosto de 1976)