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Meu povo, preste atenção
Vou contá o que se deu
Ninguém fique duvidando
Juro como aconteceu
Vou contá de um agora
Cantô que cantou mais eu
Fazem dezenove ano
Que eu cantei mais esse tal
Ele dizendo que era
Nascido lá no Arraial
Porém a nossa peleja
Se deu com nós em Sobral
Foi isso um dia de sabo
Quando na cidade entrei
Pela dez hora do dia
No Jaibara passei
Convite pra cantoria
Na mesma tarde encontrei
Pra casa do Zé Taveira
Fui eu logo convidado
Por um dito mano dele
Fui eu na rua encontrado
Pra casa do mesmo home
Foi outro cantô chamado
— Venha cá, seu Zé Taveira
Mais o seu mano Joãozim
Quero que preste atenção
Do grande ao pequeninim
Eu diverti mais um cego
Para ensina-lhe o camim...
— Venha cá, seu Zé Taveira
Como chefe da famia
Do grande ao pequeninim
Oiçam minha cantoria
O home que não tem vista
Só pode andar tendo guia!
— Ceguinho, afine a rabeca
Pode acosta-se à parede
Vem de comê, mata a fome
Vem aluá, mata a sede
— Cantadô, você me diga
Cumo tá no meio dos home
E não é meu conhecido
Me diga como é seu nome
— Eu sou Manuel Passarinho
Féli da Costa Soare
Engulo brasa de fogo
pego curisco nos are
Jogo pau, quebro cacete
Com cinco ou seis que chegare
— Meu nome é Sinfrônio Pedro
Martim é meu sobrenome
Boqué de nova açucena
Cravo branco, amô dos home
Feijãozim farta-guloso
É com que se mata a fome
— Sinfrone, me conta logo
A tua disposição
Óia que eu carrego o saibro
Das tuas informação
Andas com fama de duro
Aqui pelo meu sertão
— Eu não sei se será falso
E se é exato não sei
Mas cantô que me açoitasse
Ainda não encontrei!
Pode sê que eu inda encontre
Até onte eu não achei
— Sinfrone, se eu me zangá
Passo-te a peia no lombo
Dou três tapa — são três queda!
Três empurrão — são três tombo!
Se eu puxá por minha faca
Não tem quem te conte os rombo
— Não é com essas asneira
Que eu deixo de diverti
Quem conhecê não te compra
Eu nem quero descobri
Mas o cão é quem faz conta
De dez da felpa de ti!
— Cego, tu qué te metê
Em camisa de onze vara?
Quem com Passarinho arenga
Apanha de mão na cara
Em balança eu sempre peso
Dez cego não dão a tara!
— Nunca vi barco sem vela
E nem doente sem ansa
A onça, tanto acuada
Ninguém pega com lambança!
Vigie que falá é forgo
Obrá precisa sustança
Eu de dez não faço conta
Quanto mais de uma criança
— Por causa de confiança
Foi que eu vi um pequenino
Açoitá um home idoso
Cumo você — sem ensino
Cumo não tomou emenda
Morreu nas mãos dum menino
— Você tá fazendo arte
De eu metê-lhe em sujeição
Chamo aqui por dois soldado
E te boto na prisão
Você preso não é nada
O diabo é levá facão
— Você ficando mais véio
E ainda arrenovando
Tornando a nascê dez vez
Todas dez se batizando
Todas dez vindo cantá
Todas dez sai apanhando
— Orêia de abaná fogo
Cabeça de batê sola
Pestana de porco ruivo
Queixada de graviola
Canela de maçarico
Pé de macaco de Angola!
— Venta de pão de cruzado
Bucho de camaleão
Cara de cachimbo cru
Pescoço de garrafão
Testa de carneiro mocho
Fucim de gato ladrão
— Passarim, se eu dé-lhe um baque
Tenho pena de você
Cai o corpo pruma banda
E a cabeça — pode crê!
Passa das nuve pra cima
Só volta quando chuvê
— Cantadô nas minhas unha
Passa mal que se agoneia
Dou-lhe almoço de chicote
Janta pau, merenda peia
De noite ceia tapona
E murro no pé da orêia
— Passarim, agora mermo
Começou a carretia
Eu vou entrá no teu couro
Que nem faca em melancia
Cuié em mamão maduro
Ou crimatá na água fria
— Este cego só cantando
Por arte do capiroto!
Agora é que eu reparei
Que este sujeito é canhoto
Eu vou saindo de banda
Senão eu saio é de chouto
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